Leitura | O Crisântemo e a Espada (Ruth Benedict)

“As convenções de guerra, que as nações ocidentais aceitaram como fatos consagrados da natureza humana, obviamente não existiam para os japoneses.” (p. 9)

Esta leitura foi uma experiência um tanto perturbadora para mim e acho que isso se deve à quantidade de dúvidas sobre a sua validade que ela me despertou. Fruto de um estudo sobre os japoneses feito por Benedict, uma antropóloga norte-americana, durante a década de 1940, esse livro discute muitos aspectos do modo de vida nipônico, mas foi realizado sem a atividade de pesquisa de campo. Ou seja, a autora entrevistou japoneses residentes nos EUA e essa foi a sua matéria-prima para o desenvolvimento do livro.

O objetivo do estudo era fornecer informações ao alto escalão do governo dos EUA, a fim de instruí-lo sobre como se comportar em relação aos japoneses depois do ataque a Pearl Harbor. Era preciso entender a conduta japonesa para, aí sim, combatê-la.

“Não é possível depender inteiramente do que cada nação diz de seus próprios hábitos de pensamento e ação” (p. 19)

Entretanto, muita coisa me incomodou muito durante essa leitura. Benedict busca o distanciamento e utiliza o tempo todo a conduta americana como contraponto às atitudes japonesas. Espetaculariza essa sociedade oriental e, em muitos momentos, estabelece relações metonímicas – a parte pelo todo – que conferem um caráter infantil ao seu estudo. Veja o trecho a seguir, elaborado a partir de um exemplo isolado de uma estudante japonesa que gostaria de se tornar cristã, pois seu maior sonho era subir em um avião e, para tanto, precisava estar calma e bem regulada, atributos que ela julgava poder adquirir com o cristianismo:

“Os japoneses não apenas associam mentalmente Cristianismo e aviões, como também o treinamento para alcançar ‘uma mente calma e bem regulada’ com um exame de Pedagogia, com a arte de fazer discursos ou com uma carreira de estadista.” (p. 200, grifo meu)

Se é elogiável (e também esperada) a conduta respeitosa tomada por ela durante o livro, por outro lado, é lamentável que Benedict demonstre tão claramente certa… falta de vontade, talvez, em compreender alguns aspectos do povo japonês, como a sua noção de hierarquia e a sua autodisciplina, por exemplo, registrando-os de forma irônica, para dizer o mínimo.

É preciso, contudo, ressaltar a coragem dessa antropóloga cultural (eu pensava que a Antropologia Cultural poderia credenciar seus profissionais a observar com mais equidade uma outra cultura) em divulgar um estudo como esse, muito embora ele possa contribuir de forma bastante negativa entre leitores que pouco conhecem sobre a sociedade do Japão de meados do século XX. É uma leitura recomendada como contraponto, e nunca como única fonte para o estudo sobre o Japão e seu povo.

O Crisântemo e a Espada
Ruth Benedict
Editora Perspectiva
273 páginas
R$ 32,00

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3 comentários sobre “Leitura | O Crisântemo e a Espada (Ruth Benedict)

  1. O livro é uma desaproximação esfarrapada da cultura japonesa. TRabalho com os japoneses há mais de 20anos. Eles têm a maneira deles e pronto. Assim como os cariocas arrastam, os baianos gingam ,os rio grandenses cantam . Mas tem umgrande respeito pelo próximo . E um grande respeito por si próprios. Se você, que é o meu caso, negocia com eles ,leva um tempo grande para que possam achar que podem ou não ser seus amigos. Uma vez que isso ocorra a amizade tem suas formas de pactuação , como em qualquer cultura . Existe o seu jeito de receber um amigo, cumprimentar, o que dizer, até onde se expor , etc. Com eles é amesma coisa . Li o livro e , se os americanos se basearam em alguma coisa, não deu certo mesmo. Os japoneses , que não são elitista , gostam mais do fazer do que do falar .

  2. Olha não sei qual é a graduação ou pós de vocês, ou ainda tema e guia de estudos e pesquisa, mas “O Crisântemo e a Espada” é um livro muito importante para a Teoria Antropológica. Ruth Benedict foi inovadora em “interpretar” uma cultura sem o trabalho de campo, utilizando-se de suas propagandas, filmes, livros E relatos de japoneses que moravam nos EUA. A autora também foi inédita em pensar a educação japonesa e trazer um extenso relato histórico do Japão, coisa que não se fazia antes da escola culturalista. Ela foi extremamente respeitosa com os japoneses e é obra recomendada por diversas instituições japonesas sobre sua cultura para leitura ocidental.
    Espero ter ajudado a dar um “outro olhar” para esta obra que tem sua pertinência e seu rigor reconhecidos entre os acadêmicos, além de possuir também uma beleza poética que vale sua leitura literária.
    Att,

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