Desafio Literário | Março: Serial Killer

Sinopse

“Com sete edições vendidas em apenas oito meses na Itália e traduzido para mais de 20 línguas, Os Crimes do Mosaico é um brilhante thriller histórico. O protagonista é Dante Alighieri, o autor de A Divina Comédia, que atua como detetive numa série de crimes assustadores que assolam Florença no ano de 1300. Tudo leva a crer que uma seita secreta age nos subterrâneos da cidade e cabe ao grande poeta juntar as peças como um verdadeiro Sherlock Holmes. Com um estilo inteligente que mantém o suspense da primeira à última linha, Giulio Leoni reconstrói a Florença do Renascimento nos mínimos detalhes e apresenta um Dante em carne e osso, poderoso, amargo e genial. O mundo não será mais o mesmo depois de Os Crimes do Mosaico.”

Já avançada na leitura, eu comecei a ficar preocupada com a possibilidade de esse livro não se encaixar na proposta do mês do DL. Sim, porque sendo março o mês do serial killer, estava eu lendo um livro que, já quase na página 300, só tinha narrado um assassinato. Foi então que consolei a mim mesma lembrando-me do fato de que há um plural no título; logo, seria “obrigatório” morrer mais alguém na história!

A trama de Os Crimes do Mosaico atrai de uma forma peculiar. À medida que a leitura vai se desenvolvendo, o leitor começa a pensar como é que um novelo tão cheio de nós pode se desembaraçar até o final da trama. Parece impossível que Dante Alighieri – esse mesmo, autor de A Divina Comédia – consiga se livrar de seus problemas pessoais (tais como as dívidas com os agiotas) e ainda descobrir quem é o assassino que anda cometendo atrocidades em Florença, cidade onde o grande escritor foi eleito prior.

“A cabeça estava recoberta por uma substância amarelada. No chão, junto ao cadáver, havia um caldeirão de cobre caído dentro do qual se viam os restos do material utilizado para o crime: cera de velas. As mãos, amarradas atrás das costas, ainda estavam contraídas na tentativa de libertar-se dos laços. A imagem do primeiro crime surgiu diante dos olhos de Dante, com sua evidente semelhança. A cera era a base para o preparo de muitas especialidades curativas, e aqui também o assassino havia matado com a mesma matéria da arte da sua vítima. Aqui também o mesmo ritual, a mesma liturgia sórdida para apagar o rosto que nos deixa semelhantes a Deus.” (p. 288)

Os crimes em questão fazem parte de um enredo macabro que envolve astrologia, pentagramas, visões e um grupo de sábios que se autointitula Terceiro Céu. Numa época em que a igreja, por meio do poder papal, usava descaradamente a sua influência como tentáculos para ampliar cada vez mais o seu poder pela península itálica, Dante passa a maior parte do livro solitariamente à procura de pistas para solucionar os crimes, numa narrativa na qual todos – menos ele – parecem ter conhecimento da identidade do assassino e, mais ainda, articulam-se contra ele, fazendo do protagonista uma marionete.

Interessantíssima, porém, é a personalidade de Dante: explosiva, pouco tolerante, teimosa e protagonista de situações que chegam a ser cômicas para um homem tão proeminente e detentor de um cargo público tão poderoso, como esta a seguir, quando o protagonista foge da perseguição de soldados mercenários do representante papal no meio da noite:

“Chegando ao pé da escadaria, Dante conseguiu levantar-se antes dos outros e correr na direção do moinho que flutuava ao lado da Ponte Carraia, obtendo assim uma pequena vantagem sobre os seus perseguidores que haviam tomado o mesmo caminho e cuidavam-se de não escorregar e não ferir uns aos outros com as lanças.

‘Malditos malandros!’, gritou aos soldados que se aproximavam da escada. ‘Malditos malandros, filhos de putas lazarentas!’, berrou com toda a raiva que o tomava, levantando as mãos juntas na direção deles e fazendo com os dedos o famigerado gesto obsceno. ‘Que vocês apodreçam no inferno, bastardos!’.” (p. 344, 345)

É meio que impossível não torcer pelo sucesso de Dante na descoberta do assassino, nem se identificar com ele durante o decorrer da narrativa. Giulio Leoni consegue construir um personagem forte, de intelecto brilhante, e bom caráter, digno de ostentar o nome de Dante Alighieri. Talvez seja por isso mesmo o final tenha me decepcionado, pois o desfecho da trama ficou claramente abaixo do restante do livro.

A suspeita a respeito do assassino se revela prematuramente. O que fica no ar é a possibilidade de haver cúmplices e, em caso positivo, quantos seriam eles. Mas as saídas encontradas por Leoni para não quebrar o curso verídico da história – mesmo sendo prior, Alighieri seria prejudicado pela derrota de seu partido e exilado de Florença – e, ainda assim, resolver a trama dos assassinatos tiveram bases muito frágeis, principalmente no que se refere à justificativa do porquê da brutalidade dos crimes. Inclusive, dada a explicação apresentada no final, seria muito mais conveniente que os assassinatos tivessem ocorrido da maneira mais discreta possível, e não com os requintes de crueldade com os quais foram executados. Ficou mal argumentado e atrapalhou a coerência da trama. Uma pena.

Nota: 3
(de 1 a 5, sendo: 1 – Péssimo; 2 – Ruim; 3 – Regular; 4 – Bom; 5 – Excelente)

Este post faz parte da blogagem coletiva Desafio Literário 2012 [v. lista de livros agendados]

Blog do Desafio Literário 2012

Os Crimes do Mosaico
Giulio Leoni
Editora Planeta
2006
381 páginas

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5 comentários sobre “Desafio Literário | Março: Serial Killer

  1. Muito boa a resenha, parabéns! Tenho o livro na estante, mas ainda não tive estusiasmo o suficiente para começar a leitura… Apesar da sua nota 3, o conteúdo da resenha me deixou curiosa para lê-lo. Quem sabe em breve… Abs!

  2. Oi, Patricia! Então, eu tento pôr nas resenhas o mínimo de spoilers, para não acabar com as surpresas de quem se interessa pelos livros. Mesmo assim, é meio impossível, hehehe.
    Esse livro do Giulio Leoni tem os seus méritos, mas é como eu escrevi na resenha, o final decepciona um pouco, não tem jeito.
    Faça a sua leitura e me diga sua opinião! Abraço.

  3. Sabe que eu não me envolvi muito com a história?
    Ainda bem que existem gostos diferentes e livros diferentes para deixar feliz cada um de nós, não?

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