Desafio Literário | Maio: Fatos históricos

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Sinopse

“Publicado com sucesso nos Estados Unidos, o romance A cor púrpura ganhou o Prêmio Pulitzer de Ficção em 1983, e ficou ainda mais conhecido após a adaptação de Steven Spielberg para o cinema, no filme estrelado por Whoopi Goldberg – como Celie – e Oprah Winfrey – como Sofia. Em 1986, saía a primeira edição do livro no Brasil, que logo figuraria na lista dos mais vendidos.

‘Querido Deus’: assim começa a maior parte das cartas escritas por Celie. Negra, semianalfabeta, vivendo no Sul dos Estados Unidos, subjugada a um homem que ela pensa ser seu pai, forçada a viver longe dos dois filhos e com um marido a quem não ama, Celie vive entre cuidar da família e planejar uma vida diferente da sua para a irmã, Nettie.

As duas irmãs passariam trinta anos sem notícias uma da outra, Celie confiando seus pensamentos a Deus, seu único correspondente. Até que sua amizade com Shug Avery, cantora de sucesso e amante de seu marido, lhe dá outra perspectiva da vida. Em oposição à solidão, pobreza, brutalidade e violência, Celie descobre novas maneiras de sentir: beleza, conforto, desejo, amor, saudade, esperança e consciência de si.”

Esta é a primeira vez que leio um romance epistolar, constituído – e muito bem constituído – basicamente por textos que são cartas que a protagonista Celie escreve para Deus e para sua irmã Nettie falando sobre sua vida – além de cartas de Nettie para Celie.

A primeira vez que ouvi falar sobre Alice Walker foi na primeira disciplina do mestrado, quando tive a oportunidade de estudar com um colega que havia feito a sua pesquisa sobre ela e sobre A Cor Púrpura. Daí foi um pulo para eu assistir ao filme e para adquirir em um sebo de Pinheiros um exemplar do livro, que guardei para ler agora.

Esse livro de Alice Walker conta com uma sinceridade que chega a ser ultrajante a realidade dos negros norte-americanos – especialmente das mulheres negras norte-americanas – nos EUA da primeira metade do século XX. Para tanto, o romance tem seus pilares em duas personagens femininas espetaculares: Celie, a principal redatora das cartas, e Sofia, mulher de Harpo, o filho mais velho do Sinhô, o homem com o qual Celie é forçada por seu padrasto a se casar.

Celie, que começa a escrever as cartas aos 14 anos, é a mulher que sofre em silêncio, com uma resignação que só pode ser concebida pelo medo. Sofre constantemente com a violência doméstica, primeiro por parte do padrasto, que a estupra repetidas vezes, do que decorre duas gravidezes – Celie é separada de suas crianças pouco depois do nascimento de cada uma delas –, depois por parte do marido, um homem violento, que não a ama, e que só vê nela a possibilidade de ter uma mulher para cuidar dos numerosos filhos frutos de seu primeiro casamento. Mas a violência que afeta seriamente a vida de Celie não é apenas de natureza física, mas também psicológica, conforme se pode perceber pelo trecho abaixo, no qual o padrasto de Celie está oferecendo-a para se casar com Sinhô:

“A verdade, ele fala, é queu tenho que me livrar dela. Ela é muito velha pra ta vivendo aqui na casa. E é má influência pra minhas outras minina. Ela leva a roupa dela. Ela pode levar aquela vaca que ela tá criando lá atrás do celeiro. Mas a Nettie positivamente o senhor num pode levar. Nem agora. Nem nunca.

Sinhô fala finalmente. Limpando a garganta. Eu realmente nunca olhei pra ela, ele fala.

Bom, da próxima vez que o senhor vier, o senhor pode olhar pra ela. Ela é feia. Nem parece que é irmã da Nettie. Mas ela vai ser uma esposa melhor. Ela também num é isperta, e eu vou ser honesto, o senhor vai ter que prestar atenção ou ela vai dar tudo o que o senhor tem. Mas ela trabalha como um homem.

Sinhô fala Quantos anos ela tem?

Ele fala, Ela tá perto dos vinte. E outra coisa… Ela é mentirosa.” (págs. 19-20)

A linguagem repleta de erros que vão de ortografia à construção das frases reflete o pouco nível de instrução escolar de Celie, impedida pelo padrasto de frequentar as aulas depois da primeira gravidez. O pouco que sabe ela aprende com a irmã Nettie, mais nova, mais bonita e mais inteligente, segundo a avaliação geral do padrasto. O próprio Sinhô se vê encantado por Nettie nos cultos de domingo na igreja local. Mas é com Celie que ele acaba se casando, já que o padrasto se recusa a ceder a mão de Nettie.

Para não ter o mesmo destino que a irmã, Nettie é obrigada a fugir de casa. E Celie fica décadas sem notícias da irmã, achando que ela está morta. A mudança de destinatário das cartas é produto de uma transformação na vida de Celie. Enquanto ela vive subjugada por todos, é a Deus que ela escreve. Quando a esperança de rever sua irmã surge em seu caminho, é para ela que Celie começa a escrever.

É muito interessante como Alice Walker cria estruturas que de alguma forma subvertem a ordem preestabelecida. Isso porque, ao contrário de Celie, Sofia é a personificação da mulher forte em todos os sentidos. E, quando Harpo, a certa altura do casamento, começa a comer desenfreadamente enquanto Sofia sobe no telhado para fazer o conserto da goteira, Celie interpreta essa atitude como a tentativa de Harpo de se tornar tão forte fisicamente quanto Sofia. Entretanto, mesmo comendo tanto, Harpo só consegue adquirir uma barriga proeminente.

De minha parte, logo pensei que o fato de Harpo comer por dois e de Sofia dar mostras de coragem e força consertando o telhado eram indícios da troca de papéis supostamente consagrados ao marido e à mulher. Harpo adquirindo hábitos de mulher grávida enquanto Sofia personificava o marido forte e provedor.

Mas não é somente neste ponto da leitura que a obra de Alice Walker cutuca o leitor e é capaz de deixá-lo refletindo por horas e horas. As mudanças que ocorrem nas vidas de Celie e de Sofia é que são determinantes para mostrar ao leitor até que ponto as mulheres negras norte-americanas daquela época não eram absolutamente donas de seus destinos – e as poucas que iam contra essas regras eram duramente criticadas e discriminadas pelo restante da sociedade, como é o caso de Shug Avery, a famosa cantora negra amante do marido de Celie.

O “ser negro” é algo fortemente questionado no decorrer do romance. A prisão de Sofia pela agressão ao prefeito é a prova cabal de que o negro no contexto americano de então era um indivíduo despido de dignidade e completamente privado de manifestar suas vontades. Essa postura, aliada a um movimento de coisificação da mulher, é a fórmula resultante da vida oprimida e sem significado vivida por Celie na primeira parte do livro.

Há muito mais a escrever e a pensar sobre A Cor Púrpura. Em linhas gerais, o que posso dizer é que, além de se tratar de uma história de redescobrimento e de superação, esta obra de Alice Walker é uma leitura mais do que recomendada, principalmente para refletirmos sobre o que significa lutar para mudar a realidade que se vive.

Nota: 5
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados]

Blog do Desafio Literário 2012

A Cor Púrpura
Alice Walker
José Olympio Editora
2009
335 páginas

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3 comentários sobre “Desafio Literário | Maio: Fatos históricos

  1. Meninas, essa leitura vale muito a pena! Um texto sensível sobre um período histórico que toda mulher precisa conhecer não apenas para valorizar a evolução da condição feminina, como também para continuar lutando pelos seus direitos.

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