Crise de criatividade

A revista ao lado chegou em casa e me deixou desanimada. Mais uma vez. Não sei o que mais me chateia. Se é ter recursos e não saber como usá-los, ou se é ter efetivamente a consciência de se conduzir uma revista sem saber para que lado ir, mas tapar o sol com a peneira para os leitores, fingindo que tudo está bem.

De qualquer maneira, esclareço que admiro muito tanto Chico Buarque quanto Caetano Veloso – mais Chico do que Caetano, na verdade. Porém, quem vem acompanhando as discussões que os leitores estão tendo na comunidade Bravo! no orkut sabe que a revista tem passado por maus bocados.

De forma que, folheei toda a revista assim que pude, mas foi inevitável a sensação de falta de interesse. Triste sentir como se a bela capa fosse uma espécie de “tapa-boca” para os leitores mais críticos, que não estão aceitando cegamente o que a equipe de Bravo! tem colocado nas páginas da revista mês a mês.

Há de se ressaltar a decepção do mês passado, gerada pelo fato de a matéria mais interessante da edição ter sido copiada, como bem observou a Daiane,  do blog do Daniel Piza.  Neste mês, achei chato ler na matéria de capa da revista que Chico encontrou sua voz nos livros. Gente, que que é isso? Um cara que fez letras tão brilhantes – em minha humilde opinião, o melhor compositor que temos, melhor até que Caetano – e, só porque o cara lançou um livro recentemente, dizerem que ele encontrou sua voz nos livros?????? Isso é uma tremenda forçada de barra pra empurrar uma pauta malfeita pro leitor. Pra mim, esse tipo de coisa tem um nome: crise de criatividade.

Uma coisa que eu acho interessante e que, como profissional de redação, hoje enxergo com muito mais clareza, é o seguinte: às vezes, menos é mais, desde que a pauta tenha consistência. De nada adianta um trio de repórteres se perder na infinitude que Chico e Caetano representam para a nossa cultura e, nessa, ir-se embora aquilo que poderia ser uma boa matéria. Em algumas ocasiões, com o pouco se faz muito. É só ter uma proposta convincente, uma pauta forte, que se sustente. Infelizmente, Bravo! não tem uma coisa dessas há meses.

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16 comentários sobre “Crise de criatividade

  1. Se prédios históricos de cidades também históricas são abandonados pelo público e pelo privado, imagine um valor abstrato como o talento.

    E se nem Tom Jobim não é lembrado pelo grande público, Chico e Caetano já estão sendo expurgados ainda vivos.

    Ambos têm, pelo menos, 100 canções que estão no inconsciente coletivo, no céu, no ar do povo, do Brasil. Quem não acredita nisso ou não reconhece isso como patrimônio, tem que passar a vida ouvindo FMs pop farofa mesmo.

    E farofa é muito bom.
    Os livros de Chico e Caetano também. Os anos 60, 70, 80 e 90 são muito bons porque ambos cantaram. E quem ouviu está benzido.

  2. Pois é…de que adianta tantos recursos se falta criatividade?
    Conheço uma pessoa que trabalha em uma redação cheia de loucos, que tem que editar, revisar e escrever, dividir dois diagramadores com a produção de uma revista mensal e de um jornal semanal e, ainda assim, consegue criar pautas e seções de alta qualidade…imagina o que ela não faria com todos os recursos da Bravo!? Mundo injusto…

  3. Adoro ouvir o Chico, mas acredito que sua importância para a música brasileira não é relevante. Ele faz letras impressionantes, mas musicalmente não é criativo. Os tropicalistas ousaram mais na estrutura da composição e até no uso de elementos rítmicos diferenciados em suas canções.
    Creio que uma música nem precise de letra para ser boa. Se a melodia segurar o ouvinte, se você tiver vontade de assobiar um trechinho dela, já é suficiente. Jorge Ben é um excelente músico e letrista mediano. Mas, para isso, existem parceiros.
    Quando observo a história da música brasileira, vejo que após Villa-Lobos, com todo seu viés modernista, apenas a Bossa-Nova e o Tropicalismo acrescentaram coisas inovadoras à música. E, depois deles, a trupe de Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção ousaram romper barreiras.
    Em suma: não li a matéria da Bravo e por isso não posso discuti-la, mas para mim a premissa se sustenta, pois Chico Buarque não é um Tom Jobim.
    Um grande beijo.

  4. Oi, Elisita!
    Opiniões são opiniões e, no que se refere à música, parece que encontramos o ponto sobre o qual nossos pensamentos são dimetralmente opostos.
    Para mim, se for MPB, a letra tem grande importância, sim. Só o ritmo não me sensibiliza em nada. Uma coisa necessita da outra. E creio que uma boa letra segura um ritmo não tão bom, mas o inverso não se aplica. De forma, que, em minha humilde opinião, Chico é muito mais importante para a história da nossa música do que para a história de nossa literatura. Beijo!

  5. Suka, dizem que a necessidade é a mãe das invenções, certo? Então vai saber que esse é o motor que impulsiona alguém sem recursos dentro de uma redação. Já quando se tem tudo na mão, atrofia-se a criatividade, ahahahaha! Beijo.

  6. Você disse: “E creio que uma boa letra segura um ritmo não tão bom, mas o inverso não se aplica.”

    Ah, se aplica, sim… senão os Beatles estariam ferrados com boa parte do repertório. E também o Jorge Ben, o Tim Maia, o João Gilberto…

    Eu gosto de letristas, Erikita. Gosto de ver boas letras, como as do Bob Dylan, do Chico, do Walter Franco.

    Mas para ser considerado um genial compositor é necessário mais do que boas letras. Na bossa nova, a maior parte das canções tinha letras tolas e criativa estrutura rítmica. E Tom é genial. E Villa-Lobos é genial. Arrigo Barnabé é genial.

    Composição é isso. Considero Chico Buarque um excepcional letrista, mas um compositor médio. Assim como o Gonzaguinha, um trovador.
    Bitocas.

  7. Lamentável a situação da Bravo! Você disse tudo: uma revista com os recursos que tem, com o nome que tem deixar a coisa chegar a um ponto como este: uma publicação insossa.
    Só um exemplo:
    Confesso que ri irônicamente quando li a carta do editor na edição retrasada (Lennon) citando a revista The New Yorker com suas consagradas matériais/perfis e tentando louvar o “perfil” que um repórter vez com um arquiteto famoso: eu fiquei com vergonha pelo repórter, tão primário foi o seu texto, querendo louvar a simplicidade, quase santidade do tal arquiteto. Um “perfil” que foi baseado em algumas horas de conversa (enquanto os da New Yorker, o jornalista passa até semanas acompanhado o personagem que será assunto do texto).
    E sobre a edição atual: a única coisa que chamou mesmo minha atenção foi a matéria sobre a Shakespeare and Company, mas como ainda não a li, não posso comentar..

    Ah, sim, em minha humilde opinião Chico Buarque é o maior compositor brasileiro, um desrespeito aos fãs de sua obra musical ele afirmar isso: que encontrou sua voz nos livros…

    Bj, Erika!

  8. Ai, Erikita, falei pra caramba e não comentei sua última frase sobre literatura. Concordo. A importância do Chico para a MPB é inegável. Mas nunca li nenhum livro dele. Você já?
    Beijoca.

  9. Oi, Elisita!

    Bem, acho os Beatles bacaninhas, mas nada além disso. Bossa Nova é melodia fresquinha, mas também não mexe comigo. Como lhe falei, é questão de gosto. Considero legal o trabalho dos tropicalistas, mas o grupo da Canção de Protesto tem muito mais valor para mim. Há outras coisas envolvidas, não só música.
    Estudei um pouquinho da literatura do Chico na pós e já havia tido um ligeiro contato com ela antes. É legal, mas nada perto de suas letras. Pra você ter uma ideia, ele entra no pós-moderno, assim como o Hatoum. Dá pra comparar?
    Ah, e só pra constar, adoro o trabalho do Gonzaguinha! Beijo e obrigada pela calorosa troca de ideias! É isso o que nos move!!!

  10. Oi, Daiane!

    Pois é, a New Yorker é uma referência tão importante no mundo do jornalismo cultural e todo mundo acha que “faz igual”. É o fim! Beijo.

  11. Erikita, não acho que esse papo é apenas uma questão de gosto. Não estou discutindo o meu gosto musical. Se fosse assim, nada do que eu disse seria válido, pois eu tenho todas as músicas do homem e estão entre as que mais ouvi na vida.

    Só não consigo enxergar o Buarque como o maior compositor brasileiro (vivo ou morto). Acho que temos uns cem na frente dele. Digo isso porque não imagino uma orquestra de jazz tocando seu repertório. Ou uma banda de pífanos, por exemplo. Também não consigo imaginar uma pessoa assobiando uma de suas canções e ficando lindo de chorar… E para ser o maior compositor brasileiro, ele teria de ter composições matadoras, né? Pensei, pensei, e não encontrei nenhuma música definitivamente genial. Melodicamente falando.

    Papeando sobre esse assunto com um amigo, ele me disse que nós duas juntas detonamos Chico Buarque, Beatles e Bossa Nova num único post (+coments). Haha! Seria cômico, pois sou muito fã de todos esses. Beatles têm bobeiras como Obladi Obladá, mas o que dizer de While My Guitar Gently Weeps? Incrívell! :DDDD

    Ia me esquecendo de comentar a canção de protesto. Ela foi muito importante para o resistência contra a ditadura. E precisava mesmo ser muito inteligente para driblar os censores. Mas para a MPB não acrescentou nada de novo. É só prestar atenção nos acordes de um Geraldo Vandré. Caminha lado a lado com o dedilhar de um Daniel ou um Leandro e Leonardo.
    Na mesma época temos Secos & Molhados. Além das ótimas letras, a concepção musical é inovadora. Mais importantes para a MPB do que todos os cantores de protesto juntos.

    Desculpe-me não discutir a Bravo. Nunca li nenhum livro do Chico, tampouco a matéria da citada revista.

    Um beijo grande, amiga.

  12. A discussão aqui está acalorada hein…
    Acho o arranjo de “Deus lhe Pague” tão legal!!…

    E já que o papo é sobre música, alguém aí aprecia o samba de raiz brasileiro? Eu acho aquele Adoniran Barbosa um gênio…
    Abraços!

  13. Amigos queridos deste bloguinho!

    Não tenho conhecimento suficiente para discutir música enquanto profissional da área, apenas como leiga e comentando questões de gosto (perdoem a redundância).

    Gosto muitíssimo de Chico, Caetano, Gonzaguinha, Beatles, Adoniran Barbosa, enfim, para mim, todos eles têm papéis importantes na história da música, seja ela nacional, seja ela internacional.

    Só me sinto ligeiramente à vontade para discutir música mais pelo âmbito de letras do que de melodias. Nesse quesito, não tenho dúvidas da genialidade de Chico. Mas essa é a minha opinião e – volto a ressaltar – sou apenas uma “palpitadora” da área. De forma que só tenho a agradecer a todos vocês por esse bate-papo mais do que edificante!

    Acho que perdemos o ponto de partida, a questão da Bravo!, mas tudo bem. E, ainda como leiga, volto a dizer que continuo achando que Chico contribuiu muito mais para a nossa música do que para nossa literatura, no entanto, no fim das contas, o importante é que ele contribuiu de alguma forma para alguma coisa!

    Beijos a todos!

  14. Ok, voltando á questão da Bravo! e suas pautas…
    E sou tão fã de Camille Paglia, tenho praticamente todos os livros. Pra mim, uma das mais importantes intelectuais do mundo. Agora, ela falando sobre caranaval…e ainda pior, Daniela Mercury foi de doer…
    Tive até um “arraca-rabo” com um uns baianos na comunidade da Camille no orkut. Tanta coisa no Brasil pra Camille se apaixonar…

    E a matéria sobre a Shakespeare and Company que chamou minha atenção: um mero drops daquele new journalism cretino…péssimo!!

  15. Olha, é a primeira vez que entro no seu Blog e já posso ver que é um Blog de conteúdo …

    Falando de revistas, eu assino( ava ) a Bons Fluidos, e de repente, me sentí “orfã” quando tiraram os tres redatores que eu mais gostava, do nada….

    Bom, tenho muito a aprender com voce…

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