Desafio Literário | Outubro: Graphic Novel

Sinopse

‘Persépolis’ é a autobiografia em quadrinhos da iraniana Marjane Satrapi, que tinha apenas dez anos quando se viu obrigada a usar o véu islâmico, numa sala de aula só de meninas. Nascida numa família moderna e politizada, em 1979 ela assistiu ao início da revolução que lançou o Irã nas trevas do regime xiita – apenas mais um capítulo nos muitos séculos de opressão do povo persa. Vinte e cinco anos depois, com os olhos da menina que foi e a consciência política à flor da pele da adulta em que se transformou, Marjane emocionou leitores de todo o mundo com essa autobiografia em quadrinhos, que só na França vendeu mais de 400 mil exemplares. Em ‘Persépolis’, o pop encontra o épico, o oriente toca o ocidente, o humor se infiltra no drama – e o Irã parece muito mais próximo do que poderíamos suspeitar.

Persépolis entrou para o meu grupo especial de obras cuja leitura me afetou profundamente. Eu acho que, neste caso, o conceito de graphic novel é ultrapassado de todas as maneiras. Persépolis é algo mais, mesmo que eu não saiba ainda exatamente o quê. E eu não me refiro aqui a questões estéticas, mas a questões de significado mesmo, de mensagem.

Em linhas gerais, a coisa é simples: a autobiografia da artista iraniana Marjane Satrapi. O que não é tão simples é a trajetória dessa menina tão franca e inteligente, crescida em meio a revoluções e guerras envolvendo direta e indiretamente o seu país do fim da década de 1970 em diante.

A minha edição é a antiga, lançada em quatro fascículos em 2004 pela Cia das Letras, mas meu contato com autora e sua obra foi em 2006, nessa reportagem publicada pela revista Aventuras na História. Foi aquele texto que despertou meu interesse para ler Persépolis.

Em sua obra, Marjane consegue mostrar claramente como as tradições de seu país massacram seus indivíduos (que não são tratados como tal pelo regime), em lugar de favorecê-los – obviamente isso é ingenuidade da minha parte, uma vez que a obediência às tradições geralmente tem como objetivo favorecer o estado, e não o seu povo.

O fato de ter lido essa graphic novel em partes me permitiu classificar melhor as sensações que cada fascículo provocou em mim. O primeiro é maravilhoso, divertido, e o retrato que a Marjane faz de si própria criança é uma gracinha! O segundo apresenta a transição da adolescência num processo já muito influenciado pelos conflitos sociais que se aproximam cada vez mais do universo da autora, por isso a leitura se torna mais “cinzenta”, particularmente no fim. O terceiro fascículo é literalmente o fundo do poço, denso, pesado e triste. O último, por sua vez, é um brilhante encerramento de uma obra singular, que marca não apenas o amadurecimento de Marjane como também a consolidação de escolhas difíceis sobre o seu destino, no intuito de ser verdadeira consigo mesma e de ser feliz, num paradoxo que me acompanhou o tempo todo durante a leitura: como uma mulher tão corajosa, de personalidade tão forte, viveu tudo isso num país tão repressivo? Marjane põe abaixo os pilares que acorrentam a mulher no Irã e leva essa independência para a Europa quando se muda para lá.

“[Em entrevista com o mulá [religioso] para ingresso na universidade no Irã]

– Srta. Satrapi, estou vendo em seu dossiê que morou na Áustria… usava o véu lá?

– Não, sempre achei que, se os cabelos das mulheres trouxessem tantos problemas, Deus certamente teria nos criado carecas.

– A senhorita sabe rezar?

– Não.

– Posso saber por quê?

– Como todos os iranianos, não entendo o árabe. Se rezar é falar com Deus, prefiro fazer isso numa língua que eu conheça. Acredito em Deus, mas me dirijo a ele em persa. O profeta Maomé disse: ‘Deus está mais perto de nós do que nossa jugular’. Deus sempre está conosco, está em nós! Não é?

– Obrigada, srta. Satrapi, pode se retirar.” (Persépolis, volume 4)

 O diálogo entre Ocidente e Oriente proporcionado por Persépolis é muito sincero no sentido de não camuflar, de maneira nenhuma, os conflitos gerados pelo impacto do contato cultural da autora em sua vivência na Europa. É por isso que essa HQ não tem o seu valor restrito ao universo iraniano, pois várias questões levantadas por Marjane se apresentam em diversas outras sociedades também, só nos cabe descobri-las.

Nota: ­­5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados]

Blog do Desafio Literário 2012

Persépolis
Marjane Satrapi
Cia das Letras
2004
352 páginas

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5 comentários sobre “Desafio Literário | Outubro: Graphic Novel

  1. Persépolis é demais!!! Como eu já li há algum tempo, não pude colocá-lo no desafio esse ano… mas concordo contigo… tem um “algo mais” inexplicável. Eu li esse mês “Bordados”, da Marjani, e a resenha deve ficar pronta logo.

  2. Sou louca para ler essa graphic novel, mas até agora só vi o filme. As transformações enfrentadas pela garota são bem difíceis e mostradas de forma tocante, mas não melodramática. Ótima escolha para o DL.
    bjo

  3. Não sabia dessa edição em fascículos. Tenho a edição mais nova que ainda não li. De fato, alguns livros, pela riqueza do conteúdo e mensagem, ultrapassam as delimitações de gênero e quaisquer outras classificações.

  4. Pois vá atrás, Michelle, e leia a graphic novel, sim! Além de um complemento à versão animada, vai agregar detalhes que, infelizmente, tiveram que ser suprimidos no cinema. Um beijo!

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