O enigma de Alice – parte II

Em 2008, eu publiquei a parte I deste post neste mesmo blog. Bem, com alguns anos de atraso, aqui segue o complemento da ideia original que me motivou a escrever sobre Alice, a espirituosa protagonista criada pelo inglês Lewis Carroll, cujas aventuras no País das Maravilhas e no País do Espelho atravessam as décadas e as gerações.

Na ocasião do primeiro texto sobre Alice, eu estava escrevendo uma matéria para a revista de cultura japonesa na qual eu trabalhava, traçando um paralelo entre as trajetórias de Alice e Chihiro – de A Viagem de Chihiro, animação dirigida por Hayao Miyazaki, de 2001. O texto da reportagem pode ser lido aqui.

Voltando a 2011, terminei, nesta semana, a leitura de Alice no País do Espelho. Só então me dispus a ver a animação que Walt Disney fez em 1951, adaptando as duas obras de Carroll. Para completar a “sessão Alice”, assisti ao longa dirigido por Tim Burton – uma releitura contemporânea das histórias de Carroll.

A personagem de Lewis Carroll
A princípio, Alice chama a atenção por sua perspicácia e inteligência. Trata-se de uma mescla interessante dessas qualidades com a ingenuidade e a criatividade infantis. Alice partilha solicitamente das situações fantásticas com as quais se depara, confirmando o pacto entre os universos infantil e fantástico já tão estudado e conhecido pelos adultos. A publicação da primeira parte da história de Alice foi feita por Carroll em 1865; a segunda data de 1871. Ambos os textos conservam os mesmos tons de discurso, a mesma estrutura narrativa e partilham de alguns personagens em comum. Como ponto alto dos textos de Lewis Carroll, eu não hesitaria em destacar a astúcia de Alice, que, mesmo sendo uma criança, defende sua posição e dignidade, seja qual for a situação em que se encontre:

Capa da edição também da L&PM Editores“– Ele nem se machucou – respondeu o Unicórnio, com descaso, pretendendo seguir em frente, quando seu olhar caiu sobre Alice. Imediatamente, girou nos calcanhares e ficou ali parado, durante algum tempo, olhando para ela com uma expressão do mais profundo desgosto.

– O que… é… isto? – disse, finalmente.

– Isto é uma criança! – replicou Haigha, impaciente, chegando até o lado de Alice, a fim de apresentá-la, e esticando ambos os braços com as mãos abertas na direção dela, numa atitude anglo-saxã. – Nós somente a encontramos hoje à tarde! É tão grande quanto a vida e duas vezes mais natural!

– Sempre pensei que crianças fossem monstros fabulosos! – asseverou o Unicórnio. – Por acaso ela está viva?

– Ela sabe até falar – garantiu Haigha, solenemente.

O Unicórnio olhou para Alice com uma expressão sonhadora e disse:

– Pois então fale, ‘criança’!

Alice não pôde impedir que seus lábios se curvassem em um sorriso, antes de dizer:

– Pois sabe de uma coisa? Sempre pensei que os Unicórnios fossem monstros fabulosos também! Nunca havia visto um vivo antes, só nos desenhos.

– Bem, agora que vimos um ao outro – disse o Unicórnio –, se você acreditar em mim, eu acreditarei em você. Negócio feito?

– Sim, se você quiser – concordou Alice.”
(CARROLL, Lewis. Alice no País do Espelho. Porto Alegre: L&PM Editores, p. 134-135)

A versão de Disney

A lagarta dos desenhos originais de John Tenniel

Disney valeu-se dos dois livros para fazer sua animação. O longa mistura personagens das duas partes da história, com situações vividas pela menina no País das Maravilhas e no País do Espelho. O artista norte-americano inspirou-se diretamente nas ilustrações originais de John Tenniel para criar sua versão de determinados personagens, como, por exemplo, a Lagarta que fuma nargilé e que orienta Alice quanto ao cogumelo que pode fazê-la crescer e diminuir de tamanho.

Alguns elementos usados por Carroll, como o nargilé e os cogumelos, foram duramente criticados pela sociedade da época e, até hoje, por alguns espectadores adultos. De acordo com eles, tais referências faziam de Alice… uma história cheia de subtextos maliciosos e, dessa forma, desaconselhada para crianças.

Há estudos que tentam interpretar o mundo fantástico criado por Lewis Carroll a partir da teoria dos sonhos de Freud. É estranho pensar que algumas pessoas têm dificuldade em aceitar os termos fantásticos do mundo onde Alice circula, mas não exercem esse mesmo questionamento em relação ao que de fantástico existe em outros contos que seguem essa mesma linha – ou seja, textos que são, inicialmente, recebidos como obras infantis e, ao longo das décadas, entendidos e interpretados como obras para adultos também.

Alice de Tim Burton

Na mais recente – e livre – adaptação das obras de Carroll para o cinema, o diretor norte-americano Tim Burton usa os textos originais como um ponto de partida para uma releitura e, ao mesmo tempo, uma continuação da trajetória de Alice já nos tempos da juventude.

A experiência de Burton, embora duramente criticada pela mídia, traz como ponto positivo a capacidade de reinventar um universo fantástico partindo das necessidades de sua protagonista. Na trama lançada em 2010, uma Alice já moça volta ao “submundo” com a cabeça mais confusa do que em sua primeira incursão infantil, após ser pedida em casamento por um jovem aristocrata pelo qual não nutre o menor sentimento amoroso.

Ao chegar no mundo fantástico, ela percebe que também lá – a exemplo da situação-limite que está vivendo no mundo real – é preciso romper barreiras e tomar decisões difíceis, as quais podem afetar não apenas o seu destino, como o de outras pessoas (e criaturas) também. Verdadeiros ritos de passagem que exigem de Alice não a maturidade dos adultos, mas a autenticidade de se comportar de acordo com os seus anseios, sendo fiel aos seus sonhos e à sua capacidade de realizá-los.

Independentemente das opiniões, é válido pensar que as adaptações e releituras feitas sobre a obra de Carroll estimulam o interesse pela obra original. E não deixa de ser interessante observar que as mudanças feitas em cada “experiência” agregam elementos que se encaixam nas necessidades do público de cada época. Ou seja, há muitas “Alices” dentro da astuta garota criada por Lewis Carroll em 1865.

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