Cinema oriental | Okuribito – A Partida

Quando peguei o DVD de Okuribito (A Partida, no Brasil), eu já esperava um filme bom, afinal, só tinha ouvido comentários positivos de quem já o tinha assistido. Tudo bem que se tratava do pessoal da redação do jornal nipo-brasileiro onde eu trabalhava, então eram opiniões um tanto parciais, mas tudo bem. De qualquer maneira, assim que pude, fui tirar a prova.

Além do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009, eu pouco sabia a respeito do filme e de sua equipe de produção. Yojiro Takita, o diretor, é um cara novo, inclusive até então desconhecido do público internacional e, pelo que li a respeito, visto no Japão como uma nova promessa, mas sem muita atenção a respeito de seus trabalhos. Até Okuribito.

A trama é algo que vai além da ótima direção de arte e da trilha sonora impecável aos ouvidos mais sensíveis. Na verdade, acho que o enredo do filme põe levemente o dedo numa ferida que é uma das fraturas sociais do povo japonês ainda hoje: o trabalho dos párias.

Isso mesmo. Embora não seja a Índia, o Japão também tem os seus párias sociais. Ninguém lá gosta que se fale a respeito, mas, pesquisando bem, é possível encontrar informações interessantes a esse respeito. E o filme trata bem desta questão que é um preconceito cultural japonês.

No norte do Japão, principalmente em Hokkaido, província no extremo norte do país, a presença do povo ainu sempre foi um incômodo para o restante dos japoneses. Trata-se de uma etnia que vive de acordo com costumes tradicionais diferenciados e que, desde muito tempo, são discriminados no país. Há correntes pesquisadoras que afirmam até que a origem dos povos indígenas australianos vem dos ainu japoneses. Atualmente, os descendentes desse povo ancestral não gostam de falar de sua etnia, principalmente para evitar o preconceito. E, que eu me lembre, o termo usado para abranger as minorias étnicas no Japão (os ainu, inclusive) é “burakumin“.

Bem, este não parece ser especificamente o caso de Daigo (Masahiro Motoki), o protagonista do filme, mas o fato é que a trama se desenrola quando ocorre com este personagem principal aquilo que, pelo menos durante muito tempo, foi a marca dos párias japoneses: a desvalorização no que se refere à posição profissional. Daigo começa o filme como um violoncelista em ascenção em uma orquestra em Tóquio – não poderia ser uma posição mais bem vista socialmente – e, com a dissolução da orquestra por falta de público em suas apresentações, ele se muda com a esposa para sua terra natal, no interior do Japão, e passa a executar a função de “preparador” de corpos para os funerais.

Este é um dos trabalhos mau vistos pela sociedade japonesa. Aliás, todas as profissões que “manuseiam” matéria morta são mau vistas na sociedade japonesa. Assim, açougueiros, carniceiros, pessoal de funerária, enfim, todos eles são tratados como inferiores por fazerem literalmente aquilo que ninguém quer fazer. E isso transforma Daigo em um pária. Um cara que, apesar de ser muito bem pago – justamente por executar um trabalho que é pouco procurado -, torna-se desprestigiado socialmente.

E assim a trama corre. Primeiro, um antigo amigo corta relações com Daigo ao saber de seu novo trabalho. Depois, sua esposa (interpretada por Ryoko Hirosue) resolve deixá-lo ao descobrir em casa um DVD de divulgação no qual Daigo serviu de modelo para seu chefe “demonstrar” a técnica de preparação de corpos. Aos poucos, o protagonista se vê praticamente só e, aí sim, com a possibilidade de refletir sobre a sua nova condição social e também sobre aquilo que, independentemente das opiniões alheias, poderia fazê-lo feliz.

Acredito que o segredo todo do filme seja a forma como as questões delicadas são resolvidas. A morte é o temor maior de todo o ser humano. Um assunto do qual todos querem fugir. Mas é sobretudo interessante a maneira com a qual o filme mostra o paradoxo de que todo mundo quer lutar para não perder um ente querido, mas deprecia o profissional que cuida de seu corpo para a despedida. Esse é um assunto que ultrapassa as fronteiras sociais japonesas, mas eu diria que lá, por essas questões tradicionais e étnicas que lembrei acima, esse assunto acaba ficando mais marcado. Ou seja, a contradição se faz presente. Em boa parte dos casos, esses profissionais tratam das pessoas que amamos e fazem isso em um momento dos mais difíceis, de forma que, só por isso, já deveriam ser valorizados. Mas não é o que acontece. E Okuribito é brilhante nesse aspecto.

A ideia de unir a música à morte também foi uma ótima sacada para o filme. Daigo, como violoncelista, traz a sensibilidade do artista para o ritual de passagem dos corpos. Acrescenta à técnica a delicadeza da música, agrega valor ao seu trabalho e passa a criar laços carismáticos com as famílias. Como consequência, a beleza fotográfica e sonora do filme aguça ainda mais a sensibilidade do espectador (seja ele oriental, seja ele ocidental), talvez até mais do que seria o esperado para um filme japonês, o que é curioso.

Definitivamente é um bom filme, tecnicamente muito bem-feito e que, a meu ver, marca uma nova fase do cinema do Japão. Uma fase que tende a aproximar – sem cair no exotismo – os ânimos de espectadores orientais e ocidentais, muito possivelmente por tratar de um assunto comum a ambas as sociedades: a morte e o preconceito.

Ficha técnica
Okuribito (A Partida)
Diretor: Yojiro Takita
Gênero: Drama
130 minutos
Paris Filmes

Curiosidades
Para saber mais sobre os ainu, clique aqui.
Para ler sobre as minorias étnicas no Japão, clique aqui.
Interessante artigo sobre os burakumin.

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Um comentário sobre “Cinema oriental | Okuribito – A Partida

  1. A prosa do Akutagawa tem outra estetica mesmo.
    O fato de escrever em kanji e traduzirem tais formas para o romaji, faz ter um 3a possibilidade estetica e formal, alem da linguistica.
    Dez mil ventos ao Kurosawa, mas o que peca na transcricao para a tela eh o ritmo e nao a adaptacao.
    Morando aqui no Japao, pergunto aos amigos japoneses o que eles acharam do Okuribito. Nenhum deles assistiu porque eles dizem que nao gostam de filmes locais porque eh como se assistissem um espelho, preferem ver um filme de acao em NYC, por exemplo.
    E olha que sao pessoas entre 25 e 70 anos, musicos e luthiers de piano como eu.
    Tampouco acham Kurosawa o maximo. Mas se leem bastante, mangas e livros, muito mais que nos e nossos autores de Pindorama.

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