Leituras de 2010

Bem, já um pouco atrasada, posto aqui algumas anotações sobre as leituras que fiz ao logo do ano passado. Livros do mestrado misturam-se às escolhas paralelas, que, por seu teor variado, sempre me permitem arejar um pouco as ideias e também expandir os meus horizontes.

Acho que o ano de 2010 foi muito bom para mim. Foi mais um degrau na minha “vida de leitora”. Acho que estou lendo melhor do que antes, organizando melhor minhas ideias, estabelecendo mais relações entre o que vejo, o que sei e o que leio e estou aprendendo a registrar apontamentos, mesmo que breves, sobre os livros lidos. Creio que ainda preciso aguçar mais o meu senso crítico e acho que isso é uma tarefa para 2011 e para os anos que virão.

A seguir, selecionei anotações sobre alguns dos livros que mais gostei em 2010, excetuando-se aqueles sobre os quais eu tive tempo de dedicar um post no ano passado.

O primo Basílio (Eça de Queirós) – Comprei uma edição de O primo Basílio comentada por Paulo Franchetti na feira de livros da USP em novembro de 2009. Resolvi aproveitar as férias do mestrado no início do ano para me dedicar a esse livro tão importante de Eça de Queirós. Só posso dizer que valeu a pena. O enredo é emocionante, sua trama tem um forte cunho psicológico e, como exemplo de boa construção de personagem, a empregada Juliana é uma das melhores que já vi. Eça é um grande escritor e esta é uma leitura pra lá de recomendada!

Os Brahamanes (Francisco Luís Gomes) – Este foi um livro que eu li para uma disciplina que cursei no mestrado durante o primeiro semestre de 2010. Trata-se de uma trama escrita por um português que viveu em Goa (uma região da Índia colonizada por portugueses) durante muitos anos. A história se passa na Índia (mais precisamente Fizabad, norte do país) e é um verdadeiro romance rocambolesco, com direito a muitas reviravoltas, provações, morte por amor e por aí vai. Achei rocambolesco demais, para dizer a verdade, mas a leitura foi uma experiência interessante para ter contato com um tipo de prosa publicado no final do século XIX e produzido em terras asiáticas.

Assassinato no Campo de Golfe (Agatha Christie) – É fato: se eu não leio algo da Dama do Crime de tempos em tempos, fico triste. As histórias de mistério e de detetives são algo de que gosto muito. E eu gostei muito deste livro em particular de Dame Agatha. Não li tantas coisas da obra dela quanto gostaria e confesso que não me lembro de ter lido nenhum outro livro com a participação do Capitão Hastings. Devo dizer que esse personagem é um caso à parte, um contraponto mais do que engraçado à genialidade de Hercule Poirot. Boa trama. Está entre os melhores que li desta autora até agora.

Ação e Percepção nos Processos do Corpo em Formação (Cecília Saito) – Eu tenho muito orgulho de conhecer a autora deste livro, a brilhante professora e pesquisadora Cecília Saito, e de ter contribuído com ele escrevendo a sua quarta capa. Este livro é uma leitura muito importante para os profissionais da área de educação e para aqueles que têm curiosidade de entender como se processa o aprendizado infantil. Cecília conta sua experiência como mestre na Escola Lumiar, em São Paulo, que segue a linha democrática, na realização de um projeto de ensino com atividades relacionadas à cultura japonesa.

As Formas do Silêncio (Eni Orilandi) – Esta leitura foi recomendada na bibliografia de uma das matérias que cursei durante este ano. Para quem gosta de estudar as teorias da Análise do Discurso, é uma leitura mais do que interessante! A autora mostra como o silêncio fundador, presente no ato da comunicação por excelência, pode contribuir para a constituição do significado da fala de qualquer sujeito social. Há um capítulo especial para explicar os efeitos da censura na sociedade e em que medida ela impede a formação do significado e do reconhecimento do papel do homem nesse contexto. É um livro bem enriquecedor.

Haicais Completos (Guilherme de Almeida) – Este livro faz parte da bibliografia principal da minha dissertação. São poemas inspirados diretamente nas tradições do haiku japonês, com uma pitada abrasileirada e modernista. Os textos introdutórios, do prof. Paulo Franchetti e do haicaísta Masuda Goga são indispensáveis para compreender mais a produção literária de Guilherme de Almeida.

Yumi/Quimonos (Annelore Parot) – Esses dois livrinhos são simplesmente obras-primas das artes gráficas. Montados na China (é claro, se fosse por aqui, sairiam uma fortuna para a editora!), eles contam historinhas baseadas nas bonequinhas kokeshi, tradicionais da cultura japonesa. Ao longo dos livros, que têm capa dura acolchoada, tiras de tecido e várias abinhas e recortes diferenciados em suas páginas, são apresentadas expressões e usos e costumes das famílias japonesas, com palavras também escritas em japonês com kanji, hiragana e katakana. Ambos são simplesmente encantadores!

ABC do mundo árabe (Paulo Daniel Farah / Ilustrações: Alê Abreu) – Vi esse livro por acaso na biblioteca da faculdade e resolvi lê-lo para tentar entender melhor o universo árabe. É uma leitura bastante agradável, rica em ilustrações e organizada em verbetes de acordo com o nosso alfabeto. Os tópicos explicam desde a importância do petróleo para os povos árabes, até alguns dos nomes próprios mais populares no Oriente Médio, a gastronomia, os instrumentos musicais, enfim, trata-se de uma boa iniciação a esse assunto. A introdução é do ótimo Milton Hatoum (belo ponto positivo!) e o texto da orelha, feito pelo próprio autor, já oferece um bom panorama da cultura que nos deixou como legado, por exemplo, conhecimentos agrícolas, médicos, filosóficos, literários, entre outros.

Mornas eram as noites (Dina Salústio) – Esse livro foi o tema do seminário para a disciplina que cursei no segundo semestre de 2010, chamada “Gênero, diversidade e poder nas literaturas de língua portuguesa”. Dina é uma escritora cabo-verdiana muito talentosa. Os contos que compõem esse livro são breves e contundentes, retratos dos mais variados e, portanto, “prato cheio” para a discussão do gênero. Em seus textos, Dina desafia a ordem social, analisa e subverte os papéis tradicionais do homem e da mulher no contexto da vida em seu país.

O império dos signos (Roland Barthes) – E eu, que, até então, não sabia que Barthes tinha escrito um livro inteiro sobre o Japão! Que satisfação lê-lo! Pesquisando depois sobre ele na internet, descobri que Barthes viajou ao Japão em 1970, lá permanecendo 15 dias. Foi nesse período que ele recolheu material e O império dos signos é fruto das reflexões do autor sobre o que viu e sentiu em terras japonesas. No decorrer dos textos (são vários e curtinhos), torna-se perceptível o fascínio que o bunraku (teatro de bonecos) e o haicai (sintética forma poética), principalmente, exerceram sobre ele. Mas um dos artigos finais, chamado “Milhões de corpos”, foi o que mais me fascinou. Nele, Barthes parte do arquétipo japonês para falar da questão racial, das diferenças visíveis, e de como todos os japoneses se parecem, mas, ao mesmo tempo, são todos diferentes.

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