O Livro do Cemitério

Ninguém Owens é o caçula de uma família que foi repentina e brutalmente assassinada por um desconhecido. A casa da família ficava próxima a um cemitério e, sem ser visto, foi para lá que o pequeno bebê engatinhou. Graças a isso, conseguiu se salvar. Assim começa o mais novo livro do escritor inglês Neil Gaiman traduzido para o mercado editorial brasileiro.

Após um intervalo de sete anos sem contato com a prosa irresistível, criativa e louca de Gaiman, dedicar-me à leitura de O Livro do Cemitério foi algo que me deu um grande prazer. E meu maior contentamento foi constatar que Gaiman continua genial.

Contar a história de um garoto que cresce em um cemitério, protegido pelo especial Silas – um dos grandes focos de interesse da narrativa – e cujos melhores amigos acabam sendo os fantasmas dos mortos lá enterrados, definitivamente, não é uma tarefa fácil. Mas, com boas doses de fantasia, da irreverência característica das crianças – que rende momentos muito engraçados durante a leitura –, e uma lúcida coerência para a organização das ideias, Neil Gaiman dá conta do recado.

Silas, que não tinha problemas com espelhos, cobriu um deles com o casaco, inutilizando a armadilha.
– E então – disse Silas. – Agora somos apenas três.
– E um porco – disse Kandar.
– Por quê? – perguntou a Srta. Lupescu, com uma língua de lobo por entre dentes de lobo. – Por que o porco?
– Dá sorte – disse Kandar.
A Srta. Lupescu grunhiu sem se deixar convencer.
– Haroun tinha um porco? – perguntou Kandar, simplesmente.
– Silêncio – disse Silas. – Eles estão vindo. E, pelo som, são muitos. (pág. 256)

 O que é mais interessante nesse livro é o fato de Gaiman não abrir mão de pitadas de realidade, mesmo com todo o viés fantástico da trama. Ninguém Owens vive uma existência improvável, mas nem por isso é poupado de experiências típicas de uma pessoa comum. Ter um guardião eficiente e ter aprendido pequenos truques sobrenaturais no cemitério não o livra das decepções e das dores que a vida pode trazer a qualquer um. E o autor trabalha com essas duas variáveis – real x irreal – com uma harmonia impressionante.

Outro ponto que aumenta a credibilidade da história é que ela é satisfatoriamente explicada – em todos os seus mistérios – e seu fim não é clichê, mesmo tendo tudo para ser assim.

As ilustrações de Dave McKean (um dos artistas que, também em parceria com Neil Gaiman, fez de Sandman um grande sucesso dos quadrinhos) dão o tom despojado e ao mesmo tempo misterioso ao livro, comprovando que a interação entre ambos continua tão boa quanto nos velhos tempos de HQ.

O Livro do Cemitério
Autor: Neil Gaiman
Tradução: Ryta Vinagre
Ilustrações: Dave McKean
Editora: Rocco
335 páginas
Preço: R$ 33,00

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