Cinema oriental | Sonata de Tóquio

 Tive a oportunidade de assistir a este filme de Kiyoshi Kurosawa – não, ele não é parente do lendário Akira Kurosawa – por causa de uma discussão no grupo de estudos sobre o Japão. E foi uma ótima oportunidade para assistir a um filme muito bom.

Um misto de boas sensações toma conta do espectador durante essa produção cinematográfica que problematiza, de forma leve e sutil, dilemas contemporâneos da sociedade japonesa.

Kenji é um garoto que vive numa crise silenciosa consigo mesmo. Discute com o professor, desautoriza-o perante a classe, faz perguntas difíceis para o pai, mas vive questionando-se sobre o que quer fazer da vida no caminho para a escola. É quando tem a ideia de estudar piano. Para tanto, um teclado abandonado no lixo, mais o dinheiro mensal da lanchonete da escola, desviado para pagar as aulas particulares, servem para o seu intento.

Enquanto isso, a família caminha para um colapso. O pai, demitido, faz disso um segredo e sai todos os dias de terno e gravata para procurar uma nova colocação. De diretor administrativo de uma grande empresa, acaba como faxineiro de shopping – secretamente também. Não antes, é claro, de recusar muitas outras oportunidades de trabalho, como gerente de loja de conveniência e segurança, por exemplo. O problema é que o pai de Kenji queria um novo trabalho semelhante ao anterior. Em salário eem prestígio. Umatarefa impossível no Japão de hoje. E que exige do chefe da família um verdadeiro exercício de humildade.

O irmão mais velho de Kenji decide alistar-se nas forças armadas norte-americanas. Sua justificativa é muito simples: “O Japão não consegue se defender. Quem faz isso são os EUA. Logo, se eu quiser proteger o nosso povo, preciso fazer parte do exército deles”. Para o pai, é um choque duplo: o filho mais velho com vontade de ir para a guerra; o mais novo, querendo ser músico. Era demais para a cabeça limitada de quem viveu anos e anos fazendo as mesmas tarefas da mesma maneira na mesma empresa.

A mãe é um caso à parte. Personagem abrilhantada pelo talento da atriz Kyôko Koizumi, a única mulher da família é uma mãe zelosa, esposa atenciosa, que descobre o segredo de todos e os guarda consigo. Não quer desmascarar a farsa do marido para não desautorizá-lo perante os filhos; acoberta as aulas secretas de piano de Kenji; por fim, atua como figura apaziguadora na busca de um consenso sobre a carreira militar do filho mais velho. Uma grande mulher recolhida ao seu discreto espaço no desenho da família japonesa.

A técnica de Kurosawa é refinada, conta com ótima trilha sonora e enquadramentos artísticos de bom gosto em termos de cores e de foco. Por volta dos 30 minutos finais, o diretor promove uma verdadeira catarse, na qual, ao mesmo tempo e em espaços diferentes, Kenji, sua mãe e seu pai passam por situações-limite nas quais começam a problematizar sua situação no quadro familiar, repensando suas atitudes e questionando seus conceitos. É sobretudo simbólica a cena na qual o pai  de Kenji dorme na sarjeta, vestido como faxineiro e coberto de folhas. O papel da família precisa ser revisto, não há dúvida.

O amanhecer de um novo dia promete uma nova vida para cada membro da casa de Kenji. Em uma das cenas finais, quando todos regressam a casa após passarem a noite fora, cada um com os seus dilemas, mãe, pai e filho caçula estão à volta da mesa tomando o café da manhã – com o pai ainda vestido de faxineiro, pois agora não há mais segredos –, percebe-se que internamente eles não são mais os mesmos. Mas a transformação virá à tona gradativamente e, o mais importante, discretamente, como manda a etiqueta japonesa.

É muito interessante quando o cinema serve como suporte para a reflexão sobre a sociedade. Este é um caso desses. Com forte histórico de direção de filmes de terror, Kiyoshi Kurosawa consegue ser bem-sucedido em sua investida na proposta de discutir os problemas da família moderna japonesa, extrapolando com muita sutileza (se é que isso é possível) os limites domésticos e alcançando a crítica ampla da situação político-econômica japonesa, como quando simula uma enquete na televisão na qual os jovens japoneses dão sua opinião sobre alistar-se ou não nas forças armadas norte-americanas. Algo para pensar.

Ficha técnica
Sonata de Tóquio
(Tokyo Sonata)
Direção: Kiyoshi Kurosawa
Roteiro: Kiyoshi Kurosawa, Max Mannix, Sachiko Tanaka
Ano: 2008

Anúncios

Um comentário sobre “Cinema oriental | Sonata de Tóquio

  1. Fiquei surpreendida com o filme, que prende a atenção de forma dolorosa. Emocionante, revelador para quem desconhece, como eu, a realidade social do Japão. Muito bom.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s