Como definir uma potência cultural?

Em programa exibido no último domingo, dia 20, o time de articulistas do Manhattan Connection comentou a situação atual do Japão. Após Caio Blinder falar brevemente da fragilidade política e da falta de lideranças japonesas, Lucas Mendes perguntou-lhe se o Japão poderia ser considerado uma potência cultural. O comentarista respondeu algo como: “Bem, o Japão teve Kurosawa, animê, Super Mario…”. E ficou por isso.

É interessante observar vários pontos nessa situação. Acredito que o primeiro deles digno de análise é pensar a que exatamente estamos nos referindo quando falamos em “potência cultural”. Quando uma civilização é considerada uma potência cultural? Seria quando seus padrões de desenvolvimento sócio-históricos contribuem para a formação de um povo pleno de possibilidades de manifestação por meios entendidos como culturais? Seria quando ícones de sua cultura são conhecidos em outras partes do mundo?

Engraçado como afirmamos que o que desconhecemos simplesmente não existe. Voltando ao caso da pergunta feita no Manhattan Connection, Caio Blinder respondeu com base naquilo (ou no pouco) que conhece a respeito da cultura japonesa. Sua resposta mostrou claramente que ele não estava credenciado a respondê-la, uma vez que pouco ou quase nada conhece do assunto. Poucos países questionam-se sobre sua produção cultural e seu efeito sobre sua sociedade como o Japão. O rico manifesto Superflat, encabeçado por Takashi Murakami, é um bom exemplo disso. Como se não bastasse, em termos artísticos, vários expoentes japoneses figuram com destaque nos meios arquitetônico, musical, cinematográfico, literário, entre outros. Em “parâmetros ocidentais”, dois prêmios Nobel na Literatura e quatro Oscars de melhor filme estrangeiro já seriam um bom começo de conversa, não?

Frequentemente, vejo analistas radicados nos EUA comentando todos os conflitos em andamento no mundo hoje, como se o fato de morarem no gigante norte-americano os qualificasse para falar com propriedade sobre tudo e todos. No que se refere aos problemas ligados ao Oriente de uma forma geral, os absurdos multiplicam-se.

Entretanto, a situação me parece um pouco mais complicada do que isso. A resposta simplista de Caio Blinder me conduz ao pensamento de Edward Said, principal teórico das ideias do Orientalismo. A declaração de Blinder é muito mais reveladora de seus pensamentos arraigados na supremacia ocidental/norte-americana sobre todos, do que propriamente da sua ignorância sobre o Japão.

Politicamente, ao dizer que o Japão não teve uma liderança política relevante desde o final da Segunda Guerra revela novamente a falta de conhecimento do comentarista do Manhattan Connection sobre esse país e sobre os conflitos e as reformas dos anos Koizumi, no início desta década, por exemplo. Se o Japão teve cinco primeiros-ministros diferentes em cinco anos, penso que isso não reflete apenas a instabilidade governamental do país, mas também o rápido retorno da sociedade sobre as medidas tomadas por seus representantes, algo que pode significar a tão necessária transparência almejada pelos japoneses. Antes cinco primeiros-ministros diferentes em cinco anos num Japão democrático a 30 anos de ditadura de Mubarak no Egito.

Enfim, sou uma mera telespectadora do Manhattan Connection e estudante da cultura japonesa. Evidentemente, há inúmeras outras pessoas mais qualificadas do que eu para refletir sobre as palavras de Caio Blinder, mas achei interessante traçar essa linha de pensamento tão necessária para os debates atuais sobre os conflitos do mundo, mesmo que seja neste espaço tão singelo. Escrever é ter voz. E dar voz ao outro é quebrar a primeira barreira do Orientalismo

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