Cartas na mesa: Agatha Christie em duas versões

cartassobreamesajpg

Já consegui várias temporadas da série Poirot, exibida na Inglaterra e em canais de TV a cabo, com as aventuras do detetive mais famoso de Agatha Christie. De fato, são muitos episódios e, como devo ter lido somente ¼ das obras deixadas pela Dama do Crime, tomei a seguinte resolução: assistirei primeiro aos episódios cujas histórias eu já conheço dos livros. As demais vou deixando para adiante, quando tiver a oportunidade de ler as aventuras antes.

Assim, decidi ver primeiro um episódio estendido (duplo, na verdade) que se encontra na décima temporada, inspirado no livro Cartas na Mesa, publicado originalmente em 1936, segundo a Wikipédia.

Li esse livro recentemente, no finalzinho do ano passado, então está fresco na minha cabeça. E a ideia foi ótima, pois, como ainda me lembro de vários detalhes da trama, deu para comparar muitas das mudanças que foram feitas na adaptação para a TV. E houve várias mudanças!

Até a primeira metade do filme, os diálogos foram bem fiéis. Alguns personagens, no entanto, pelo menos para mim, já desde o início não corresponderam à impressão deixada pela leitura. Na TV, por exemplo, Anne Meredith não tinha metade da beleza que o livro tanto exaltava; Mrs. Lorrimer, por sua vez, parecia bem mais nova. Quando li o livro, eu a imaginava como a Lauren Bacall em sua fase bem madura, sabe? Nada muito parecido do que vi na versão televisiva.

Mas vamos ao livro. Cartas na Mesa tem uma particularidade bem interessante: em sua trama, há quatro potenciais assassinos e quatro detetives, por assim dizer, reunidos em um jantar promovido pelo exótico Mr. Shaitana, um dos homens mais ricos da Inglaterra.

Durante o evento, Shaitana propõe que os participantes joguem bridge, divididos da seguinte forma: os quatro detetives – Hercule Poirot (David Suchet); a escritora de romances policiais Ariadne Oliver (Zoë Wanamaker); o Superintendente Wheeler (no livro é o Superintendente Battles); e o Coronel Hughes (no livro é o Coronel Race) – em uma mesa e, em um aposento contíguo, os quatro convidados potenciais assassinos: a viúva Mrs. Lorrimer, a jovem Anne Meredith, o Major Despard, e o médico Dr. Roberts. Shaitana acomodou-se em uma poltrona na sala dos assassinos e, no final da noite, é descoberto assassinado com um punhal no coração.

Em torno dessa trama gira a investigação dos detetives. Achei bem interessante os cartões do jogo de bridge, que, no filme, são reproduzidos de forma exatamente igual ao que aparece no livro. Entretanto, daí para frente, o enredo original sofreu várias alterações que, a meu ver, não acresceu em nada a adaptação para a TV.

Os detalhes descobertos no decorrer das investigações dos suspeitos foram praticamente todos alterados na adaptação. No geral, cada um dos quatro potenciais criminosos ocultava um assassinato que era do conhecimento de Mr. Shaitana, daí todos terem sido convidados para o jantar. Mas, na TV, os fatos foram distorcidos e é praticamente impossível eu explicá-los todos aqui sem contar os segredos do livro e sem deixar esse post maior do que ele já está. Ficarei apenas com aqueles mais bizarros -> spoilers! ->: o assalto à casa de Mr. Shaitana em substituição à morte de Mrs. Lorrimer como fato que mudou o rumo das investigações na metade final da história, a relação obsessiva de Anne com sua melhor amiga Rhoda Dawes (que no livro é bem diferente!) e o segredo do Dr. Roberts, que mantinha um caso homossexual com o marido de uma de suas pacientes, que ele se encarregou de assassinar para tirá-la de seu caminho.

No livro, as coisas não são bem assim e eu acho que essas alterações não favoreceram a versão para a TV. Agatha Christe conseguiu fazer, originalmente, uma trama com muito mais suspense, sem ter de recorrer a expedientes fáceis, como acabou acontecendo no seriado de Poirot. Foi muito mais fácil tornar Rhoda uma obsessiva e Roberts um homossexual enrustido, do que considerar a possibilidade de -> spoilers! -> na verdade, a moça ser manipulada por sua falsa amiga, a ladra e assassina Anne Meredith, e de o médico ser um grande aproveitador ganancioso.

Anúncios

4 comentários sobre “Cartas na mesa: Agatha Christie em duas versões

  1. Ahhh que bacana! Eu bem gostaria de ver essa série… Mas nem tenho visto meus doramas, chego em casa só para dormir!

    Eu não lembro muito do enredo do livro, faz muuuuuuito tempo que eu o li, então acabei nem lendo os spoilers porque acabaria boiando! rsrsrs

    Mas deixo a minha pergunta: Mudaram o nome do Battle apenas ou mudaram sua personalidade tb? >.< . Depois do Poirot e Hasting, ele é meu personagem favorito da Christie *.*… Adoro o jeito "friozão e insensível" dele hahuahauhaa.

    Beijoss

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s