Leitura | Memorial do Convento (José Saramago)

Obra publicada por José Saramago (1922-2010) em 1982, Memorial do Convento ocupa um lugar importante na rica produção literária deste autor. Lançada pouco tempo depois de Levantado do Chão (1980), ambos os livros fazem parte de uma série de obras de Saramago que problematizam a história oficial portuguesa, juntamente a outras como O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1986) e História do Cerco de Lisboa (1989).

Romance histórico cujo assunto, a princípio, é a construção do Convento de Mafra, em Memorial do Convento, Saramago desenvolve uma narrativa ambientada no século XVIII, com Portugal sob o comando de D. João V, e utiliza-se da construção de dois casais de personagens – o casal real, D. João V e D. Maria Ana, e Baltazar Sete-Sóis e Blimunda – para enfocar criticamente a sociedade daquela época, por meio de observações à forte exploração do povo português pela monarquia e o clero, a sátira ao poder político no país, a atuação indiscriminada do Santo Ofício e a vontade de liberdade representada pela máquina de voar (passarola) idealizada pelo padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão e construída com os esforços de Baltazar e Blimunda.

A amarração apresentada por Saramago no romance mostra uma complexa constituição do tempo em Memorial do Convento. A linha cronológica é seguida pelas marcas históricas do governo de D. João V, ao passo que a idealização da máquina de voar pelo padre Bartolomeu Lourenço institui um tempo utópico às ações relacionadas à passarola e à vontade implícita de liberdade implicada nesse processo. Enquanto se dedica ao estudo para dominar os segredos para manter a máquina no ar, o padre parece preso no tempo, mergulhado em seus pensamentos utópicos, sem aparentemente compartilhar do desenrolar da realidade fora do meio acadêmico, algo presenciado mais claramente por Baltazar e Blimunda. O fluxo temporal subdivide-se, decorrendo à medida que evolui a construção do convento e que se consolida a construção da máquina de voar.

Com discurso marcadamente irônico, Saramago ocupa-se da forte crítica às instituições religiosas em Memorial do Convento. O autor apresenta a mitologia religiosa de forma geral como uma formação alienadora do ser humano e critica suas instituições tradicionalmente sagradas, como o casamento, exemplificado na união hipócrita e infeliz de D. João V e D. Maria Ana, e no amor sincero da união ilegítima de Baltazar e Blimunda. Os sacrifícios do povo português em suposto nome de Deus e da religião também são fartamente citados, ironizados e criticados:

“Andam também no transporte carros maiores, com rodas de sege, puxados a mulas, não falta carregarem-nos em excesso, e, como nestes dias tem chovido, atascam-se as bestas no lamaçal, donde por fim se arrancam apertadas pelo chicote que lhes desaba nos lombos, na cabeça quando Deus não está a olhar, embora tudo isto seja para serviço e glória do mesmo Deus, e assim não se sabe se ele não estará desviando os olhos de propósito.” (SARAMAGO, 1994, p. 217)

Assim como é do sangue e do esforço do povo que se levanta a construção do Convento de Mafra, também a passarola idealizada pelo padre Bartolomeu não sairia dos esboços se não fosse pela mão e o gancho de Baltazar e pelos olhos sobrenaturais de Blimunda. O trio de personagens, “trindade terrestre”, conforme mencionado pelo padre (1994, p. 169), partilha do mesmo sonho e da vontade antecipada de provar dos prodígios da invenção voadora, que se apresenta como o principal meio de libertação das perseguições do Santo Ofício e da dura realidade vivida pelo povo português. A passarola constitui-se, assim, numa alegoria da utopia libertária, na materialização da vontade de ser livre, por meio do vôo aos céus, longe dos perigos da Inquisição e da dura vida dos portugueses – ansiando, portanto, por uma sociedade mais justa. Curiosamente, o padre Bartolomeu torna-se vítima de seus próprios anseios, em contraponto com sua convicção – perdida aos poucos – religiosa, uma vez que se questiona sobre a ousadia de voar e a natureza do homem criada por Deus. O padre é consumido por um duro conflito interno e há a reversão de seu sonho utópico. Após a construção da passarola, Bartolomeu começa a vê-la como um perigo, uma vez que tal invenção não pode ser explicada ao Santo Ofício. O que inicialmente foi idealizado como “fruto da ideia e impulsionado pela necessidade” passa a representar o medo e a opressão por parte do desconhecido, a ser julgado como heresia pela autoridade da época. A distorção do sonho utópico culmina com a separação trágica da tríade terrestre e o fracasso da passarola.

A escrita criativa e engajada de José Saramago apóia-se em diversas chaves simbólicas de leitura em Memorial do Convento. O autor propõe-se a uma revisão crítica da história oficial portuguesa, por meio de uma obra que mistura o ficcional com o histórico e que põe à prova de forma contundente os dogmas do cristianismo e as mazelas de um sistema social de pobreza de muitos explorados e de riqueza da monarquia.

Por meio da personagem Blimunda, questionam-se as possibilidades de ver e não ver efetivamente. Mulher forte e decidida, apontada pelo padre Bartolomeu como a parte espiritual da tríade, Blimunda pode ser encarada como o ponto de reflexão do romance. Ela não vê o que ainda não aconteceu, mas come o pão todas as manhãs para não enxergar por dentro dos homens, dos lugares e dos objetos. Seu dom permite-lhe a recolha das vontades humanas, essência tão próxima da alma que praticamente dela se desprende apenas em situações-limite, como a morte, por exemplo. São as vontades colhidas por Blimunda que alimentam a máquina de voar idealizada pelo padre Bartolomeu. Na metáfora das vontades aparece a presença coletiva, que sustenta o sonho utópico e que, mesmo indiretamente, dá força à necessidade humana de avançar na construção de sua própria história.

Memorial do Convento
José Saramago
Editora Caminho, 1994
357 páginas

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