Cinema | Hiroshima mon amour

Assistir a este filme foi um bom exercício de alteridade. Eu já li muitas coisas a respeito das bombas de Hiroshima e Nagasaki, mas ter a oportunidade de acompanhar o olhar europeu sobre esse assunto tão delicado foi algo bem interessante.

A direção de Alain Resnais sem dúvida confere à produção uma plasticidade e uma beleza que, mesmo ao reproduzir as cenas pós-bomba, o museu de Hiroshima e as consequências da guerra para o povo japonês, não choca o espectador. A ideia de, nos 15 minutos iniciais do filme, alternar as cenas dramáticas da guerra com os momentos do casal protagonista fazendo amor também estabelece um contraponto bem original.

A protagonista, uma mulher francesa (Emmanuelle Riva) que se encontra em Hiroshima para participar das filmagens de uma produção cinematográfica cujo assunto era a paz, é profundamente atormentada pelos problemas de sua juventude. Durante a Segunda Guerra Mundial, quando ainda morava em Nevers – cidade francesa onde nasceu –, ela teve um romance com um membro do exército alemão. A feliz relação de ambos é bruscamente interrompida com o assassinato do estrangeiro. Vários anos mais tarde – já casada –, ela desenvolve um forte sentimento de cumplicidade pelo amante japonês que conhece em Hiroshima. Neste momento é que ela tem coragem de compartilhar com ele o sofrimento que carrega desde a morte que marcou sua juventude.

Ele (Eiji Okada), por sua vez, também é um homem casado, arquiteto e envolvido com algumas atividades políticas. O fascínio que a amante francesa exerce sobre ele é o fio condutor de todo o filme. Ele não parece se importar com os dramas psicológicos da amada, apenas deseja perpetuar ao lado dela a felicidade dos momentos efêmeros que viveram durante os poucos dias que passaram juntos em Hiroshima.

– O que significava Hiroshima para você, na França?

– O fim da guerra. Quero dizer, completamente. É espantoso que tenham se atrevido a fazê-lo. E espantoso que o tenham conseguido. E o início de um medo desconhecido para nós também.

O roteiro da renomada escritora francesa Marguerite Duras é poético e conflitante. O tempo todo, a sensação que se tem é de que nada vai dar certo. Essa angústia é amenizada pelos recursos da filmagem, como os flashbacks, os cortes das cenas e a luz que se apaga ao final de determinada ação.

O mais interessante de tudo é como o casal protagonista tenta entender a dor um do outro. Ela diz que sabe (entende) o que aconteceu em Hiroshima e ele nega. Por outro lado, ele quer entender a real importância que o amante alemão teve na vida dela, até o momento em que ela começa a se referir ao amor do passado como se fosse o do presente, misturando as pessoas. Mas a compreensão de ambos parece chegar de fato quando há o apagamento dos sujeitos em prol da história de seus respectivos lugares. É quando ele começa a referir-se a ela como “Nevers” e ela passa a chamá-lo de “Hiroshima”.

Ficha técnica
Hiroshima Mon Amour
Direção: Alain Resnais
Roteiro: Marguerite Duras
Ano: 1959
País: França/Japão
Gênero: Drama/Romance
Duração: 90 minutos
Elenco: Emmanuelle Riva, Eiji Okada, Bernard Fresson

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