Desafio Literário | Agosto: Terror

Sinopse

“Durante o início da década de 1990, a escritora inglesa Angela Carter coletou em dois volumes, para a editora Virago, contos de fadas do mundo inteiro, tendo concluído a segunda coletânea pouco antes de morrer.

No entanto, há poucas fadas nestas páginas, e o leitor também terá dificuldades em encontrar príncipes encantados e caçadores que resolvem tudo no último momento. Escritas numa época em que esse tipo de história não era destinado a crianças, as fábulas aqui reunidas dão lugar a uma série de tias malévolas, esposas traiçoeiras, irmãs excêntricas e perigosas feiticeiras.

Por terem sido registrados em papel pela primeira vez nos últimos duzentos ou trezentos anos, os contos oferecem – correndo por detrás da trama – um retrato do dia a dia no mundo pré-industrializado e um pouco das dinâmicas sociais e outros detalhes que com o tempo se perderam. Mais que isso, na tradição das histórias italianas reunidas por Italo Calvino, essas narrativas – selecionadas de 103 contos de fadas, publicado pela Companhia das Letras – oferecem um registro precioso de algumas matrizes que posteriormente acabaram assimiladas pela literatura ocidental.”

Um ponto muito positivo da minha leitura deste mês foi o fato de ter tido contato novamente com um tipo de narrativa que há muito tempo eu não lia: os contos de fadas. Uma outra coisa muito legal da coletânea organizada pela pesquisadora inglesa Angela Carter foi reunir contos de várias partes do mundo e isso é algo que instiga a minha curiosidade, achei muito bacana esse descentramento na seleção das histórias, contemplando não apenas contos ingleses e franceses, mas também egípcios, chineses, inuítes (da cultura esquimó), ciganos, armênios, entre outros. Estes últimos, inclusive, são muito mais interessantes do que aquele que dá título ao livro.

A coisa chata da escolha dessa leitura foi a propaganda enganosa proporcionada pelo título da versão brasileira: A menina do capuz vermelho – e outras histórias de dar medo. Acontece que nenhuma das histórias dá medo e isso me deixou bastante decepcionada. Talvez a equipe editorial tenha confundido medo com bizarrice e isso foi determinante para contar como ponto negativo em minha opinião. Vários contos têm aspectos bizarros misturados ao quê da mágica do conto de fadas, mas nada nem perto de causar medo ao leitor, como mostra o trecho a seguir, que retirei do conto “As duas mulheres que conquistaram a liberdade”, do folclore inuíte:

“Finalmente as duas mulheres ficaram meio cansadas do marido. Elas o abandonaram e lá se foram correndo pela costa até ficarem esgotadas e famintas. Quando não tinham mais forças para avançar, avistaram a enorme carcaça de uma baleia numa praia. Rastejaram para dentro da boca e se esconderam dentro da carcaça. O cheiro era repugnante, mas antes um cheiro repugnante do que mais uma surra.” (pág. 111)

Ao todo, são 20 contos, alguns dos quais guardam as raízes dos nossos velhos conhecidos “Cinderela” (“Casaco de Musgo”, conto cigano inglês) e “Branca de Neve” (“Nourie Hadig”, conto armênio). Ah, também em “A Batalha dos Pássaros” (conto gaélico escocês), vi muitos indícios dos Doze Trabalhos de Hércules! Vale dizer aqui que as versões amplamente conhecidas elaboradas pelos Irmãos Grimm e cia são muito menos interessantes do que essas versões mais próximas dos originais da cultura oral presentes nesse livro.

Entre os meus prediletos, cito “A Menina Inteligente” (conto russo), “Catarina Quebra Nozes” (conto inglês), “A Princesa com a Roupa de Couro” (conto egípcio) e “Bela e Rosto Bexiguento” (conto chinês). Alguns outros me pareceram completamente sem graça, como “Como um marido curou a esposa viciada em contos de fadas” (russo) e “O Povo com Focinho de Cachorro” (letão), por exemplo.

Destaco o interessante texto de introdução escrito por Angela Carter logo no início do livro, no qual ela discorre sobre o gênero do conto de fadas e fala sobre o seu processo de pesquisa para compor a coletânea. É muito legal observar como a mulher tem papel preponderante não apenas como contadora e maior difusora desse tipo de gênero literário, mas também como personagem das histórias, porque é sempre a figura feminina que desequilibra e dá graça ao enredo, seja para o bem, seja para o mal.

Enfim, foi uma leitura proveitosa e que eu recomendo muito, embora o terror proposto para este mês pelo DL tenha ficado apenas na promessa do título traduzido dessa coletânea.

Nota: ­­4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados]

Blog do Desafio Literário 2012

A Menina do Capuz Vermelho – E Outras Histórias de Dar Medo
Angela Carter
Penguin Companhia (Cia das Letras)
2011
142 páginas

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2 comentários sobre “Desafio Literário | Agosto: Terror

  1. É sempre chato quando escolhemos um livro para o desafio literário e no final ele não se encaixa tão bem no tema (isso já aconteceu comigo umas vezes)…

    Eu já tinha ouvido falar desse livro e nunca tinha me interessado, mas sua resenha me convenceu a ler algum dia.

  2. A leitura vale a pena, Lígia. Só não se encaixa bem na proposta do mês do DL, embora o título sugira algo relacionado ao medo…

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