Metamorfose ambulante

“… do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.”
(Raul Seixas)

Eu sempre penso nessa música do Raul quando me deparo com questões tão polêmicas, que me fazem perceber que não tenho ainda opinião formada sobre diversos assuntos. Não sei se isso é um erro ou um acerto, mas, mais do que isso, acho que, nesses casos, a consciência e a lucidez sempre devem falar mais alto.

Um artigo que li na Folha de S.Paulo no fim da semana passada sobre as cotas nas universidades acendeu novamente a “luz da metamorfose ambulante” na minha cabeça. Foi então que percebi que ainda não sei exatamente o que pensar sobre esse assunto. Apenas sei que vejo prós e contras.

O texto em questão (esqueci o autor, mas, como o imprimi para reler mais tarde e meditar sobre o assunto, logo colocarei aqui os devidos créditos) tratava do preconceito de uma elite intelectual branca situada no eixo São Paulo–Rio de Janeiro a respeito das cotas raciais nas universidades, em âmbito que inclui não apenas a graduação, mas também a especialização, o mestrado, o doutorado, a livre docência e a pesquisa acadêmica. Dados do artigo – o qual achei muito interessante, por sinal – davam conta da ínfima parcela de afrodescendentes (olha o politicamente correto aí) nos corpos docentes das principais universidades do País e da necessidade de mudança de mentalidade no que se refere ao preconceito em relação às cotas raciais – isso, se entendi o texto e o subtexto corretamente. Mas, como mencionei antes, o artigo vale uma segunda e até uma terceira leitura para absorção total das informações disponibilizadas.

É algo para pensar, sem dúvida. Embora eu concorde que o excesso de obstáculos sociais no Brasil atrapalhe e, em grande parte dos casos, impeça de fato o acesso de potenciais talentos acadêmicos negros em nossas grandes instituições, também penso que não quero simplesmente associar a capacidade intelectual de alguém à cor de sua pele. Isso pode parecer simplista em um primeiro momento, mas, ao pensar em como eu me sentiria, se fosse negra, ingressando em uma universidade beneficiada pelo sistema de cotas, e não pelas vias utilizadas por todos os outros candidatos, cheguei à conclusão de que me sentiria incomodada com isso. É evidente que preciso ler mais e entender melhor o funcionamento desse sistema para o acesso ao ensino superior e que também o simples ingresso no meio acadêmico não garante a conclusão dos cursos, mas, pessoalmente, creio ser inegável que o próprio sistema de cotas, por si só, já me pareça algo um tanto racista. Para mim, a princípio, ele significa que não existem brancos pobres e com dificuldades sociais capazes de afastá-los de uma carreira acadêmica, apenas negros. Em si, isso já seria um desmerecimento?

O mesmo texto incitou Tico e Teco a pensarem sobre uma outra questão também da maior importância, mas isso fica para o próximo post.

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