Ágora – Leitura de janeiro (II)

Há pouco mais de uma semana, finalizei O Evangelho Segundo Jesus Cristo e precisei de vários dias para pensar sobre o impacto que essa leitura me causou.

A leitura foi mais do que proveitosa, não me arrependi de nada. Muito pelo contrário, Saramago é genial ao mostrar, com muita naturalidade e embasado em muita pesquisa, um novo ângulo desse tão polêmico pedaço da Bíblia.

” […] o pensamento, como uma súbita fresta, abriu-se para a ofuscante evidência de ser o homem um simples joguete nas mãos de Deus, eternamente sujeito a só fazer o que a Deus aprouver, quer quando julga obedecer-lhe em tudo, quer quando em tudo supõe contrariá-lo.” (p.181)

De fato. Pela releitura de Saramago, o homem – inclusive Jesus, que é muito mais enfocado em sua natureza humana, e não divina – não passa de um fantoche dos desígnios de Deus. E o Diabo, incrivelmente, mostra-se como uma criatura muito mais condescendente e piedosa do que se poderia imaginar. Trata-se de um grande argumentador – talvez o mais habilidoso e coerente da história de Saramago – e, em minha opinião, responsável pelos momentos mais notáveis do livro. É dele o seguinte raciocínio, muito inteligente, por sinal:

“Os escravos vivem para servir-nos, talvez devêssemos abri-los para sabermos se levam escravos dentro, e depois abrir um rei para ver se tem outro rei na barriga, e olha que se encontrássemos o Diabo [veja a autorreferência] e ele deixasse que o abríssemos, talvez tivéssemos a surpresa de ver saltar Deus lá de dentro.” (p.200)

A mim, isso parece ser a mais pura verdade. Já que Lúcifer era o mais perfeito anjo criado por Deus e que, pela ambição de ser como o pai, foi castigado e banido do céu – e, posteriormente, encarado como a essência do Mal no mundo -, é de se imaginar que dentro do Bem exista o Mal e vice-versa.

Genial também me parece a maneira com a qual Saramago inverte as situações. Na tentação no deserto, Jesus cede para Deus, é Ele que o tenta, e não o Diabo. Porém, com a mesma proposta de glória e poder, é Deus que faz com que Jesus se renda à possibilidade de ser tão poderoso e glorioso quanto Ele. Curiosamente, o Diabo, inclusive, toma uma atitude repreensiva, quando, ao saber do “fracasso” de Jesus, simplesmente diz: “Não aprendeste nada, vai”. (p.220)

Em, última análise, penso que toda a capacidade argumentativa de Saramago foi guardada para a produção do antepenúltimo capítulo, que concentra os diálogos mais brilhantes entre Deus, Jesus e o Diabo – uma tríade às avessas.

O lado ateu de Saramago é fortemente acentuado pela construção de um Deus impiedoso e de um Diabo utopicamente bondoso. Mas isso não tira o valor das contruções de diálogos notavelmente bem-feitos. Aliás, o autor não perdeu nenhuma chance: quando o Diabo chega para a “reunião”, vem em forma de Leviatã, da mesma forma como ocorre no livro de Jó, no Velho Testamento.

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2 comentários sobre “Ágora – Leitura de janeiro (II)

  1. Ja li esse livro umas 5 vezes e sempre me surpreendo. Lembro-me de D.Bernardo (Ordem de Sao Bento) que me dizia no ginasio: Nei, as suas duvidas sao o motor de sua fe, como se essa frase fosse um preambulo do livro que viria decadas depois.
    Com Saramago, finalmente a teologia crista deixa de ser um dogma e passa a ser um personagem.

  2. Amiga que coisa de louco, Saramago consegue questionar de forma inteligentíssima a religião, a igreja cristã finalmente não está tendo mais poder sobre decidir a vida das pessoas, ela passa a ser uma filosofia passível de questionamento e esse livro creio que é um marco nesse sentido.

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