Leitura | Bolor (Augusto Abelaira)

A leitura desse romance foi feita em função de um convite para integrar uma banca de TCC do curso de Letras da Universidade de Taubaté. As alunas desenvolveram um estudo sobre esta obra do autor português Augusto Abelaira (1926-2003), até então desconhecido para mim. Este livro, entretanto, mostrou que eu estava perdendo tempo em não conhecer as obras e o estilo desse autor. A seguir, algumas impressões sobre a leitura.

Bolor foi publicado em 1968 e é, na verdade, um diário constituído pelas memórias e as inquietações de Humberto, Maria dos Remédios e Aleixo, um triângulo amoroso dos mais densos e bem-feitos que já vi. A sombra de Catarina (primeira esposa de Humberto) incomoda profundamente Maria dos Remédios, fazendo-a questionar a cada instante a sua posição como mulher-esposa. Humberto e Aleixo me parecem satélites que orbitam em torno das posições de Maria dos Remédios, uma personagem de estrutura literária invejável.

Em lugar da mulher frágil, óbvia, que busca no amante apenas a compensação daquilo que lhe falta no casamento, Maria dos Remédios é o elemento que problematiza constantemente não apenas o casamento e que tipo de felicidade (ou infelicidade) ele lhe traz, mas também o papel do cidadão burguês. Mulher bonita, bem instruída, cantora lírica frustrada pelo descaso do marido (é sempre o amante que pede para ouvi-la cantar e Humberto nem sabe de seus anos de estudo no exterior, nem de suas qualificações como artista). Maria dos Remédios é o centro de uma história que, apesar de partir de complexas relações amorosas, frequentemente faz referências ao tempo histórico sociopolítico de um Portugal salazarista.

Já no final do livro, o encontro de Maria com Leonor (esposa de Aleixo) é revelador. O diálogo entre ambas é de uma superioridade feminina surpreendente. É interessante observar que as falas e as pessoas de Humberto, de Aleixo, de Maria dos Remédios e até mesmo de Leonor misturam-se e, de forma misteriosa, dão coerência à narrativa.

Mais do que uma história de começo, meio e fim, com Bolor, Abelaira estabelece vários tipos de ruptura – estética, diegética, literária – criando um romance de muitas perguntas e poucas respostas, de caráter democrático e recortado; um espaço privilegiado do privado. Sua leitura é instigante e profundamente reflexiva.

Bolor
Augusto Abelaira
Lacerda Editores
170 páginas
R$ 22,00

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