Cinema | Batman, O Cavaleiro das Trevas

Consegui assistir a Batman, O Cavaleiro das Trevas – depois de muitos meses, mas quando o assunto volta à tona, às vésperas da entrega do Oscar 2008. Gostei! Heath Ledger à parte – depois eu chego nele – acho que o mérito do filme é válido como um todo, e não por um personagem, ou por outra determinada coisa qualquer. Essa produção vai além dos efeitos – e não estou me referindo aos especiais, que também são excelentes – de suas correlatas ao transformar uma trama de HQ em um verdadeiro drama psicológico.

Em minha humilde opinião, o grande mote de Batman, O Cavaleiro das Trevas é esse jogo psicológico, que se desenvolve pela união de uma trama elaborada e de alguns personagens-chave muito bem construídos. O roteiro de Chris Nolan e de seu irmão, Jonathan, é bem trabalhado e prova com louvor a complexidade de… Batman! Sim, para mim, a grande lição deixada por esse filme não é aquela na qual a maioria do público parece se basear (“O Coringa de Heath Ledger deixa Batman comendo poeira e ele merece o Oscar póstumo”), mas sim a de que o personagem Batman é de uma complexidade digna de um filme como esse atual.

A mim, não parece que é o Coringa que rouba a cena o tempo todo. Ele apenas faz – com o desempenho competentíssimo de Heath Ledger, é claro! – o que sua natureza manda. Como personagem, trata-se de alguém bastante “simples”, haja vista que a essência do Coringa é ser o produto de uma sociedade problemática e de uma família completamente desestruturada. Dessa forma, ele apenas age da maneira que lhe é esperado agir: matar e destruir por diversão, sem se preocupar nem sequer consigo mesmo.

Batman, por sua vez, é um personagem extremamente complexo. Por trás dele, há e sempre haverá Bruce Wayne. E, durante a maior parte do filme, é o código moral e o senso de ética de Wayne que segura e limita as ações de Batman. E, assim, chega-se ao mais completo caos que Gothan City demonstra no terço final do filme.

Pressionado pela opinião pública e pelo peso psicológico de Batman diante de uma Gothan destruída e dominada por bandidos, Bruce Wayne decide ceder. Ao tentar se entregar como a verdadeira identidade do homem-morcego, fica claro que, nesse jogo psicológico, Batman perde força diante do Coringa não por suas próprias atitudes, mas pela fraqueza que Bruce Wayne demonstra ao não conseguir arcar com a responsabilidade de ser também o cavaleiro das trevas – enquanto o Coringa é “apenas” o Coringa, como define, em um trecho do filme, o comissário Gordon (Gary Oldman): “Um palhaço maluco, sem nome, sem passado, sem ao menos etiquetas nas roupas”.

É esse Coringa, porém, que atua como chamariz de toda a primeira impressão sobre o filme. Sua personalidade doentia, suas ações performáticas durante o filme, tudo isso é uma atração à parte em Batman, o Cavaleiro das Trevas, mas, para quem leu bastante os (melhores) quadrinhos do homem-morcego, é o Coringa – guardadas as devidas proporções de HQs para telas de cinema – perfeito para a trama, muito bem concebido pelos roteiristas. O trabalho de Heath Ledger é realmente muito bom (não sei se ele merece ou não o Oscar, simplesmente por não ter visto os trabalhos de seus concorrentes na categoria) e sua sintonia com o personagem é, de fato, algo espantoso. Para mim, o efeito foi o de “escolherem o ator certo para o papel certo”.

No entanto, quando a personagem Rachel Dawes – cuja atriz, Maggie Gyllenhaal, não me pareceu uma boa escolha, por falta de personalidade suficiente para desempenhar o papel – morre, o longa ganha novo ritmo. É como se houvesse um corte na conexão entre Bruce Wayne e Batman. E, a partir daí, sim, o homem-morcego começa a responder com maior eficiência às ações do Coringa. Como se Bruce Wayne entregasse “as rédeas” da situação a Batman, entendendo que o herói existe justamente para tomar as atitudes necessárias para o bem de Gothan, mas impossíveis de serem sustentadas por sua identidade formal.

Aí entra o questionamento ético que muitas pessoas levantaram, quando Batman pede a Lucius Fox (Morgan Freeman) que utilize um equipamento desenvolvido para as Indústrias Wayne para monitorar todas as ligações telefônicas na cidade, na tentativa de rastrear o paradeiro do Coringa. A atitude pareceu extremada para alguns; a mim, pareceu exatamente de acordo com o que o momento pedia. E, mais do que isso, uma tarefa que cabia a Batman, e não a Bruce Wayne.

A ratificação da importância e do sentido da existência de Batman para Gothan vem na fase final do filme, quando o Coringa elabora o “exercício social” envolvendo os dois barcos lotados de reféns (civis e condenados). Definitivamente, não haveria o porquê de Batman existir se um dos barcos acionasse o controle da bomba que poderia explodir a outra embarcação. E constatar que o plano do Coringa não foi um sucesso foi a maior recompensa que Batman recebeu em todo o longa-metragem.

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4 comentários sobre “Cinema | Batman, O Cavaleiro das Trevas

  1. LEIA BAtman – A Piada Mortal e BAtman – O cavaleiro das Trevas, este de Frank Miller. A Primeira parte, dos anos 80. A 2a., sec XXI, e’ fraquinha.

    E deixa esses filminhos fake pra la.

    BAtman e’ so em hq. Foreva.

    Besos!

  2. Oi, Nei.
    As dicas são ótimas, obrigada! Eu já li essas duas minisséries e gostei muito.
    Nas telas do cinema, o resultado nunca é tão satisfatório quanto o original, isso se tratando de qualquer personagem. Mas, no caso desse filme, achei que ficou bom.
    Um beijo.

  3. Olá crianças, contrariando tudo e todos, amei o filme, foi um jeito bem Frank Miller de contar uma estória do Batman e posso dizer que só foi tão longo esse filem porque alguém com muita sensibilidade percebeu a tragédia eminente e fez até a última cena que vemos. Não acompanho notícias deste tipo mas sou capaz de apostar que fariam episódio 1 e 2 deste filme e retrocederam com a idéia ao perceber que um dos personagens principais já estava pirando.
    O roteiro é maravilhoso, e a construção dos personagens ficou muito boa, o coringa normalmente rouba a cena por causa da sua loucura, por não estar nem aí com nada. E quantos de nós não queriam estar nem aí com nada???
    Enfim, apenas mais um ponto de vista.

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