Cinema | Albert Nobbs e as identidades de gênero em xeque

Eu fiquei bastante tempo pensando depois de assistir a esse filme. Primeiro, fiquei tentando descobrir o objetivo de toda uma trama tão bem cuidada visualmente e de enredo tão triste. Albert Nobbs (Glenn Close) é uma casca que, aos poucos, conseguiu esvaziar seu miolo sem se dar conta disso.

A conclusão à qual eu cheguei foi a de que o grande mote do filme é a discussão do difícil papel da mulher no século XIX. Depois, pensei que, mais do que a mulher, o próprio debate sobre os gêneros parece ser a grande questão da história.

Em maior e em menor escala, os vários estereótipos femininos e masculinos que constituem o universo de Nobbs são claros exemplos de como a construção social do gênero é capaz de pôr em xeque os papéis convencionalmente aceitos de homem e mulher. Nesse contexto, alguns exemplos de personagens questionadores de modelos tradicionais ganham destaque no enredo, como a trabalhadora de serviços gerais Hubert Page (Janet McTeer), uma homossexual que, após sofrer nas mãos de um marido bêbado, decide abandoná-lo e, travestida de homem, assumir uma relação formal com uma costureira. Já a mulher jovem, ingênua e objeto das ambições masculinas é personificada pela arrumadeira Helen Dawes (Mia Wasikowska), enquanto a mulher que explora e que vive do lucro sobre o trabalho de homens e mulheres é a dona do hotel no qual Albert Nobbs ganha seu sustento como garçom, a velha e truculenta Sra. Baker (Pauline Collins).

Embora os personagens masculinos não consigam surpreender enquanto construção de personalidades de peso na trama, seus perfis também são cuidadosamente preparados para contemplar as diferentes facetas masculinas: a do ambicioso explorador (o jovem Joe Mackenzie, interpretado por Aaron Johnson), a do médico que ocultava uma relação amorosa por causa das convenções sociais Dr. Holloran (Brendan Gleeson), a do bonitão rico e desajuizado Visconde Yarrell (Jonathan Rhys Meyers), entre outros. Numa sociedade patriarcal como a irlandesa do século XIX, entretanto, nada do que esses homens fizeram saiu da esfera do previsível. Por isso, são as mulheres que movimentam o filme.

Albert Nobbs é a prisão na qual a personagem de Glenn Close escolhe se esconder para suportar uma vida em sociedade após uma infância conturbada e uma adolescência marcada pelo abandono e pelo abuso sexual. Para se proteger do perigo de “ser mulher” e alcançar o sonho da independência financeira com a compra de uma tabacaria, ela opta por se travestir de homem e trabalhar em um hotel, escondendo de todas as pessoas a sua verdadeira identidade.

Até aí, nada de novo para quem já conhece personagens que também escolheram ocultar sua identidade biológica, como a Yentl de Barbra Streisand, por exemplo. Ocorre que, ao contrário de Yentl, o destino de Albert Nobbs não envolve tramas românticas diretamente. E talvez seja isso que dê certa originalidade ao filme: a constatação de que a protagonista não se traveste de homem para cair naquela armadilha de se apaixonar por um homem e de viver o dilema de contar-lhe ou não a verdade – agora me lembrei também do mangá A Princesa e o Cavaleiro do Tezuka. As aspirações de Nobbs são concretas, e não sentimentais. Sua busca é, antes de tudo, pela segurança financeira e material, por isso ela junta cada centavo de cada gorjeta para comprar sua tabacaria. E, nesses planos, não cabe um príncipe encantado.

O relacionamento de amizade que Nobbs estabelece com Hubert Page é que lhe permite questionar sua condição, suas aspirações e, mais do que isso, permite-lhe descobrir que sua decisão é um caminho sem volta, pois ela já não “sabe” mais ser uma mulher depois de tantos anos se fingindo de homem – a cena de ambas andando na praia vestidas como mulher e seu visível deslocamento perante as pessoas e o ambiente é uma das melhores do filme.

E aí surgem as perguntas que alimentam as horas e horas de reflexão, pois o que de fato se entende por ser uma mulher? E, se Albert Nobbs esconde por baixo de sua casca uma mulher que já não consegue mais sustentar sua identidade biológica, a nobreza demonstrada por ela com todos a sua volta – a grande virtude de Nobbs – então caracterizaria uma suposta masculinidade? Chocam-se aí as construções sociais de padrões tradicionalmente enraizados de uma sociedade patriarcalista com as possibilidades de questionar características erroneamente relacionadas a um gênero ou a outro. É também esse tipo de interpretação social que ajuda a sustentar a farsa do competente trabalhador Hubert Page.

Albert Nobbs e Hubert Page servem para questionar as possibilidades femininas de que a mulher serve apenas para saciar os anseios masculinos, como a arrumadeira Helen Dawes, ou, quando pode ser bem-sucedida, como a Sra. Baker, não é capaz de tratar dignamente seus funcionários. Mas eu ainda acho que as coisas não se esgotam por aí. Albert Nobbs pode oferecer muitas outras reflexões. Estas são apenas algumas primeiras ideias.

Baseado em um conto do escritor irlandês George Moore (1852-1933), chamado “A singular vida de Albert Nobbs”, o filme conta com um belo tratamento estético que inclui, é claro, a impressionante maquiagem usada por Glenn Close. Eu ainda gostaria de ler o texto que deu origem à produção para o cinema.

Ficha técnica

Albert Nobbs
Direção: Rodrigo García
Ano: 2011
País: Reino Unido / Irlanda
Gênero: Drama
Duração: 113 minutos
Elenco: Glenn Close (Albert Nobbs); Mia Wasikowska (Helen Dawes); Aaron Johnson (Joe Mackenzie); Janet McTeer (Hubert Page); Pauline Collins (Mrs. Baker)

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2 comentários sobre “Cinema | Albert Nobbs e as identidades de gênero em xeque

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