Por que estudo a obra de Wenceslau de Moraes

Wenceslau de Moraes (1854-1929) Na reta final da escrita da minha dissertação, resolvi pôr no papel de maneira bem informal, porém não menos válida por causa disso, as minhas razões para ter, ao longo de pouco mais de dois anos, direcionado uma pesquisa acadêmica sobre o escritor português Wenceslau de Moraes, buscando enxergar o Japão em suas obras.

Em 2009, quando meu orientador, o professor Helder, apresentou-me a obra de Moraes, acho que nem mesmo ele tinha noção do impacto que isso teria em minha vida profissional e acadêmica. Disse ele: “Há um autor português muito bom, mas ninguém anda estudando a obra dele, justamente pelo fato de ser preciso entender um pouco de Japão para, então, entender como isso influencia seus textos. É o Wenceslau de Moraes, você o conhece?”

Não, eu não o conhecia. Mas, sem dúvida, conhecê-lo mudou a minha vida. Antes de iniciar o meu mestrado em Literatura, eu trabalhava como jornalista em um periódico semanal nipo-brasileiro. Por ocasião do centenário da imigração japonesa, tive a oportunidade de produzir e editar, juntamente com uma pequena equipe muito antenada, uma revista sobre cultura japonesa. Esse trabalho se estendeu por pouco mais de um ano. E foi uma grande experiência para mim.

Durante o período em que fiz a revista, meu objetivo sempre foi o de tentar “traduzir” a cultura japonesa para os leitores ocidentais, sabidamente a nossa maior fatia de público. E então eu comecei a ler os livros do Wenceslau e percebi que ele fazia justamente isso: tentava traduzir tudo o que via e que vivia no Japão para os seus leitores portugueses, uma vez que seus textos eram publicados em jornais, revistas e, posteriormente, em forma de livros em Portugal.

Moraes viveu pouco mais de 30 anos no Japão e o tempo todo pôs essa experiência a serviço da Literatura. Ou pôs a Literatura a serviço de um debate sociocultural interessantíssimo. Eu, como jornalista, também tentei fazer isso – em muito menor escala, que fique claro –, mas essa coincidência fez todo o sentido para mim. Primeiro, porque estudar a sua obra significava uma espécie de continuidade acadêmica de minha atividade profissional predecessora. Segundo, porque, com 30 anos de Japão e uns 20 livros publicados, Wenceslau de Moraes provou que era possível fazer o que eu e minha equipe tentamos, sonhamos, praticamos, e tudo mais, só que com muito menos tempo para fazer dar certo.

Passando por vários gêneros literários e lidando com espantosa facilidade com os mais diversos temas, Moraes deixou um legado que vale muito a pena conhecer e que indiscutivelmente é parte de um processo de maior conhecimento entre Oriente e Ocidente, porque, ao escrever sobre o Japão, ele não deixava de problematizar Portugal e o homem ocidental. Conhecer o oriental significou, para ele, uma chance de melhor compreender o ocidental, pois, por mais que digam o contrário, ambos sempre andarão juntos – são faces da mesma moeda. É por isso que eu estudo a obra de Wenceslau de Moraes.

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