HQ | Homem-Formiga: Mundo Pequeno

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Foi por causa do filme do Homem-Formiga, estrelado por Paul Rudd, lançado pela Marvel em 2015, que eu resolvi ler algo desse personagem, o qual sempre tinha ouvido falar, mas quase nada conhecia.

No início de 2016, encontrei, no site da Livraria Cultura, esse volume intitulado Mundo Pequeno e resolvi arriscar. Como não tenho um método quanto às minhas leituras, somente no início deste ano fui tirá-lo da estante – e sem muitas expectativas, diga-se de passagem.

Introdução

Esse volume editado pela Panini é bastante esclarecedor para quem nada sabe sobre o personagem, então vi que fiz uma boa compra no fim das contas. Ele é composto por quatro histórias, sendo que uma delas mostra exatamente a origem do Homem-Formiga, escrita por Stan Lee & Larry Lieber e publicada em 1962, seguida por “O retorno do Homem-Formiga”, também de 1962.

Essas primeiras histórias são fundamentais para o leitor compreender não apenas a dinâmica das HQs da época (de ritmo e composição bastante diferenciadas em relação a hoje), como também para situar o papel do Homem-Formiga no Universo Marvel.

Contudo, as histórias que me agradaram bastante foram “A criatura de Kosmos!” e “Estreia conturbada!”, ambas magistralmente desenhadas pelo mestre John Byrne – isso me trouxe memórias afetivas muito boas de uma das melhores fases dos X-Men, justamente ilustrada por Byrne. Eu diria que o ponto alto dessas HQs é a transição do cientista Hank Pym para o Homem-Formiga.

É bem interessante observar como, nessas primeiras histórias, é bem explorado o dilema do herói x o homem comum (algo que perdeu bastante da magia nas HQs atualmente) e como há um “clima retrô” em relação à atmosfera das histórias, facilmente observado pelas roupas e pelos costumes dos personagens.

Mundo Pequeno

Já a história que dá título a essa coletânea, em minha opinião, é a mais fraca da compilação. O traço de Tim Seeley é bastante agradável, porém o enredo é afetado demais. Perde muito em relação às outras histórias, por tratar o Homem-Formiga (agora Scott Lang e tendo Hank Pym como Vespa, traje originalmente vestido por sua falecida esposa Janet) como um herói que, mesmo vivendo um conflito interno em relação às suas questões éticas, está totalmente perdido na vida. Vespa (Hank Pym, o Homem-Formiga original) está entregue à sua tecnologia e agora é um homem mais impessoal do que nunca em relação àquele herói das primeiras histórias. Notei certo esvaziamento do personagem em sua versão mais atual, esvaziamento este que não é compensado pela bela arte de Seeley.

Homem-Formiga: Mundo Pequeno
Tim Seeley, Stan Lee, Larry Lieber, David Michelinie (roteiros); Tim Seeley, Jack Kirby, H.E. Huntley, John Byrne & Bob Layton (arte)
Mario Luiz C. Barroso e Rodrigo Barros (tradução)
Marvel / Panini
146 páginas

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Leitura | As memórias do livro

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Tirei esse livro da estante em um momento curioso. Primeiro, porque eu o encontrei enquanto procurava O estrangeiro, de Albert Camus – um livro que, diga-se de passagem, precisei revirar minha estante três vezes para encontrar semanas depois. Segundo, porque, no caso do título de Geraldine Brooks, o livro em questão é uma hagadá, tradicional obra judia cujos trechos são lidos no almoço de Páscoa – época em que fiz a leitura (outra coincidência?). A hagadá celebra o Pessach, ou seja, a saída dos judeus do Egito, evento descrito no livro bíblico do Êxodo.

Impressões

Que leitura surpreendente. E sofrida. Definitivamente. Eu sofri bastante enquanto o lia. Imaginava que seria apenas um thriller repleto de ação, protagonizado por uma restauradora de livros, mas nada exigente, apenas uma leitura para distrair as ideias. Nem preciso dizer que eu me enganei redondamente.

Estrutura

Geraldine Brooks construiu uma história interessante, cheia de saltos ao longo dos séculos. Cada capítulo se passa em um lugar e uma época diferentes. A autora entremeia a história de sua protagonista, a restauradora de livros Hanna Heath (uma mulher cheia de conflitos internos), com a história da hagadá – o livro cujas memórias o título faz referência.

Adicione-se a isso o fato de que cada capítulo que conta a história da hagadá é protagonizado por diferentes personagens e tem-se aí o ponto alto do livro – a complexidade de fios entrelaçados que fazem com que o leitor acabe de posse de todas as informações do que houve com a hagadá (as memórias do livro), enquanto Hanna conduz suas investigações sem a onisciência do narrador – isto é, ela não fica sabendo de tudo o que se passou com a hagadá ao longo dos séculos de sua trajetória. Confesso que senti certa angústia em relação a isso. Achei que Hanna merecia saber de tudo. Enfim, coisas dos livros.

Luta

Não posso deixar de mencionar o que me fez sofrer durante a leitura: em mais de uma ocasião, a hagadá quase foi destruída. Seu destino dependeu de pessoas frágeis, porém valentes. A maior parte delas mulheres que lutaram e arriscaram suas vidas para que o livro ficasse em segurança. E, como a vida das mulheres, ao longo da História, nunca foi fácil, é possível imaginar quão complicado foi proteger esse livro, o qual, por seu teor religioso, atraiu a ira da Inquisição e dos nazistas, por exemplo. E aí a autora parte em uma viagem no tempo que faz valer a leitura. Para quem gosta de História e ama os livros por tudo aquilo que eles representam, é um “prato cheio”.

As memórias do livro
Geraldine Brooks
Editora Agir
2012
343 páginas

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (II)

Continuo com os registros do projeto que estou desenvolvendo de uma leitura compartilhada de O Morro dos Ventos Uivantes, considerando o texto original e integral de Wuthering Heights e a versão traduzida por Rachel de Queiroz. Mais detalhes sobre a ideia geral estão no primeiro post que fiz sobre esse assunto, que pode ser acessado aqui.

Desafio

A primeira coisa que quero pontuar nesta segunda parte é que esse projeto tem aumentado de forma crescente o meu interesse pelo trabalho de tradução. É simplesmente fascinante trabalhar com o texto em si e sua forma em outra língua. Tenho procurado vários materiais de apoio, com o objetivo de entender melhor a linha de raciocínio de um tradutor, muito embora eu possa me aventurar a dizer que, até o momento, tenho conseguido entender as decisões de Rachel de Queiroz diante do gigante criado por Emile Brontë. Só por isso já tem valido esse percurso.

As colunas sobre o trabalho de tradução escritas pelo jornalista e tradutor Eduardo Ferreira para o Jornal Rascunho também têm me ajudado demais a compreender as nuances desse processo. Recomendo esses textos a todos aqueles que se interessam pelo assunto.

Um ótimo exemplo de uma das coisas que aprendi lendo os textos do Eduardo foi a substancial diferença entre “versão” e “tradução”. Seguem as claras definições retiradas de uma das colunas de Eduardo Ferreira:

“A tradução é um trabalho meticuloso, carregado de espírito. Transforma uma simples versão em texto verdadeiramente literário, conforme ao gênio da língua de chegada.

A versão seria espécie de estágio intermediário entre o original e a verdadeira tradução.”

Também encomendei alguns livros sobre o assunto e espero confrontar ideias e complementar meus estudos com eles. Estou ansiosa pela chegada de Sobre a tradução, de Paul Ricoeur (Editora UFMG), texto clássico sobre o assunto e do qual já ouvi falar bastante, e os volumes teórico e de exercícios de Vocabulando, da professora e tradutora de inglês Isa Mara Lando.

Sobre o enredo

Retomei a leitura da tradução de Rachel de Queiroz e fiquei muito contente ao perceber que estou captando bem a ideia geral do enredo em inglês. Aqui, acho que vale a inclusão de uma ótima árvore genealógica envolvendo as famílias que protagonizam a história. A fonte da imagem é o site http://www.wuthering-heights.co.uk.

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A árvore genealógica dos personagens é uma questão bem importante no enredo, além de já passar uma ideia de como a história tem o poder de atravessar gerações desses núcleos familiares.

No próximo post deste diário de leitura, contarei mais detalhes sobre o enredo e vou comentar as primeiras curiosidades a respeito do processo de tradução.

Série Vaga-lume | A grande fuga

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Esse título foi mais uma releitura da Série Vaga-Lume. É sempre interessante quando se trata de uma releitura, porque eu tento recordar o livro, pensar o que ficou na memória sobre ele depois de tanto tempo.

No caso de A grande fuga, eu lembro que peguei esse livro na biblioteca de classe (eu amava a biblioteca de classe!) e que, pelo fato de as ilustrações não me agradarem, esse foi um dos últimos títulos da coleção que eu tirei para a leitura. Aliás, é bem curioso pensar que eu, já com meus 10, 11 anos, tinha certa visão crítica em relação ao conjunto de uma publicação. Costumava analisar as ilustrações (sabia de cabeça, inclusive, os nomes de alguns artistas que trabalhavam para a coleção), as cores usadas para o padrão da capa, e ficava procurando qual ilustração do miolo havia sido escolhida para capa da edição. Lia também o expediente e ficava imaginando como seria legal trabalhar fazendo aquilo, manuseando aqueles textos tão bacanas. Por isso, para mim, hoje é uma satisfação trabalhar com texto e ser uma pesquisadora de língua e literatura.

Voltando ao livro…

Outra lembrança que eu tinha era de que o enredo desse livro era pura ação, como seu próprio título sugere. Além disso, não lembrava mais nada e foi assim que parti para a releitura.

Foi uma boa surpresa me deparar com o texto fluido de Silvio Pereira, marcado por gírias de uma época que só me trouxe lembranças boas, por meio de seu trio de protagonistas: os irmãos Cat e Júlio e o primo Paulino.

Imagino a dificuldade do autor em elaborar uma trama envolvendo traficantes, crimes e polícia em plenos anos 1980. O enredo em si é fraco (vale lembrar que a própria Série Vaga-Lume tem excelentes títulos nessa linha de ação, como Bem-vindos ao Rio, Quem manda já morreu e Corrida infernal, por exemplo, todos escritos pelo fantástico Marcos Rey), mas vale a leitura de A grande fuga, sobretudo para pensarmos a literatura infantojuvenil daquela época, em um cenário social brasileiro conturbado. Falar de temas pesados já naquele tempo era, sem dúvida, um grande desafio.

Em seu livro, Silvio Pereira claramente evita o confronto entre policiais e bandidos, colocando a responsabilidade da grande fuga mencionada pelo título nas mãos dos próprios jovens protagonistas, que têm poucas horas para arquitetar um plano a fim de escapar de um grupo de bandidos que cercam a mansão onde por acaso eles foram parar. Há o dilema ético entre ajudar um bandido e abandoná-lo à morte (esse possivelmente é o ponto alto da história) e a luta pela sobrevivência.

Se não se trata de um ótimo título da Vaga-Lume, A grande fuga ao menos proporciona algumas horas de entretenimento, com seu texto curtinho e engraçado em alguns momentos.

A grande fuga
Silvio Pereira
Editora Ática
1985 – 95 páginas

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (Parte I)

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Certo dia, eu estava pondo em ordem os volumes da minha pequena estante e, ao constatar que eu tenho um exemplar em inglês e também outro em português de O Morro dos Ventos Uivantes, uma ideia me ocorreu: fazer uma leitura simultânea. Seria uma maneira de estudar inglês e também de analisar o texto original em contraponto a uma versão traduzida por ninguém menos do que Rachel de Queiroz. Juntei minhas papeladas e comecei a empreitada. Agora, pretendo, aos poucos, publicar aqui as minhas impressões durante o processo. Sem pressa, com cuidado e atenção. Afinal, O Morro dos Ventos Uivantes é um colosso que merece toda a dedicação, mesmo em um estudo informal como este que estou fazendo.

Ponto de partida

Disponho de um exemplar importado (Collector’s Library – CRW Publishing Limited) dessa obra máxima escrita pela inglesa Emile Brontë (1818-1848). O texto é original e integral, portanto, o mais indicado para o meu objetivo. Da coleção Clássicos da Editora Abril, tenho o volume traduzido para o português, cujo texto foi preparado por uma de nossas maiores escritoras: a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003). Ou seja, uma versão pra lá de confiável.

Diante disso, resolvi fazer a leitura capítulo a capítulo do livro, sempre lendo primeiro em inglês e, na sequência, em português. Isso me permitiria observar as nuances do texto e compará-lo com o trabalho de Rachel, analisando suas decisões como tradutora. Sem dúvida, um aprendizado e tanto.

Até aí, tudo às mil maravilhas. O caso foi que sabotei o meu próprio plano. Escrevo essa primeira parte do meu diário de leitura após lidas pouco mais de 100 páginas do livro, porém, algo inesperado aconteceu: disparei na leitura em inglês e acabei deixando a tradução em segundo plano. Resolvi interromper o processo para pôr as ideias em ordem (o que estou fazendo agora), uma vez que notei o disparate de estar lendo o capítulo 9 do livro original e o 3 da versão traduzida.

Entendendo a mudança de planos

De início, segui rigorosamente minhas próprias instruções. Fiz anotações e tudo. Entretanto, um grande volume de leituras que costumo fazer se dá no meu trajeto para o trabalho. Então, esse esquema de ler um capítulo de cada idioma implicaria levar os dois livros comigo, o que se tornou inviável, por causa do peso.

Dessa forma, durante vários dias, levei apenas o livro em inglês. Isso fez com que a leitura do texto original decolasse em relação à sua tradução. Com isso, resolvi ler as primeiras cem páginas do texto original e, depois, alcançar o mesmo ponto da versão traduzida antes de seguir adiante. Esse é o novo plano.

Mangá | Last Notes

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Fazia um bom tempo que eu não lia um mangá. Vi a sinopse de Last Notes em um site de publicações e resolvi comprar os exemplares – além de o enredo parecer interessante, a história se desenvolve em apenas três números, fator determinante para eu acompanhar uma publicação. Não tenho mais fôlego nem carteira para comprar não sei quantos exemplares de algo.

Impressões

Primeiro, explico como costumo proceder em relação à leitura. Por serem apenas três números, esperei que todos os três chegassem às bancas para, uma vez tendo todos em mãos, começar a leitura. No caso de Last Notes, como a periodicidade era bimestral, achei mais “seguro” agir dessa maneira, assim, poderia ler as partes em sequência e não correria o risco de esquecer algum detalhe importante.

O primeiro volume me deixou um tanto atordoada. Isso porque a mangaka Kanoko Sakurakouji introduziu, pouco depois do prólogo, uma pequena história cujo grau de independência eu só consegui compreender um tempo depois. Há uma dinâmica diferenciada quando ela aproveita para contar um episódio enxutinho, centrado em uma jovem e promissora atriz japonesa e sua aventura pelo mercado internacional, apenas para contextualizar a importância que certo incenso chamado hangokou, o qual viabiliza o contato com alguém já falecido, vendido na loja dos irmãos Aki e Haru, pode ter em sua vida.

Como eu disse, demorei a entender a independência dessa pequena história dentro do enredo de Last Notes, mas, uma vez compreendida a ideia, achei até interessante essa aparente quebra de fluxo. Afinal, as histórias da jovem atriz e também de alguns clientes que passam pela loja em busca do famigerado incenso, pelos mais diversos motivos, permitem que o leitor tenha a dimensão da importância do hangokou.

Essa primeira parte do mangá basicamente apresenta a questão central do hangokou e também o triângulo amoroso em torno do qual o enredo vai orbitar: os irmãos Aki e Haru (esses apelidos são trocadilhos com “outono” e “primavera” em japonês) e Emiru, a jovem neta do mestre especialista em incensos que fornecia o hangokou para a loja dos rapazes.

Desenvolvimento

As outras duas partes de Last Notes alternam momentos de fofura, como aqueles nos quais o leitor percebe o carinho com o qual Emiru é tratada pelos rapazes, e alguns toques de mistério, como as pistas sobre o passado da mãe de Emiru (aliás, um enigma até o fim), a procedência da madeira da qual é feita o hangokou, culminando com a decisão amorosa a qual já se sabe que a garota deverá tomar, uma vez que uma das premissas do shoujo mangá (mangá de garotas) é o romance no ar.

Creio que a autora acerta quando consegue fugir do óbvio. Muito embora no Japão essas publicações segmentadas sigam claramente aquilo que é esperado de seus enredos, ou seja, shoujo é shoujo, ainda assim, é bem interessante quando ela consegue criar situações nas quais os personagens não apresentam as reações esperadas. O ponto alto disso se concentra em Aki, o personagem mais bem construído de Last Notes em minha opinião. É ele quem movimenta a história, quem incendeia a trama e quando a solução de tudo parece estar em suas mãos (ainda que a personalidade de Haru seja visivelmente controladora), o rapaz não escolhe o caminho mais fácil. Ponto para a mangaka.

Também é algo a ser observado o tema da morte nesse shoujo. Sempre me fascinou a maneira simples e acessível com a qual os japoneses encaram a morte e tudo o que a ela é relacionado. No Ocidente, isso ainda parece ser um tabu, cheira a morbidez e, muitas vezes, afasta as pessoas. Last Notes é um exemplo sutil de como a morte pode ser parte do cotidiano das pessoas de diversas maneiras, seja na forma de um incenso como o hangokou, seja na forma como Emiru encara o falecimento do avô e assim por diante. A morte e a perda são pontos muito delicados, com os quais os japoneses conseguem estabelecer relações de naturalidade.

Visual

O traço de Kanoko é bem tradicional e refinado, o que torna o mangá esteticamente belo. Entretanto, a edição da Panini é bem simples, sem páginas coloridas de miolo, com papel jornal, enfim. Esse não é um fator que prejudica a leitura, porque o mangá é uma produção média, entretanto, se fosse o caso de ser “um clássico”, seria lamentável esse tratamento gráfico tão simples.

Last Notes
Kanoko Sakurakouji
Karen Hayashida (tradução)
Planet Manga (Panini)
3 volumes

Maigret | Um crime na Holanda

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Preciso dizer: foi uma leitura chata. Maigret me maltratou desta vez. Em Um crime na Holanda, Simenon contradiz alguns aspectos da personalidade de seu famoso protagonista, o comissário da polícia judiciária francesa Jules Maigret. E eu, que pensava que já tinha desvendado os segredos dessa famosa figura da literatura policial…

Narrativa

O livro, apesar de curto, tem um ritmo narrativo lento, muito provavelmente reflexo de uma barreira que faz dessa uma das investigações mais complicadas que já vi Maigret empreender até o momento: trabalhando na Holanda, enviado pelo governo francês para investigar um crime de assassinato do qual um renomado professor seu conterrâneo é acusado, o comissário enfrenta o problema de não falar a língua do país, e consequentemente, estabelecer vínculos antipáticos e até mesmo hostis durante sua estada nessa terra estrangeira. Maigret irrita-se quando, aproveitando a velocidade e a intuição de seus vários anos de experiência, quer interpelar alguém envolvido na investigação, mas se vê impedido pelo obstáculo da compreensão. Ao longo da história, os problemas de comunicação criam as mais diversas situações: constrangedoras, engraçadas, delicadas e até mesmo ameaçadoras.

Entretanto, comunicação não é apenas a fala, e Maigret sabe muito bem como ler as reações de seus interlocutores. Esse é um dos pontos altos do enredo: a forma como o autor consegue demonstrar a capacidade do comissário em relacionar o significado de um tom de voz, de um olhar, de uma atitude agressiva, e juntar isso tudo para traçar perfis, reconstituir cenas e até mesmo elaborar a personalidade do morto. Para tanto, o comissário da polícia judiciária francesa vale-se de toda a sua experiência na profissão. É, talvez a leitura não tenha sido chata, pensando por esse ponto de vista.

Impasse

Contudo, o trabalho de Maigret na Holanda conduz não apenas a si próprio, como também a pequena comunidade holandesa de Delfzijl, onde o crime aconteceu, a um dilema de teor social: até onde vale a pena solucionar um crime cuja resolução não trará mais do que dor e decepção a todos os envolvidos? A revelação de segredos envolvendo várias pessoas em torno do morto deixa claro que, caso Maigret decida ir adiante, o preço a pagar será bem alto.

Quando o comissário toma a arriscada decisão de seguir em frente, Simenon nos presenteia com uma trama bastante realista, bem distante de um final feliz, porém extremamente próxima de uma visão melancólica da sociedade. Maigret faz o seu trabalho com competência e de forma inflexível. Impassível, ele não se comove com a possibilidade de destruir reputações locais e de expor a intimidade de cidadãos respeitados. Apesar de apresentar, em alguns instantes, uma gentileza inesperada, toda a resiliência que eu vi em sua personalidade em vários outros momentos, em livros como Pietr, o letão e O cachorro amarelo, por exemplo, eu não vi em Um crime na Holanda. Isso me surpreendeu.

Maigret cumpriu o seu papel; no entanto, o rastro deixado em seu caminho foi de dor e sofrimento. Afinal, quem disse que o trabalho da polícia não é, sim, na maior parte do tempo, duro, pessimista e melancólico?

Um crime na Holanda
Georges Simenon
L&PM Editores
2011 – 160 páginas

Série | Stranger Things 2

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O grande desafio que os Duffer Brothers tinham para esta segunda temporada de Stranger Things, a meu ver, era determinar de que forma a história continuaria a ser contada. Sim, porque os ganchos mudaram. Agora, já não havia a problemática de uma criança desaparecida. E, querendo ou não, os riscos em relação ao ritmo dos episódios eram bem grandes – como, aliás, provou-se no decorrer da temporada.

Os contras e os prós

Apesar das emoções, dos novos personagens e da “repaginação” de outros, Stranger Things 2 sofreu principalmente com as oscilações no ritmo da história. Enquanto tivemos episódios frenéticos do início ao fim, outros simplesmente se arrastaram. Isso colocou em xeque a força do enredo nessa continuação da série, uma vez que muito cedo ficou claro que o grande trunfo da temporada seria o reencontro de Eleven (Millie Bobby Brown) com seus amigos, principalmente Mike (Finn Wolfhard) – algo que, claramente, foi postergado ao máximo pelos roteiristas.

A parte interessante foi a consolidação da própria Eleven como grande ponto focal de Stranger Things 2. Foi bastante esclarecedora a pausa feita para recuperar o passado da garota, muito embora a abertura da segunda temporada com uma baita sequência de ação protagonizada por sua “irmã” Khali deixou um grande fio solto que só foi recuperado na segunda metade da temporada, como parte do processo de autoconhecimento de Eleven (sua preparação na tradicional jornada da heroína para enfrentar o grande desafio de fechar o portal localizado no Laboratório de Hawkins no grande desfecho da temporada).

Parcerias

A série se consolida, nesta segunda temporada, por seus talentos infantojuvenis (incríveis as interpretações de Noah Schnapp e de Finn Wolfhard como Will e Mike, respectivamente), apoiados por atores experientes, como Winona Ryder e David Harbour. Max (Sadie Sink), a garota ruiva que chega para dividir com Eleven a parcela feminina no grupo de Mike e Cia., torna-se a namorada de Lucas (Caleb McLaughlin), enquanto Steve (Joe Keery) – o inicialmente desajustado namorado de Nancy (Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike – passa a desempenhar a função de irmão mais velho de Dustin (Gatten Matarazzo), estabelecendo uma dupla fartamente elogiada pelos fãs de Stranger Things.

De Eleven para Jane

Um dos ganhos que a série trouxe nestes novos episódios foi a possibilidade de um recomeço para Eleven. Depois dos traumáticos anos presa no Laboratório de Hawkins, recuperar o seu passado, descobrir o seu verdadeiro nome e ser adotada foram fatos que abriram a perspectiva de uma vida cada vez mais próxima do normal para a adolescente – aliás, abrir espaço para o baile da escola depois de tantas bizarrices (a cena da morte de Bob foi digna dos filmes de monstros da década de 1980) foi uma maneira que os irmãos Duffer encontraram para “firmar um pé” da série na realidade adolescente da cidade de Hawkins. Resta saber como isso será administrado na terceira temporada, já confirmada com oito episódios e estreia prevista para 2019.

Stranger Things 2
Criação: The Duffer Brothers
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura/Ficção
Duração – Temporada 2: 9 episódios (cada um com 55 minutos em média)

Série | Dark

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Ultimamente eu tenho observado bastante um aspecto de filmes, livros, animês e por aí vai: como as histórias são contadas. Muitas vezes, a magia de alguma obra está muito mais na maneira como ela é apresentada do que propriamente concentrada em um enredo espetacular, inovador. Por isso, achei muito interessante a proposta dessa série alemã, produção original Netflix.

Em dez episódios, Dark é capaz de “fundir os miolos” do espectador, propondo uma trama composta de fios temporais que apresentam suas personagens e respectivos núcleos familiares em diferentes épocas de suas vidas. Entretanto, não é exatamente esse enredo mirabolante o principal atrativo da série. Há, digamos assim, uma atmosfera diferente no ar, nos recursos utilizados para contar a história, que tem como fio condutor um suspense muito bem feito.

Ponto de partida

Nada brilhante o início de Dark: o desaparecimento do garoto Mikkel Nielsen (Daan Lennard Liebrenz), em 2019. Contudo, logo nos primeiros episódios o espectador já entende que esse evento é o ponto em torno do qual orbita toda a trama da série. A partir daí, idas e vindas tornam-se constantes: 1956, 1986 e 2019, ou seja, pulando a cada 33 anos, temos um grupo de pessoas em uma cidade cujas atitudes influenciam eventos passados, presentes e, conforme probabilidades em relação à segunda temporada, futuros.

Se o sumiço de Mikkel marca um dos momentos importantes de Dark, é a trajetória turbulenta e perturbada de Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) que vai fornecendo ao público as pistas para compreender como diferentes momentos temporais refletem acontecimentos que se repetem. Seria a pequena cidade alemã de Winden um ponto especial, capaz de conectar diferentes faixas temporais com momentos replicantes? Ficção científica, energia nuclear, mistério e suspense fazem parte da resposta em doses na medida certa.

Sem medo de entregar as ideias

Um ponto bastante positivo de Dark é a dinâmica da série. Nota-se claramente que os roteiristas não ficam “segurando” a ocorrência de momentos-chave do enredo para o fim da temporada. Muito pelo contrário, à medida que avançamos pelos episódios, é possível já ir montando o quebra-cabeça dessa trama complexa. E isso só vai intrigando ainda mais o público, em vez de decepcioná-lo.

O que parece é que toda a equipe de Dark confia bastante no potencial da série, a ponto de não tentar “facilitar” as coisas para o espectador, no intuito de tornar a produção popular – muito embora o recurso de dividir a tela ao meio para mostrar um mesmo personagem nas fases jovem e madura seja bastante esclarecedor para a identificação e o conhecimento de todo o elenco.

No fim dos dez episódios, o que fica é a sensação de que a série agrada porque instiga. Não propõe questões de respostas fáceis e inova justamente por não buscar a fórmula politicamente correta em tempos nos quais o bullying domina todas as instâncias sociais. Há cenas fortes – difícil de esquecer o choque de Ulrich (Oliver Masucci) matando o jovem Helge (Tom Phillipp) a pedradas – e uma forma seca e áspera de mostrar a face oculta do ser humano em suas mais diferentes idades, tempos e sexos. Faz pensar – e isso é um grande mérito.

Dark
Criação: Baran bo Odar, Jantje Friese
Ano: 2017
País: Alemanha
Gênero: Ficção científica/drama/suspense
Duração – Temporada 1: 10 episódios (cada um com 1 hora em média)

Irmãos Encrenca | O segredo do Museu Imperial

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Neste volume da coleção dos Irmãos Encrenca, Stella Carr trabalha com a vertente da História do Brasil. Ao levar os irmãos Isabel, Eloís e Marco para uma viagem ao Rio de Janeiro, onde os dois garotos vão aproveitar para participar de uma colônia de férias para estudantes, a autora apresenta ao leitor o Museu Imperial e conta várias passagens do período das regências da história de nosso país.

Convidados especiais

Outro traço interessante do enredo desse livro é que, no decorrer de mais uma de suas intrépidas investigações, os Irmãos Encrenca – agora envolvidos em uma estranha conspiração com o grupo da Juventude Restauradora, explosões em bancas de revistas e livrarias – vão contar com a ajuda de um seleto grupo de intelectuais (Todos amigos de Stella Carr fora das páginas do livro!) que estão no Rio para participar de uma conferência: Paulo Condini, Nelly Novaes Coelho, Aldemir Martins, Tereza Monteiro, Olga Savary, Laura Sandroni e Paulo de Medeiros Albuquerque. Nos cenários do museu que conta muito da história da Família Imperial brasileira, eles vão ajudar os garotos a desmascarar naziterroristas que pretendem, inclusive, explodir o famoso Palácio de Cristal em Petrópolis.

É muito proveitosa a forma como a autora estimula o interesse do leitor por episódios importantes da história nacional. Para isso, ela mescla informações sobre o passado e o presente, criando uma teia dinâmica de acontecimentos, com direito a sequestros no meio da noite, agentes infiltrados, uma vidente e, é claro, várias situações engraçadas com os irmãos Marco e Eloís.

Em mais este livro, publicado originalmente em 1981, Stella Carr consegue manter o ritmo e a criatividade, presenteando seus pequenos leitores com mais uma boa história infantojuvenil, repleta de referências para pesquisa pós-leitura, e já deixando os leitores com vontade de ler a próxima aventura de seus jovens detetives.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sétimo livro da série: O esqueleto atrás da porta!

O segredo do Museu Imperial
Stella Carr
Editora Moderna
110 páginas – 1993