As palavras do Buddha

Terminei o fichamento deste livro – um dos quais vou estudar em minha dissertação – e, apesar de breve, posso dizer que se trata de uma obra que estimula bastante a reflexão.

Guilherme de Almeida é, na verdade, o tradutor dessa síntese da doutrina budista, e não o seu autor. Entretanto, o fato é que o livro vale uma análise a começar por dois pontos bem interessantes:

1 – Guilherme de Almeida faz um apanhado de várias outras traduções da doutrina budista publicadas em países ocidentais. Essa, por si só, já é uma questão para pôr minhocas na minha cabeça, pois como um intelectual que dominava o idioma japonês preferiu utilizar outras versões ocidentais do budismo para elaborar a tradução em português, e não uma diretamente asiática?

2 – Apesar de se tratar de uma tradução e de, já no prefácio, o tradutor deixar bem explícito que o texto não passa de uma “síntese desataviada, sem enfeites literários […] E essa doutrina aqui está, como Êle a disse e a queria escrita.” (nota de GA), sabe-se que tal fato é impossível. Já por se basear em outras traduções e mesmo no processo de escolha das palavras para compor a versão em português, Guilherme de Almeida, mesmo indiretamente, não pode ter se mantido a distância de seu conteúdo.

Bem, enumeradas essas duas primeiras questões, preciso escrever aqui que o que mais me chamou a atenção foi a semelhança de diversos pontos da doutrina budista com o texto bíblico. Meu objetivo aqui não é discutir religiões, ou buscar saber quem veio primeiro, mas o fato é que, mesmo para quem conhece minimamente o texto cristão, é impossível ler os preceitos de Buddha e não associá-los de alguma forma com as lições do cristianismo.

Na tradução de Guilherme de Almeida, fica muito clara a radicalidade dos ensinamentos budistas, que encaram, inclusive o sexo como uma perversão que aprisiona o espírito. Mas, durante a leitura, consegui estabelecer algumas relações com o cristianismo, embora não fosse essa a minha intenção. A mais evidente de todas, no entanto, liga os dez mandamentos bíblicos com os cinco votos budistas:

Os dez mandamentos:

– Não matar;
– Não roubar;
– Não cobiçar a mulher do próximo;
– Não dizer o nome de Deus em vão;
– Honrar o pai e a mãe;
– Não fazer falso testemunho;
– Não adorar ídolos;
– Conservar o sábado como dia de descanso;
– Não cobiçar o que é do próximo;
– Aceitar a Deus unicamente.

Já os cinco votos budistas são mais sintéticos, é claro:

– Não roubar;
– Não matar;
– Não mentir;
– Não se entregar à luxúria;
– Não beber bebidas inebriantes.

Interessante, não? O budismo, a julgar por essa tradução de Guilherme de Almeida, de forma geral, parece se concentrar mais em atitudes individuais que, no conjunto do indivíduo, contribuirão para o seu engrandecimento em sua convivência com os demais. A Bíblia, por outro lado, estimula ações que têm como ponto central as relações familiares e religiosas para fazer com que o indivíduo alcance a riqueza espiritual, ou algo assim.

A ideia de um versículo de Romanos capítulo 12 é, especificamente, bem semelhante ao principal mandamento de todos os Buddhas. Olha só:

“Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem. [Romanos, 12, 21]”

“Abster-se de todo mal, – praticar o bem, – purificar seus pensamentos. [As palavras de Buddha, p. 124]” 

Aliás, a epístola de Paulo contém várias outras semelhanças com as pregações de Buddha:

“Abençoai aos que vos perseguem, abençoais, e não amaldiçoeis. [Rom., 12, 14] A ninguém torneis mal por mal; procurai as coisas honestas perante todos os homens. [Rom., 12, 17] […]”

“É pela benevolência que se deve vencer a cólera; é pelo Bem que se deve vencer o Mal. Deve-se vencer o avarento pela liberdade, e o mentiroso pela verdade. [As palavras de Buddha, p. 116]”

Em minha pesquisa, minha atenção se voltará muito mais à análise de como Guilherme de Almeida procedeu na tradução, que, em si, é permeada de intencionalidades, ainda que ele negue isso de forma veemente. Como preciso estudar a presença japonesa em algumas de suas obras, no que se refere a esse livro especialmente, estou intrigada, como já disse acima, com a escolha do material de base utilizado por ele para compor As palavras do Buddha. E assim vou seguindo a minha pesquisa.

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3 comentários sobre “As palavras do Buddha

  1. Você ainda está por quei né. Que ótimo!
    Acho que vou voltar a atualizar o blog. Dá um pulo lá de vez em quando!

    Abração!

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