Mangá | Hiroshima – A cidade da calmaria

“Ninguém fala sobre aquilo. Na verdade, ninguém entendeu direito até hoje. A única coisa que as pessoas sabem é que alguém desejou que morrêssemos… e que, apesar disso, alguns de nós continuaram a viver. Mas o que me deixa com mais medo são os momentos em que percebo que, depois do que aconteceu… eu me tornei alguém que deveria ter morrido.”
(p. 16)

Essa fala de Hirano-san, protagonista da primeira parte de Hiroshima – A cidade da calmaria, mostra de forma bem sutil, mas contundente, a dimensão do desafio que a mangaka Fumiyo Kouno encarou para criar uma obra que contasse um pouco dos efeitos da bomba atômica em Hiroshima.

A história é uma surpreendente combinação de desenhos com traços delicados (que equilibram positivamente a atmosfera pesada do assunto), com um argumento forte e bem reflexivo. Foi uma leitura incômoda e muito bonita ao mesmo tempo. “Hiroshima…” trata dos efeitos das bombas atômicas na população da cidade por meio da história de duas garotas de gerações diferentes de uma mesma família. A morte prematura da primeira delas deixa no ar a tal incômoda sensação de uma vida literalmente interrompida por uma leucemia que se manifestou dez anos após a bomba – ela já havia perdido pai e a irmã.

Na segunda fase da história, a garota em questão é a sobrinha de Hirano-san e o foco, agora, está em seu amadurecimento e no envelhecimento de seu pai, que não sofreu os efeitos da bomba por não estar em Hiroshima em 6 de agosto de 1945.

A sensibilidade de Kouno é fundamental para conferir ao mangá a seriedade que o assunto pede. E a reflexão instigada por ele mostra quanto sua autora foi bem-sucedida em seu trabalho. No posfácio, texto revelador, no qual a autora fala sobre a atitude de muitos japoneses que simplesmente evitaram tomar conhecimento dos efeitos da tragédia – inclusive ela mesma viveu assim durante um tempo – Kouno também declara: “Mesmo não tendo experimentado a guerra ou a bomba atômica, é obrigação de todos pensarem na paz e transmitir mensagens contra a guerra em qualquer região e usando as palavras de cada época.”

Este trabalho de Fumiyo Kouno recebeu muitos prêmios e ganhou uma versão para o cinema que foi muito bem-recebida em seu país. O mangá foi publicado em várias línguas e atualmente é utilizado pelo Ministério das Relações Exteriores do Japão em movimentos mundiais pela paz (informações da orelha da quarta capa).

Hiroshima – A Cidade da Calmaria
Editora JBC
Autora: Fumiyo Kouno
112 páginas
R$ 19,90

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