O Japão de Ozu e o Japão de Wenders

As leituras sobre o imaginário e o universo simbólico têm me deixado em parafuso. No entanto, preciso reconhecer como elas são interessantes. E tudo parece convergir.

Preciso assistir a dois filmes de Yasujiro Ozu (Era uma vez em Tóquio e Os irmãos da família Toda) para uma reunião do grupo de estudos sobre o Japão. Já tive a satisfação de assistir ao primeiro título e estou providenciando o segundo. A representação do Japão pela ótica de Ozu é paradoxal e me faz lembrar inevitavelmente o Tokyo Ga de Wim Wenders.

Escrevi um pouco sobre esse assunto anteriormente, mas só há algumas semenas pude assistir na íntegra esse breve documentário de Wenders. Após conhecer a obra de Ozu e ficar fascinado por ela, esse cineasta alemão viajou ao Japão cerca de 20 anos após a morte do mestre japonês em busca do Japão que via em seus filmes. Entretanto, a constatação de que tudo estava muito diferente daquilo que viu nas produções de Ozu parecem causar um colapso no imaginário constituído por Wenders.

Tokyo Ga (traduzido como “Imagens de Tokyo” no Ocidente) é o resultado natural de um processo de desconstrução de uma imagem anteriormente vista, mas também fartamente imaginada. Contudo, é interessante perceber como Wenders não deixa de lado a poética de sua arte, mesmo diante da “decepção”.

No Japão, Wenders tem a oportunidade de entrevistar pessoas que trabalharam com Ozu e que, a exemplo do que ele imaginava, atestam a genialidade do cineasta japonês e lhe contam curiosidades sobre ele. Wenders, então, junta várias peças para montar uma espécie de quebra-cabeça no qual problematiza a essência de um Japão tomado pelas revoluções tecnológicas e que parece estar deixando de lado a sua verdadeira arte. É marcante seu diálogo com Chishu Ryu, ator predileto de Ozu e que estrelou vários de seus filmes, no qual o já velho artista japonês comenta que algumas pessoas o reconhecem nas ruas pelo fato de ele ter feito uma participação em um seriado de TV, mas que ninguém mais se lembra de seus papéis nos filmes de Ozu.

A meu ver, o “Ga” do título do documentário de Wenders também poderia ser associado a um trocadilho bacana com a gramática japonesa, na qual “ga” é a partícula que introduz uma informação nova, digamos assim. Dessa maneira, com o seu Tokyo Ga, Wenders tenta mostrar ao seu público o que de novo ele descobriu e constatou numa viagem ao Japão cujas expectativas se provaram bem diferentes no final. Francamente, não sei se ele tinha essa intenção, mas creio que esta seja uma leitura possível.

Tokyo Ga – Imagens de Tokyo (documentário)
Wim Wenders
Colorido / 91 minutos
1985

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