Série | Stranger Things 2

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O grande desafio que os Duffer Brothers tinham para esta segunda temporada de Stranger Things, a meu ver, era determinar de que forma a história continuaria a ser contada. Sim, porque os ganchos mudaram. Agora, já não havia a problemática de uma criança desaparecida. E, querendo ou não, os riscos em relação ao ritmo dos episódios eram bem grandes – como, aliás, provou-se no decorrer da temporada.

Os contras e os prós

Apesar das emoções, dos novos personagens e da “repaginação” de outros, Stranger Things 2 sofreu principalmente com as oscilações no ritmo da história. Enquanto tivemos episódios frenéticos do início ao fim, outros simplesmente se arrastaram. Isso colocou em xeque a força do enredo nessa continuação da série, uma vez que muito cedo ficou claro que o grande trunfo da temporada seria o reencontro de Eleven (Millie Bobby Brown) com seus amigos, principalmente Mike (Finn Wolfhard) – algo que, claramente, foi postergado ao máximo pelos roteiristas.

A parte interessante foi a consolidação da própria Eleven como grande ponto focal de Stranger Things 2. Foi bastante esclarecedora a pausa feita para recuperar o passado da garota, muito embora a abertura da segunda temporada com uma baita sequência de ação protagonizada por sua “irmã” Khali deixou um grande fio solto que só foi recuperado na segunda metade da temporada, como parte do processo de autoconhecimento de Eleven (sua preparação na tradicional jornada da heroína para enfrentar o grande desafio de fechar o portal localizado no Laboratório de Hawkins no grande desfecho da temporada).

Parcerias

A série se consolida, nesta segunda temporada, por seus talentos infantojuvenis (incríveis as interpretações de Noah Schnapp e de Finn Wolfhard como Will e Mike, respectivamente), apoiados por atores experientes, como Winona Ryder e David Harbour. Max (Sadie Sink), a garota ruiva que chega para dividir com Eleven a parcela feminina no grupo de Mike e Cia., torna-se a namorada de Lucas (Caleb McLaughlin), enquanto Steve (Joe Keery) – o inicialmente desajustado namorado de Nancy (Natalia Dyer), a irmã mais velha de Mike – passa a desempenhar a função de irmão mais velho de Dustin (Gatten Matarazzo), estabelecendo uma dupla fartamente elogiada pelos fãs de Stranger Things.

De Eleven para Jane

Um dos ganhos que a série trouxe nestes novos episódios foi a possibilidade de um recomeço para Eleven. Depois dos traumáticos anos presa no Laboratório de Hawkins, recuperar o seu passado, descobrir o seu verdadeiro nome e ser adotada foram fatos que abriram a perspectiva de uma vida cada vez mais próxima do normal para a adolescente – aliás, abrir espaço para o baile da escola depois de tantas bizarrices (a cena da morte de Bob foi digna dos filmes de monstros da década de 1980) foi uma maneira que os irmãos Duffer encontraram para “firmar um pé” da série na realidade adolescente da cidade de Hawkins. Resta saber como isso será administrado na terceira temporada, já confirmada com oito episódios e estreia prevista para 2019.

Stranger Things 2
Criação: The Duffer Brothers
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Aventura/Ficção
Duração – Temporada 2: 9 episódios (cada um com 55 minutos em média)

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Série | Dark

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Ultimamente eu tenho observado bastante um aspecto de filmes, livros, animês e por aí vai: como as histórias são contadas. Muitas vezes, a magia de alguma obra está muito mais na maneira como ela é apresentada do que propriamente concentrada em um enredo espetacular, inovador. Por isso, achei muito interessante a proposta dessa série alemã, produção original Netflix.

Em dez episódios, Dark é capaz de “fundir os miolos” do espectador, propondo uma trama composta de fios temporais que apresentam suas personagens e respectivos núcleos familiares em diferentes épocas de suas vidas. Entretanto, não é exatamente esse enredo mirabolante o principal atrativo da série. Há, digamos assim, uma atmosfera diferente no ar, nos recursos utilizados para contar a história, que tem como fio condutor um suspense muito bem feito.

Ponto de partida

Nada brilhante o início de Dark: o desaparecimento do garoto Mikkel Nielsen (Daan Lennard Liebrenz), em 2019. Contudo, logo nos primeiros episódios o espectador já entende que esse evento é o ponto em torno do qual orbita toda a trama da série. A partir daí, idas e vindas tornam-se constantes: 1956, 1986 e 2019, ou seja, pulando a cada 33 anos, temos um grupo de pessoas em uma cidade cujas atitudes influenciam eventos passados, presentes e, conforme probabilidades em relação à segunda temporada, futuros.

Se o sumiço de Mikkel marca um dos momentos importantes de Dark, é a trajetória turbulenta e perturbada de Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) que vai fornecendo ao público as pistas para compreender como diferentes momentos temporais refletem acontecimentos que se repetem. Seria a pequena cidade alemã de Winden um ponto especial, capaz de conectar diferentes faixas temporais com momentos replicantes? Ficção científica, energia nuclear, mistério e suspense fazem parte da resposta em doses na medida certa.

Sem medo de entregar as ideias

Um ponto bastante positivo de Dark é a dinâmica da série. Nota-se claramente que os roteiristas não ficam “segurando” a ocorrência de momentos-chave do enredo para o fim da temporada. Muito pelo contrário, à medida que avançamos pelos episódios, é possível já ir montando o quebra-cabeça dessa trama complexa. E isso só vai intrigando ainda mais o público, em vez de decepcioná-lo.

O que parece é que toda a equipe de Dark confia bastante no potencial da série, a ponto de não tentar “facilitar” as coisas para o espectador, no intuito de tornar a produção popular – muito embora o recurso de dividir a tela ao meio para mostrar um mesmo personagem nas fases jovem e madura seja bastante esclarecedor para a identificação e o conhecimento de todo o elenco.

No fim dos dez episódios, o que fica é a sensação de que a série agrada porque instiga. Não propõe questões de respostas fáceis e inova justamente por não buscar a fórmula politicamente correta em tempos nos quais o bullying domina todas as instâncias sociais. Há cenas fortes – difícil de esquecer o choque de Ulrich (Oliver Masucci) matando o jovem Helge (Tom Phillipp) a pedradas – e uma forma seca e áspera de mostrar a face oculta do ser humano em suas mais diferentes idades, tempos e sexos. Faz pensar – e isso é um grande mérito.

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Criação: Baran bo Odar, Jantje Friese
Ano: 2017
País: Alemanha
Gênero: Ficção científica/drama/suspense
Duração – Temporada 1: 10 episódios (cada um com 1 hora em média)

Irmãos Encrenca | O segredo do Museu Imperial

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Neste volume da coleção dos Irmãos Encrenca, Stella Carr trabalha com a vertente da História do Brasil. Ao levar os irmãos Isabel, Eloís e Marco para uma viagem ao Rio de Janeiro, onde os dois garotos vão aproveitar para participar de uma colônia de férias para estudantes, a autora apresenta ao leitor o Museu Imperial e conta várias passagens do período das regências da história de nosso país.

Convidados especiais

Outro traço interessante do enredo desse livro é que, no decorrer de mais uma de suas intrépidas investigações, os Irmãos Encrenca – agora envolvidos em uma estranha conspiração com o grupo da Juventude Restauradora, explosões em bancas de revistas e livrarias – vão contar com a ajuda de um seleto grupo de intelectuais (Todos amigos de Stella Carr fora das páginas do livro!) que estão no Rio para participar de uma conferência: Paulo Condini, Nelly Novaes Coelho, Aldemir Martins, Tereza Monteiro, Olga Savary, Laura Sandroni e Paulo de Medeiros Albuquerque. Nos cenários do museu que conta muito da história da Família Imperial brasileira, eles vão ajudar os garotos a desmascarar naziterroristas que pretendem, inclusive, explodir o famoso Palácio de Cristal em Petrópolis.

É muito proveitosa a forma como a autora estimula o interesse do leitor por episódios importantes da história nacional. Para isso, ela mescla informações sobre o passado e o presente, criando uma teia dinâmica de acontecimentos, com direito a sequestros no meio da noite, agentes infiltrados, uma vidente e, é claro, várias situações engraçadas com os irmãos Marco e Eloís.

Em mais este livro, publicado originalmente em 1981, Stella Carr consegue manter o ritmo e a criatividade, presenteando seus pequenos leitores com mais uma boa história infantojuvenil, repleta de referências para pesquisa pós-leitura, e já deixando os leitores com vontade de ler a próxima aventura de seus jovens detetives.

No próximo post sobre os Irmãos Encrenca, o sétimo livro da série: O esqueleto atrás da porta!

O segredo do Museu Imperial
Stella Carr
Editora Moderna
110 páginas – 1993

Cinema | Assassinato no Expresso do Oriente

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Cartaz da versão de 2017

Assassinato no Expresso do Oriente está entre os maiores romances de Agatha Christie. Vários fatores colaboram para isso: seu vínculo com um crime real; a brilhante mecânica do assassinato construído pela autora nas páginas do livro; e a genialidade de Hercule Poirot, em condições totalmente adversas, são alguns deles.

Em termos cinematográficos, também são bem-sucedidas as adaptações mais conhecidas desse livro: a de 1974, dirigida por Sidney Lumet e elenco estelar, com seis indicações ao Oscar (levando a estatueta de melhor atriz coadjuvante para Ingrid Bergman), e a de 2010, episódio especial da série da BBC para comemorar os 120 anos de nascimento de Agatha Christie, com o ótimo David Suchet no papel de Poirot.

2017: elenco e enredo

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Cartaz da versão de 1974

Este ano, mais uma versão chegou às telas do cinema para “engrossar o time”. O ator, diretor e dramaturgo inglês Kenneth Branagh assumiu o desafio de não apenas dirigir, mas também protagonizar Assassinato no Expresso do Oriente em sua mais recente releitura. Seu Hercule Poirot passa longe da tentativa de aproximação com as interpretações de seus antecessores e, seguindo a mesma linha, sua direção leva o enredo a novos caminhos, apresentando uma nova forma de contar a mesma história.

Ainda não temos o devido distanciamento histórico para avaliar o peso do elenco de 2017, mas não há dúvida de que Branagh escolheu um bom time para sua versão. A despeito da grande dificuldade de encarar a delicada tarefa de reinterpretar os papéis consagrados pelo elenco espetacular de 1974, uma análise preliminar já é suficiente para constatar que o time de 2017 consegue desempenhar bem o seu papel, justamente pelo fato de que as mudanças incluídas nesta nova versão criam certo grau de independência em relação às montagens anteriores.

Entre os personagens, algumas trocas, algumas adaptações. Em uma manobra ousada, a Greta Ohlsson de Ingrid Bergman (1974) dá lugar a uma tão religiosa quanto Pilar Estravados, interpretada por Penélope Cruz (2017). O Coronel Arbuthnot de Sean Connery, em 1974, transforma-se na pele do ator negro Leslie Odom Jr., dando ao diretor a oportunidade de tocar no delicado assunto do racismo, implacavelmente levado a cabo pelas falas do misterioso Hardman, interpretado por Willen Dafoe.

Ritmo

A versão de 2017 deixa muito clara a preocupação do diretor em relação ao ritmo da história. Apesar de funcionar muito bem em forma de livro, a restrição de ambientes em tom ligeiramente claustrofóbico de Assassinato no Expresso do Oriente poderia não cair muito bem nas telas do cinema. A versão de 1974, muito fiel ao livro, apresenta claramente esse obstáculo, com praticamente todas as cenas ocorrendo dentro do trem, a partir do momento em que esse luxuoso veículo deixa a estação.

Em 2017, Kenneth Branagh cria situações para dinamizar o enredo, levando algumas cenas para fora do trem, realizando perseguições ao longo dos vagões e reservando o momento da resolução do crime para o ambiente externo. Todas essas variações foram atitudes corajosas do diretor, pois claramente quebraram o ritmo original da história, conferindo à sua versão toques de ação no melhor estilo blockbuster hollywoodiano. Para o bem e para o mal, Branagh buscou adaptar uma história antiga para tempos modernos, tentando torná-la palatável ao gosto de uma nova geração de espectadores com dificuldade de concentração e, consequemente, grau de atenção frequentemente comprometido – durante a sessão, vi algumas pessoas deixando a sala do cinema bem antes do fim.

Mrs. Hubbard

Os holofotes privilegiaram bastante a personagem de Michelle Pfeiffer. Se, em 1974, Lauren Bacall já tinha imprimido charme e personalidade à sua Mrs. Hubbard, em 2017, Kenneth Branagh criou várias oportunidades para Michelle Pfeiffer brilhar com uma interpretação forte, em cenas de teor dramático bastante impressionantes. É de se ressaltar a forma como Pfeiffer abraçou a “causa” de sua personagem, abrindo mão da vaidade para dar mais veracidade à sua interpretação, especialmente em suas cenas finais. Não será uma surpresa se sua Mrs. Hubbard lhe render alguns prêmios.

Poirot

Infelizmente, Agatha Christie não pode nos fornecer sua avaliação sobre o trabalho de Kenneth Branagh – ela prestigiou a estreia da versão de 1974 e, apesar de ter aprovado o filme, não gostou da interpretação de Albert Finney como Hercule Poirot. Para mim, a melhor releitura de Poirot ainda é a de David Suchet, na série da BBC, muito embora Kenneth Branagh tenha me surpreendido com seu competente trabalho, não apenas como diretor, mas também como um Poirot atualizado dentro de sua proposta para a versão de 2017.

Ficha técnica
Assassinato no Expresso do Oriente
Direção: Kenneth Branagh
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Drama; Mistério; Suspense
Duração: 114 minutos
Elenco: Kenneth Branagh, Johnny Depp, Michelle Pfeiffer, Josh Gad, Derek Jacobi, Penélope Cruz, Willem Dafoe, Daisy Ridley, Lucy Boynton, Sergei Polunin, Judi Dench, Olivia Colman, Leslie Odom Jr., Tom Bateman, Marwan Kenzari, Manuel Garcia-Rulfo

Retrospectiva | 2017

Neste primeiro post de 2018, é hora de rever o que consegui ler e assistir em 2017. Sem dúvida, foi um ano um pouco atribulado para mim, o que resultou em um número menor de leituras – pouco mais de 30 livros, sem contar as HQs – e também em um menor número de filmes/séries vistos ao longo dos últimos 12 meses. Isso se deveu não apenas a motivos particulares (várias cirurgias na família e períodos de corre-corre em visitas e hospitais), como também ao maior período que passei durante o ano estudando idiomas.

Diversidade

Um fato que me deixou bastante contente foi a diversidade de leituras que consegui realizar no último ano. Além de conseguir contemplar alguns títulos pendentes de 2016, foi muito bom voltar a ler gêneros aos quais há muito tempo eu não me dedicava, como o livro-reportagem, por exemplo. O ano de 2017 também foi momento de leituras de teores bem diferentes, como livros infantis, clássicos distópicos, releituras e também de várias revistas.

psicose_1373943361bSe comprovadamente eu li menos em 2017, posso me considerar muito feliz pela qualidade dos livros lidos. Nos últimos 12 meses, tive o privilégio de ler livros brilhantes, como Psicose (Robert Bloch), Fahrenheit 451 (Ray Bradbury), A vida imortal de Henrietta Lacks (Rebecca Skott), Quem matou Roland Barthes? (Laurent Binnet) e A revolução dos bichos (George Orwell).

No âmbito da literatura nacional, não posso deixar de destacar minha volta aos clássicos: em 2017, li um ótimo livro de crônicas de João do Rio, Histórias da gente alegre (pretendo fazer um post sobre João do Rio mais adiante); li o primeiro romance de Lima Barreto, Recordações do Escrivão Isaías Caminha; e também Diva, romance de José de Alencar.

Revistas e HQs

Foi muito bem-vinda a chegada da Revista Quatro Cinco Um, no mês de maio. Ao longo dos últimos meses, tenho acompanhado essa publicação, repleta de textos interessantíssimos para leitores inveterados. Também li vários especiais das Revistas Superinteressante e Mundo Estranho em 2017.

Não li tantas HQs quanto eu queria, mas posso destacar a graphic novel Corpos, da Vertigo, e o livro O fantasma de Anya, de Vera Brosgol.

Para fechar a parte das leituras, em 2017 também encontrei um tempinho para me dedicar mais aos estudos da Língua Portuguesa e também da Língua Inglesa, já que prestei o TOEIC no mês de agosto. Por isso, fiz algumas leituras originais em inglês (algo do que já estou me orgulhando) e li alguns livros teóricos de português.

Filmes, séries e documentários

Fui ao cinema algumas vezes em 2017 para acompanhar produções derivadas dos quadrinhos, como Mulher-Maravilha e Liga da Justiça – ambos comentados neste blog. Em setembro, ainda consegui assistir no cinema ao filme João, baseado na história do maestro João Carlos Martins – que belo filme!

0424359Também foi um ano em que consegui ver dois documentários que me interessaram bastante: Foucault contra si mesmo e Lygia, uma escritora brasileira. Recomendadíssimos!

Fiz alguns posts sobre séries aqui no blog ao longo deste ano. Tenho acompanhado as produções que a Netflix vem fazendo sobre o universo Marvel e destaquei também a primeira temporada da bela e sensível Tokyo diner, midnight stories e também da espirituosa The good place – ambas também comentadas aqui.

Para 2018, tenho vários planos, mas resolvi não fazer listas, nem estipular metas, pois ainda tenho títulos pendentes da lista que fiz para 2016! Portanto, para não sabotar meu próprio planejamento, irei aos poucos seguindo com os projetos de leitura que já estão em andamento (os quais continuaram em 2017, embora em ritmo mais lento) e, na medida do possível, acrescentarei novidades!

Feliz ano-novo!

 

 

Cinema | Liga da Justiça

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Este comentário chega com algumas semanas de atraso, mas eu não poderia perder a oportunidade de falar sobre essa iniciativa tão corajosa por parte da DC Comics. Sim, porque eu sou fã de quadrinhos da época em que o sonho geral eram os filmes com super-heróis, porém a realidade era dura e sabia-se que não havia recursos para tanto. Algumas décadas depois, o cenário mudou.

As exigências

Hoje, não apenas temos várias superproduções criadas a partir do universo das HQs em um mesmo ano (um luxo, comparado à realidade de anos atrás), como também criticamos duramente aspectos técnicos, efeitos especiais, enredos e por aí vai. No caso das produções cinematográficas da DC, noto um grau de intolerância até maior do que em relação aos filmes da Marvel, ainda que Quarteto Fantástico e Homem de Ferro 2 e 3, por exemplo, já sejam produções pífias o bastante (não nos mesmos aspectos, mas ambas igualmente chatas e cheias de arestas) para deixar qualquer fã com os dois pés atrás.

Em relação à Liga da Justiça, primeiro, acho importante ressaltar que unir em um mesmo filme seus maiores heróis é um desafio e tanto. As críticas já eram esperadas, e eu creio que todos aqueles que acompanham o assunto já tinham seus pontos a destacar. Contudo, expor, de uma só vez, Batman, Super-Homem e Mulher-Maravilha, incluindo nomes secundários no pacote já é, por si só, um marco no cinema de heróis.

Ben Affleck como Batman é um ponto que me incomoda desde Batman x Super-Homem (comentado aqui). Eu ainda estava sob os efeitos muito positivos de Christian Bale como homem-morcego na trilogia de Christopher Nolan e essa troca de atores não me pareceu nada boa. Entretanto, fiquei surpresa ao constatar que Affleck carregou muito bem a responsabilidade de interpretar o único herói sem poderes em Liga da Justiça. Não há dúvida de que Batman é o maior representante dos seres humanos em uma trama na qual todos os outros protagonistas são super-humanos. Por isso, seu papel, a meu ver, é o mais difícil de todos.

Quem é o herói?

De tudo o que a Liga da Justiça trouxe aos seus espectadores, para mim, o mais positivo foi a discussão sobre o conceito de herói. Em um grupo cujos membros personificam essa ideia das mais variadas maneiras, pensar sobre o que está em jogo para cada um deles me parece ser a questão mais interessante. Afinal, quem tem mais a perder em uma batalha que envolve um poderoso inimigo, criaturas alienígenas, amazonas e guerreiros marinhos?

O filme traz o Lobo da Estepe como um bom vilão (um ponto bem executado), um enredo dinâmico (para alguns até demais) e tenta lidar com suas fragilidades postergando ao máximo a entrada do Super-Homem na trama, pois é um fato que seu membro mais poderoso traz consigo as maiores exigências dentro e fora das telas, bem como é capaz de diminuir naturalmente a importância de seus companheiros.

Nota-se um claro envolvimento coletivo no incremento das questões técnicas do filme – para mim, foram grandes bobagens as polêmicas do bigode de Henry Cavill eliminado por computação gráfica e outras coisas desse gênero. Perder tempo com esse tipo de coisa significa que todo o restante de nada vale para consideração. Trilha sonora e edição são pontos mais bem cuidados do que em produções anteriores.

A meu ver, o saldo é positivo no fim de todas as contas. Mulher-Maravilha continua sendo um diferencial, maior figura feminina nesse universo; Aquaman fantástico esteticamente, promissor como protagonista de um filme solo já em produção; Ciborgue e Flash são contrapontos eficientes, embora me pareçam fora do eixo cronológico. A DC conseguiu dar um passo importante no estabelecimento de seu universo cinematográfico, a despeito de todos os problemas que a Liga da Justiça possa ter.

 Ficha técnica
Liga da Justiça
Direção: Zack Snyder
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação; Ficção Científica
Duração: 2 horas
Elenco: Ben Affleck, Henry Cavill, Gal Gadot, Ezra Miller, Jason Momoa, Ray Fischer, Amy Adams, Jeremy Irons, Diane Lane, Connie Nielsen, J.K.Simmons, Amber Heard, Ciarán Hinds

Leitura | A vida imortal de Henrietta Lacks

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Foi por causa de uma dica do precioso e, infelizmente extinto, Manual Prático de Bons Modos em Livrarias que eu incluí A vida imortal de Henrietta Lacks na minha lista de leituras. Fazia tempo que eu não me dedicava a um livro-reportagem, daqueles com bastante informação, muita checagem de dados, realmente muitas horas de entrevistas, e pensei que esse livro seria uma ótima oportunidade para começar a “pagar a minha dívida” com esse estilo literário. E não me enganei.

Sem sombra de dúvida, esse trabalho da jornalista especializada em ciência Rebecca Skloot foi uma das melhores leituras que já fiz. E não estou exagerando. É nítido o esforço empreendido pela autora para refazer os passos e reconstruir a história extraordinária de Henrietta Lacks, uma mulher pobre, negra, lavradora dos campos de tabaco dos Estados Unidos da década de 1950, cujas células revolucionaram o mundo científico de maneira avassaladora.

Estrutura

É prazeroso verificar o cuidado com o qual Rebecca organiza as informações em capítulos que não seguem ordem cronológica, mas que cumprem perfeitamente a sua função: indo e voltando no tempo, os escritos vão compondo as peças de um quebra-cabeça elaborado, sofisticado, com o qual o leitor vai compreendendo quão cruel e delicado é o assunto em torno do qual orbita a morte de Henrietta: o debate ético sobre a propriedade de tecidos e outras partes do corpo humano utilizadas em pesquisas.

Em 1951, Henrietta Lacks morreu vítima de um tumor cervical fulminante. Apenas alguns meses foram o suficiente para minar a saúde da jovem mulher, na época, com apenas 31 anos. Mãe de cinco filhos, Henrietta entrou para história de maneira involuntária, após ter suas células cancerosas retiradas de seu corpo para a realização de pesquisas no tradicional hospital norte-americano Johns Hopkins. Ao constatar que as células continuavam se reproduzindo em cultura, após a retirada do corpo de Henrietta, os cientistas perceberam que estavam diante de algo revolucionário: supercélulas cancerosas que não apenas continuam se reproduzindo até hoje, como também são capazes de dominar outras culturas celulares com as quais têm contato.

Pesquisa

Rebecca Skloot precisou de cerca de dez anos de pesquisas ininterruptas para reunir material e chegar ao texto final de seu livro. Uma equipe considerável de profissionais e de respeitadas instituições colaborou com o trabalho da jornalista, fornecendo informações, documentos e bolsas de incentivo para que Rebecca pudesse realizar o seu trabalho.

O processo de pesquisa não teria sido tão bem-sucedido, se não tivesse contado com a colaboração de Deborah, a quarta filha de Henrietta e a única das mulheres a sobreviver até a idade adulta. Deborah desempenhou o papel de representante dos irmãos Lacks na busca pela verdade sobre a morte de sua mãe. Os dilemas da mulher emocionalmente frágil e pouco instruída são contados de forma contundente pelo texto de Rebecca, e é inegável que a herdeira de Henrietta estabelece um contraponto direto à personalidade equilibrada da jornalista branca, filha de pais de classe média-alta.

A vida imortal de Henrietta Lacks é, mais do que um livro-reportagem, uma obra para consulta, repleta de informações para todo leitor interessado nos bastidores do universo da pesquisa médica. Rebecca Skloot contextualiza a história da mulher responsável pela linhagem celular conhecida como HeLa no tempo e no espaço, citando não apenas outros casos de apropriação de material humano para pesquisas médicas, como também enriquecendo o leitor com dados sobre biologia, estudos genéticos e o debate jurídico em torno do assunto.

No início de 2017, a história de Henrietta chegou às telas da HBO, em versão protagonizada por Oprah Winfrey no papel de Deborah Lacks e Rose Byrne interpretando Rebecca Skloot.

A vida imortal de Henrietta Lacks
Rebecca Skloot
Tradução de Ivo Korytowski
Companhia das Letras
454 páginas

Série | The Good Place

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Preciso fazer um rápido comentário sobre a primeira temporada dessa série produzida originalmente pela Netflix e exibida pela emissora norte-americana NBC.

Trama surpreendente, episódios breves, pitadas de humor inteligente e situações criativas, protagonizadas por personagens bem construídos. Essa é a fórmula bem-sucedida de The Good Place, cujo enredo gira em torno de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell, de Veronica Mars), uma “fraude”, um “erro de cálculo” na classificação das almas boas que, após a morte, são levadas a habitar o lugar bom, uma versão do paraíso montada pelo “arquiteto” Michael (o ótimo Ted Danson, da franquia Três Solteirões e um Bebê).

Personagens 

As aventuras de Eleanor são compartilhadas por sua “alma gêmea”, Chidi Anagonye (William Jackson Harper), o que torna tudo muito interessante, porque, se Eleanor foi, em vida, a espertinha sem muitas noções de honestidade, seu contraponto é uma alma gêmea que, em vida, era um professor de filosofia moral. O contraste entre ambos é um dos maiores acertos da série, com Chidi e sua importante missão de tentar “recuperar moralmente” a alma de Eleanor.

O núcleo de protagonistas é ainda integrado pela ex-filantropa Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil) e o monge Jianyiu (Manny Jacinto), outro inusitado casal de almas gêmeas. Ou seja, Eleanor é a estranha no ninho. O ápice dessa diferença se dá com a descoberta de uma outra Eleanor, exemplo de boa conduta em vida, mas que, depois de morta, foi levada por engano ao “lugar ruim”. Uma troca infeliz, que, aparentemente, custaria um alto preço para os dois lados.

O roteiro muito bem elaborado e cheio de referências (sem dúvida, Chidi bancando o Cyrano de Bergerac com Tahani é um dos momentos mais bacanas da série) consegue estabelecer uma trama mais promissora a cada episódio, culminando com um final de temporada digno de uma série já consolidada por público e crítica. Fiquei com uma ótima impressão de The Good Place e bastante curiosa para ver como a equipe da série pretende manter o ótimo nível desta primeira temporada.

The Good Place – Primeira temporada
Criação: Michael Schur
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração: 13 episódios (cada um com média de 22 minutos de duração)

Maigret | A noite na encruzilhada

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O fim da leitura de mais essa história protagonizada pelo comissário da polícia judiciária francesa Jules Maigret me trouxe a inevitável lembrança de Assassinato no Expresso do Oriente, uma das aventuras mais famosas de Hercule Poirot, detetive criado por Agatha Christie na década de 1920. Isso porque há um traço em comum muito forte entre as estruturas dos dois enredos. Não quero dar spoilers aqui, mas a dinâmica e o ritmo intenso também são pontos de semelhança entre os livros.

Novidade

Em A noite na encruzilhada, notei algumas passagens mais poéticas na linguagem empregada pelo belga George Simenon para contar a morte de um vendedor de diamantes de conduta duvidosa. Talvez isso tenha me chamado mais a atenção nessa leitura pelo fato de, nessa ocasião, Maigret defrontar-se com uma sensual e enigmática figura feminina: Else, irmã de Carl Andersen, o principal suspeito do crime. É muito curioso observar de que maneira Maigret, um sujeito introspectivo e grosseiro, comporta-se em relação a essa forte figura feminina.

A leitura reserva ao leitor uma porção de surpresas e reviravoltas na história, algo perfeitamente esperado de um livro policial, entretanto, é interessante como, a partir de determinado ponto da leitura, começa a ser mais importante entender a “mecânica” do crime em si, e não apenas desvendar a identidade do assassino. Simenon consegue, com essa história, causar no leitor uma impressão semelhante à que Agatha Christie conseguiu com Assassinato no Expresso do Oriente, por isso a minha observação no começo desse texto. Ambos os autores conseguem mudar os holofotes para o percurso do crime, tornando-o mais importante do que o seu fim.

Na TV

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Novamente, tive a oportunidade de ver a adaptação dessa história em um episódio da série produzida pela ITV, tendo como protagonista Rowan Atkinson no papel de Maigret.

Deixando de lado o choque que sempre me acomete, ao me deparar com a gentileza de Atkinson em contraponto à rudeza do Maigret das páginas de Simenon, é facilmente perceptível que, contrariamente ao que ocorreu com a adaptação de Maigret e seu Morto (comentada aqui), desta vez os roteiristas mudaram completamente a história original, criando uma nova versão da trama.

Apesar de valorizar o interesse que uma adaptação para a TV pode gerar em relação ao livro, creio que o fato de Atkinson dar vida a um Maigret em muitos aspectos diferentes do original e também de os roteiristas não serem nada fiéis ao enredo elaborado por Simenon, cria-se um distanciamento que compromete a identidade do Maigret dos livros, talvez diminuindo o desafio de retratá-lo em tela.

A noite na encruzilhada
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 136 páginas

A noite na encruzilhada (Segundo episódio da série ITV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2017 – 1h28min

Discworld | Pirâmides (1989)

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Algo diferente aconteceu no processo de leitura desse volume de Discworld: interrompi o livro duas vezes. Isso foi inédito, porque, até então, Terry Pratchett vinha emplacando uma boa continuação atrás da outra, mas preciso dizer que “Pirâmides”, o sexto volume da sequência direta da série, não conseguiu o mesmo efeito. Pelo menos não a princípio.

Desenvolvimento

Neste livro, o autor começa uma nova trama do zero, com personagens totalmente novos para o leitor, o que é sempre um risco em time que está ganhando. Sem personagens-chave, como Rincewind, Duas-Flor, Morte, ou Vovó Cera do Tempo (grandes acertos de Pratchett até aqui), ficou nas costas do jovem Teppic, herdeiro de um pequeno e inexpressivo reino notado apenas por suas pirâmides, sustentar uma trama que poderia ser mais curta (o ritmo da história foi um problema).

Pirâmides, como o título já indica, trata da mitologia no Disco fazendo, é claro, uma referência direta ao nosso Egito. A ideia é interessante, mas demora para engrenar – tudo começa a ficar mais interessante depois da página 100, quando a proposta do autor passa a se mostrar brilhante, estabelecendo um elaborado jogo espaço-temporal.

Pratchett usa esse volume da série para fazer “um ponto fora da curva”, digamos assim. Se a trama apresenta problemas de ritmo, eles são compensados com uma boa construção literária (algumas piadas não funcionam, e há momentos em que os trocadilhos caem na artificialidade, mas ainda assim o saldo é positivo.

Crítica

A constituição do enredo diverge dos volumes precedentes da série, mas é por isso mesmo que arrisco dizer: em termos de estrutura, este livro supera os anteriores. Quando o leitor se dá conta do sentido maior, obtido quando cada detalhe se junta, formando a trama completa, Pirâmides revela-se uma grande crítica e, ao mesmo tempo, uma grande brincadeira envolvendo o ato da criação, a disputa pelo poder e a religião como grande instrumento manipulador. Ou seja, são muitos os acertos que tornam a leitura compensadora.

Não sei se Teppic voltará a aparecer em outros volumes da saga, mas, se o fizer, será bem-vindo.

Pirâmides
Terry Pratchett
Tradução de Ludimila Hashimoto
Conrad Editora
298 páginas