Desafio Literário | Julho: Prêmio Jabuti

Sinopse

“De um lado, Lavo, o narrador-personagem, órfão criado por tia pobre. Do outro, Mundo, em eterno conflito com o pai, o milionário Jano, que não aceita sua decisão de trocar os negócios da família pelo mundo da arte.

‘Cinzas do Norte’ (2005) foi o terceiro romance de Milton Hatoum a ganhar o Prêmio Jabuti. Ambientado em Manaus, traça, com fortes tintas políticas, um panorama dos anos 1960 à década de 1980, incluindo o golpe militar de 1964, a ditadura e a abertura.

Em entrevista dada à época do lançamento do livro, Hatoum se comparou a Lavo e a Mundo, os amigos cuja história narra: ‘Sou um pouco esses dois personagens, dividido entre ficar na província e sair para o mundo.’ Nascido em Manaus, em 1952, ele conseguiu ganhar o mundo ao falar de sua província: situados no Amazonas, romances como ‘Relato de um Certo Oriente’, ‘Dois Irmãos’, ‘Cinzas do Norte’ e ‘Órfãos do Eldorado’ consolidaram-no como uma das mais vigorosas vozes da literatura brasileira contemporânea. (Irineu Franco Perpétuo – Colaborador da Folha)”

Neste mês eu mudei a minha opção para a resenha deste Desafio Literário. Mudei parcialmente, pode-se dizer. Troquei o título, mas não o autor. Eu havia escalado para este mês a leitura de Órfãos do Eldorado, de Milton Hatoum, livro (que eu já tinha na estante na fila para leitura) finalista do Prêmio Jabuti em 2009, mas – mudança de planos! – acabei comprando a Coleção de Literatura Ibero-Americana da Folha de S.Paulo e eis que entre os livros da coleção está nada mais nada menos do que Cinzas do Norte, vencedor do Jabuti em 2006. Coincidentemente, este é o terceiro livro publicado por Hatoum – Órfãos do Eldorado é o quarto – e eu já li os dois primeiros: Relato de um Certo Oriente e Dois Irmãos. Então, como sou uma pessoa meio metódica, resolvi prosseguir na ordem de lançamento dos livros e substituí Órfãos do Eldorado por Cinzas do Norte. Será que minha explicação ficou confusa, ou será que deu pra entender?

Bem, mais uma vez, eu terminei a leitura em cima do prazo de fechamento do mês e ainda estou refletindo sobre o livro. Confesso que ainda não sei exatamente se gostei ou não da leitura. Mas percebi alguns prós e contras que vou comentar aqui.

Em Cinzas do Norte, o leitor já começa a par do desfecho da história. Pelo menos do desfecho básico. Há um detalhe que fica pro final, mas também preciso admitir que essa tal informação não me surpreendeu. Aliás, os livros de Milton Hatoum não são propriamente obras que surpreendem, mas que chamam a atenção acima de tudo por sua qualidade literária e pela extrema habilidade do escritor em ir e vir no tempo e no espaço para desenvolver o enredo, saindo do esquema básico do começo, meio e fim.

Eu acho que, em termos de personagens, Mundo não consegue segurar “tão bem o rojão” quanto Omar e Yaqub em Dois Irmãos – este é o mal, quando a gente já leu outras obras do autor, pois as comparações acabam sendo inevitáveis. A título de narradores, eu vi muito do Nael (narrador de Dois Irmãos) em Lavo, o principal contador da história de Cinzas do Norte.

Eu creio que, no caso da obra escolhida para este mês no DL, o forte seja a história, e não um ou outro personagem. É o conjunto que toca o leitor, que o impulsiona a levar adiante a leitura, mesmo sabendo o que vai acontecer no final.

“No fim de novembro recebi quatro esboços com desenhos de roupa rasgada e três pequenas aquarelas com paisagens da Vila Amazônia. Nenhuma carta, nem mesmo um bilhete. Mais estranha foi a série de envelopes que Mundo me enviou em seguida, todos postados na mesma data: em cada um deles, uma folha branca, na frente e no verso. Uma brincadeira? Ramira perguntou: ‘O que esse maluco do teu amigo quer dizer?’” (pág.219)

Um ponto que eu considero um indício indiscutível da qualidade da história de Miltom Hatoum é a maneira como ele administra uma prosa marcada principalmente pelas elipses – muuuuita coisa fica ar, contudo, o leitor não é impedido de deduzir o que está acontecendo e de juntar as peças do quebra-cabeça – e também narrada por mais de uma pessoa, pois, de um determinado ponto em diante, as versões de Lavo e de Ranulfo se complementam – uma vez que ambos veem a história com pontos de vista diferentes – sem causar confusão na cabeça de quem lê e possibilitam a constituição do quadro completo do enredo, um quadro feito de pares trocados e da infelicidade resultante disso, pois fica evidente que Mundo seria um rapaz completamente diferente e mais alegre se Alícia tivesse se casado com Ranulfo, e não com Jano, que, por sua vez, sofreu a vida toda porque somente uma mulher como Ramira era capaz de entendê-lo e assim por diante. Tudo isso em um cenário histórico de ditadura militar, porque pra que é que o autor vai facilitar as coisas, se ele pode dificultar, não é mesmo? 😀

Pra finalizar, em Cinzas do Norte, Milton Hatoum mostra que é possível poetizar a tristeza e o sofrimento por meio de uma narrativa que enche os olhos, dotada de uma sensibilidade e de uma delicadeza extremas. É bonito de se ler, sem dúvida. No fim das contas, minha avaliação é mais positiva do que negativa, como se pode ver.

Nota: ­­4
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados]

Blog do Desafio Literário 2012

Cinzas do Norte
Milton Hatoum
Folha de S.Paulo/MEDIAFashion
(Coleção Folha Literatura Ibero-Americana, vol. 21)
2012
264 páginas

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s