Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (IV)

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Paralelamente à leitura do texto original de Emily Brontë e da tradução de Rachel de Queiroz, eu pesquisei e encontrei referências interessantes, que me ajudaram a contextualizar melhor a obra na história da literatura, seu lugar entre os maiores romances já escritos, e por aí vai. Então, neste post, vou indicar algumas fontes que considerei bastante válidas a título de complemento à leitura de O Morro dos Ventos Uivantes.

– “A tarefa do tradutor” (Walter Benjamin): esse texto é clássico para os estudos de tradução literária. Não se trata de algo muito longo e é importante sobretudo por debater questões sobre conteúdo e língua num paralelo entre original e tradução. Benjamin fala de “restituição de sentido”, “simbolizante” e “simbolizado” e deixa uma conclusão que dá a ideia de quão dura é a proposição do título desse texto:

“A tarefa do tradutor consiste em redimir na sua própria língua esta língua pura que está desterrada em terra alheia, descativá-la da obra em que está presa, dando-lhe forma poética.”

– “Jane Eyre e O Morro dos Ventos Uivantes” (Virginia Woolf): não li ainda Jane Eyre, mas o texto de Virginia Woolf, que tem uma importante produção relacionada à crítica literária, foi muito útil na análise sobre a obra de Emily Brontë.

“É como se Emily fosse capaz de estraçalhar tudo o que sabemos sobre os seres humanos e preencher essas transparências irreconhecíveis com tal rompante de vida que eles transcendem a realidade. Seu poder portanto é o mais raro de todos.” (O valor do riso e outros ensaios, p. 163)

– “A tradução literária no Brasil” (José Paulo Paes): um ensaio cuja leitura foi bem importante para o meu estudo porque contextualiza a atividade da tradução no mercado editorial brasileiro. O autor oferece vários detalhes interessantes, inclusive sobre nossos grandes autores que trabalharam como tradutores. Ele cita Rachel de Queiroz nesse grupo, mas não faz comentários específicos sobre ela. Já sobre Monteiro Lobato, ele diz o seguinte:

“A rapidez com que era compelido a trabalhar – e essa parece ser a sina de quantos tenham de traduzir profissionalmente para viver – não permitia a Lobato burilar as suas versões, que, se nem sempre modelares, são sempre fluentes, agradáveis de ler.” (Armazém literário – ensaios, p. 175)

– “As traduções de Rachel de Queiroz na década de 40 do século XX” (Priscilla Pellegrino de Oliveira): esta é uma monografia produzida para a Faculdade de Letras da Universidade de Juiz de Fora. O título é autoexplicativo e, apesar de não mencionar nada específico sobre a tradução da obra de Emily Brontë, é interessante observar que Priscilla faz algumas comparações, inclusive em relação à atividade tradutora de Rachel de Queiroz e a de Monteiro Lobato.

“A presença da língua do original na língua da tradução caracteriza um procedimento estrangeirizante. Isso significa que ela atuou de maneira diferente à de Monteiro Lobato, por exemplo, o qual adaptava os textos que traduzia à realidade nacional brasileira se comportando como um tradutor domesticante. O uso de tais termos pela autora prova sua contribuição para a mudança de língua de cultura no momento histórico em questão, acrescentando expressões do idioma no cotidiano do brasileiro.” (p.72)

– “A tradução do socioleto literário: Um estudo de Wuthering Heights” (Solange Peixe Pinheiro de Carvalho): essa dissertação de mestrado foi produzida para a Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo e está repleta de informações valiosas para quem quer entender melhor o processo de tradução empreendido por Rachel de Queiroz. A autora também faz paralelos com traduções de O Morro dos Ventos Uivantes para outros idiomas, estabelecendo comparações válidas. Eu havia comentado, no post anterior deste projeto sobre o fato de Rachel de Queiroz ter optado por não conservar os traços linguísticos do dialeto falado por Joseph. A esse respeito, Solange observa que as formas dialetais foram adequadas para o padrão em praticamente todos os idiomas traduzidos, à exceção do francês, país que conta com variantes do francês-padrão, o que pode justificar a inclusão de marcadores para mostrar ao leitor que o personagem, em relação aos demais, não falava a língua culta (p. 205).

Essas foram algumas das referências consultadas por mim durante o percurso de leitura da obra de Emily Brontë. No próximo e último post deste diário de leitura, vou registrar algumas das principais impressões que essa experiência me ensinou.

 

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Leitura | Ivanhoé

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Sem dúvida uma das maiores referências quando o assunto são as novelas de cavalaria, Ivanhoé, do inglês Walter Scott, não deixa de ser uma leitura obrigatória para os admiradores do assunto. E eu, depois de ler Os Três Mosqueteiros e Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda – temáticas de homens de armas –, resolvi tirar o pesado volume de Scott da minha estante, onde ele já estava há muitos anos esperando a vez da leitura.

Protagonista

O que mais me incomodou durante a leitura foi a pouca participação do protagonista na trama. Na realidade, o romance demora a “engrenar”, e a leitura das primeiras 30 páginas é uma prova de perseverança ante o ritmo lento e os diálogos excessivamente enfeitados (é preciso, no entanto, perceber que essa era uma marca da época). O cavaleiro Wilfried de Ivanhoé, personagem que dá nome ao livro, aparece pela primeira vez de forma anônima depois dessas primeiras páginas. Sua participação no torneio de armas dá novo fôlego ao livro, porém, sua ausência durante mais de cem outras páginas até o seu reaparecimento em convalescença, a meu ver, comprometem demais o andamento da história.

Originalmente, é preciso, no entanto, considerar que o livro foi publicado em forma de folhetim. A partir dessa informação, penso que “por questões relacionadas às vendas”, o autor tenha procurado ao máximo segurar as ações associadas especificamente a Ivanhoé na história.

Dito isso, vale lembrar que, se o cavaleiro templário de intenções duvidosas Brian de Bois-Guilbert personifica bem a figura de um vilão, faz falta o contraponto do herói que fica durante tanto tempo ausente do enredo. Fica um vazio que deixa o leitor um tanto “órfão” de acompanhar a evolução da personalidade de Ivanhoé no desenvolvimento da história e também de admirá-lo em combate, ou até mesmo de ter a chance de observar de que recursos o personagem dispõe para alcançar seus objetivos. Esses longos períodos de ausência me passaram a impressão de que o protagonista enquanto personagem era limitado, não tendo condições de sustentar um romance de quase 500 páginas. Ivanhoé é ofuscado, em vários momentos, por Robin de Locksley (sim, o famoso Robin Hood), pelo próprio Ricardo Coração de Leão e até mesmo por Wamba, o espirituoso bobo da corte.

Desenvolvimento

Os motivos que já expus seriam, por si, suficientes para justificar o que, a meu ver, é uma falha do desenrolar da história. Por outro lado, durante a leitura, cheguei a cogitar que Walter Scott teve certa “preguiça” ao tomar determinadas decisões, furtando-se, por exemplo, de narrar propriamente o reencontro de Ivanhoé com sua amada Rowena, ou construindo de forma bastante simplista a reconciliação do protagonista com seu pai, que o havia deserdado após o filho tomar a decisão de seguir com o rei Ricardo Coração de Leão para a Palestina, a fim de lutar nas Cruzadas. Se, por um lado, o autor é bastante hábil para oferecer várias explicações históricas sobre a rivalidade entre normandos e saxões e também sobre a maneira cruel como ambos os povos tratavam os judeus naquele tempo; por outro, ele fracassa claramente, ao não trabalhar com mais empenho na elaboração de passagens cruciais para a consolidação do personagem.

Não há dúvida de que o livro é uma leitura prazerosa, se relevarmos esses pontos, porém, não posso deixar de observar que o autor também conseguiu frustrar o fim da história, ao simplesmente contar de forma apressada sobre o casamento de Ivanhoé com Rowena – desculpem o spoiler – e chega ao ápice da decepção ao insinuar que, apesar de casado com a bela saxã, o protagonista não deixava de pensar na bela judia Rebecca, pela qual lutou a batalha final contra Bois-Guilbert (a prévia da luta foi muito melhor do que a luta em si, diga-se de passagem). Trapalhadas à parte, Ivanhoé é uma obra que agradará aos leitores fãs das tradicionais histórias de cavalaria que não estejam esperando um enredo bem amarrado e com personagens complexos.

Ivanhoé
Walter Scott
Tradução de Roberto Nunes Whitaker
Nova Cultural
2003
478 páginas

HQ | Os Flintstones

– Posso perguntar uma coisa?
– Claro.
– Por que você usa uma gravata?
– Eu li um artigo que dizia que você deveria se vestir para o cargo que deseja, não o que tem.
– E faz quanto tempo que você usa essa gravata?
– Quinze anos.

Preciso admitir que comecei a leitura d’Os Flintstones em versão reinventada pela DC Comics sem nenhuma pretensão. Entretanto, foi uma grata surpresa acompanhar, ao longo de apenas dois números (tinha potencial para muito mais), uma HQ rica em argumento, criatividade e com belos traços.

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A leitura é simplesmente uma delícia. Envolvente, cativante e, acima de tudo, muito bem amarrada. O roteirista Mark Russell foi extremamente feliz ao usar uma linguagem irreverente para tratar de temas bastante delicados, como o racismo, o consumismo, a violência e as questões de gênero (só para listar alguns exemplos) a partir do universo dos casais Flintstone e Rubble. Para tudo há uma explicação coerente, que estabelece o tempo todo paralelos com a vida pós-moderna de hoje. As referências filosóficas, artísticas, religiosas, entre outras, estão espalhadas generosamente pelas páginas dos dois volumes da história.

Significados

– A morte, assim como a vida, encontra significado nas nossas conexões uns com os outros. O luto é suportável apenas porque pode ser partilhado.

A equipe criativa dessa HQ não poupa esforços para fugir do discurso vazio da sociedade atual, explicando de forma simples e inteligente como a humanidade chegou ao status de hoje. Assim, as guerras, a instituição do casamento, a homossexualidade, a arte e a religião são pontos cuidadosamente tratados em suas origens na “Idade da Pedra”, refletindo de maneira contundente na vida de hoje.

– Como artistas, usamos ferramentas limitadas para nos conectar com um universo apático. Portanto, nossa arte é imperfeita, nunca realmente chegando no que queríamos expressar. Sofremos com as nossas limitações e com a zombaria daqueles que não entendem. Mas, por mais imperfeito que seja, devemos defender nosso trabalho, porque nossa arte é a parte de nós que não pode ser expressa de qualquer outra forma.

Fazia tempo que eu não lia uma HQ que mexesse tanto comigo. E esse é um caso típico de leitura e depois horas e horas de reflexão. Que maravilha. Recomendo.

Os Flintstones
Roteiro: Mark Russell
Arte: Steve Pugh, Rick Leonardi & Scott Hanna
Tradução: Eric Novello & Mariana Naime
DC Comics / Panini Books
2 volumes
2017/2018

Projeto Hitchcock | Um barco e nove destinos (1944)

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Um enredo promissor, impressionante até, porém desenvolvido de forma bastante equilibrada, graças à sutileza do “estilo Hitchcock” de filmar. Esta poderia ser uma análise sintética de Um barco e nove destinos, produção ambientada na Segunda Guerra Mundial e diretamente influenciada por questões políticas da época.

Enredo

Um submarino das forças nazistas alemãs afunda um navio inglês e deixa à deriva oito pessoas em um bote salva-vidas. Os perfis são os mais variados, entre os quais se destacam uma jornalista sarcástica (brilhantemente interpretada por Tallulah Bankhead, num misto de Bette Davis e Marlene Dietrich); uma mãe (Heather Angel) com seu bebê de colo; um homem que esconde sua origem judia e está com a perna gravemente ferida (William Bendix); e um negro movido por sua fé, cujo passado esconde experiências como ladrão (Canadá Lee). Para apimentar o grupo, o nono passageiro do barco é justamente o capitão alemão do também naufragado submarino nazista (uma interpretação notável de Walter Slezak).

Ética e humanidade

Os dilemas éticos decorrentes da inusitada situação são fortes o suficiente para permitir que mestre Hitch consiga conduzir toda a ação do filme preto e branco em apenas um cenário – no caso em questão, o barco (algo que pode ter funcionado como um “ensaio” para que ele dirigisse com maestria Festim Diabólico (1948), uma de suas mais badaladas produções), e permitem que o espectador conclua com facilidade que, privados de suas necessidades básicas, seres humanos nada mais são do que animais irracionais.

Se, a princípio, as tomadas furtivas em detalhes, como a da bota da perna amputada do personagem Gus – perdoem o spoiler -, aliás, um dos momentos angustiantes do filme, no qual nenhuma imagem da cirurgia improvisada é dividida com o público (porém as reações de alguns tripulantes do barco transmitem ao espectador o horror do momento), funcionam como um recurso a mais na sofisticada técnica do filme, é à medida que o tempo vai passando que a carga psicológica começa a cumprir a sua parte, carregando a trama de incertezas e medo.

Um barco e nove destinos entra, em minha opinião, na seleta lista dos melhores trabalhos de Hitchcock (apesar de não ser uma produção badalada), justamente por conseguir produzir efeitos muito reflexivos em seu público – sua trama é rica em questões fundamentais sobre os limites da humanidade, impulsionada pelos fatos ocasionados pela Segunda Guerra (a ascensão dos nazistas, a divisão entre Eixo e Aliados). Nesse contexto, a morte, ao contrário do que ocorre em vários outros filmes da produção de Hitchcock, adquire abrangência muito maior; a sobrevivência aparece, nesse filme, atrelada a posições políticas e sociais (há um assassinato no barco claramente executado com base nisso – mais um spoiler, desculpem). Isso pode até parecer panfletário e assustador, mas é profundamente interessante analisar como isso é retratado na visão do renomado diretor.

Sutileza

Esse filme teria tudo para ser muito mais pesado do que é de fato. Isso talvez se deva aos diálogos bastante espirituosos (alguns até engraçados) trocados entre os tripulantes do barco e também à técnica de Hitchcock, espetacular na arte de sugerir sensações e conclusões, ao invés de mostrar tudo diretamente. O poder que isso tem é inigualável, ainda mais nos dias de hoje, quando a arte adquiriu status de obviedade constante, e tudo precisa ser minuciosamente explicado para o entendimento do público.

Um barco e nove destinos
1944
Produção: Edward Black Roteiro: Jo Swerling, Ben Hecht, Alfred Hitchcock, baseados em história original de John Steinbeck
97 minutos
EUA

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

 

Leitura | A camareira

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Uma leitura rápida, com pegada psicológica bem forte e bastante intrigante. Achei que seria interessante ler algo contemporâneo e, como pouco conheço da literatura alemã, A camareira veio bem a calhar.

Mergulhei na leitura sem saber o que esperar. De repente, eu me dei conta de que, mais do que tentar adivinhar qual seria o destino da protagonista Lynn Zapatek em seu trabalho como camareira em um hotel de luxo, muito mais delicado era lidar com os conflitos mentais da personagem. Lynn é complexa, solitária, uma mulher que, depois de um mês em uma clínica para tratar um distúrbio que, pressupõe-se a partir de um comentário de sua mãe, tem a ver com uma mania patológica de roubar objetos, busca uma forma de se encaixar no mundo. Ou melhor, esta deveria ser a ideia: buscar uma forma de se encaixar no mundo. Entretanto, Lynn apenas começa a viver mecanicamente, entregando-se de corpo e alma às suas funções de limpeza e arrumação, sem, dessa forma, dedicar tempo nem energia a refletir sobre a nova fase de sua vida pós-clínica.

Sem simplismo

Há uma questão de comunicação – ou da falta dela – fundamental na narrativa de Markus Orths. E isso faz toda a diferença porque transforma A camareira em um livro nada óbvio, que consegue conjugar um fluxo de leitura muito fluido com um processo de reflexão pesado. Não há como ler a história de Lynn sem se sensibilizar ou se imaginar, em algum momento, tentando ajudá-la a falar de seus problemas com sua mãe, por exemplo. O livro passa uma sensação muito legítima de angústia e isso é definitivamente, um ponto positivo, fruto do talento do autor.

A curta narrativa de Orths mostra a trajetória de Lynn, que, ao tentar superar o vazio de sua existência, passa a viver as migalhas das vidas dos hóspedes os quais ela escolhe semanalmente para, escondida embaixo de suas camas nos quartos do hotel onde trabalha, observar atentamente, ouvir, deduzir o que se passa durante sua hospedagem. Assim ela se esquece de quem é, mesmo que temporariamente.

O autor não se preocupa em fechar a história em torno de uma solução para o drama de Lynn. E é até bom que não faça isso, porque, no decorrer das páginas, é fácil perceber que os problemas da protagonista não podem ser resolvidos de um momento para outro – ou ainda: será que podem ser resolvidos? Contudo, o fim é sugestivo, é, de certa forma, coerente com o percurso da protagonista, e, o mais importante em minha opinião: deixa bastante claro que somente um retorno às origens pode ser a porta que é necessário transpor para entender e administrar os conflitos da camareira.

A camareira
Markus Orths
Tradução de Mário Luiz Frungillo
L&PM Editores
2010
136 páginas

Leitura | Melodia mortal

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Uma nota rápida sobre esse livro leve e, ao mesmo tempo, muito instrutivo.

Há muito eu não lia nada escrito por Pedro Bandeira, um dos autores favoritos da minha adolescência, o qual tive a honra de conhecer em uma das edições da Bienal do Livro. Quando soube que, em parceria com Guido Carlos Levi, ele havia posto em prática um projeto envolvendo Sherlock Holmes, não hesitei em incluir esse título em minha lista de leitura.

Vários meses depois do lançamento do badalado Melodia mortal, pus as mãos em um exemplar e, muito curiosa, fiz a leitura rapidamente. Não apenas pelo fato de ser fã de literatura policial, como também de música clássica – o mote do livro composto por contos que abordam investigações de Holmes e Watson a respeito das mortes de gênios como Beethoven, Mozart, Chopin, Tchaikovsky, Schumann e Bellini.

Como o próprio Pedro Bandeira ressalta na orelha do livro, o ponto forte de Melodia mortal é o seu aspecto de almanaque, os fatos verídicos aproveitados para criar a ficção envolvendo Sherlock Holmes, e a questão da independência entre os contos – as aventuras têm fim em si mesmas, o que viabiliza tanto uma leitura “em doses homeopáticas” como a empreitada de um só fôlego.

Algo de que gostei muito foi a sensação que o livro deixou em mim de fazer pesquisas por conta própria a partir da leitura. Busquei na minha estante os CDs dos gênios para ouvir determinadas peças, fui atrás de revistas sobre o assunto que eu lembrava que tinha e, com isso, tive a oportunidade de complementar o conhecimento que Melodia mortal me trouxe. Eu nada sabia sobre Vincenzo Bellini, por exemplo, e valorizo muito quando um livro me instiga a buscar saber mais sobre determinado assunto.

Para finalizar, o uso que Bandeira e Levi fizeram de Sherlock Holmes e John Watson foi um grande incentivo não apenas para mim, mas, penso, para muitos outros leitores embarcarem nessa investigação a respeito de gênios de uma das formas artísticas mais eruditas que temos. Foi um plano feliz, bem amarrado, já que Holmes é um violinista e aproveita para tocar sempre que está pensando sobre suas investigações. Foi também uma chance muito bacana de matar a saudade do texto fluido de Pedro Bandeira.

Melodia Mortal – Sherlock Holmes investiga as mortes de gênios da música
Pedro Bandeira & Guido Carlos Levi
Fábrica 231
2017 – 1ª edição
240 páginas

 

Série | La Casa de Papel

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Acho que a fórmula de La Casa de Papel funcionou comigo porque não exigi demais da proposta. Pelo contrário, eu me propus a “entrar” na ideia do enredo e não fiquei tentando traçar paralelos com as séries blockbusters norte-americanas. Deu certo.

Início

O começo, o primeiro episódio, mais especificamente, não me empolgou. Entretanto, a partir do segundo, a dinâmica estratégica de criação de ganchos e o carisma de alguns personagens cativam o espectador, guiando-o ao longo de toda uma primeira parte cujo mote é o assalto à Casa da Moeda da Espanha por um grupo de ladrões que se identificam por nomes de cidades, é altamente armado e bastante organizado. Vestem macacões vermelhos e usam máscaras de Salvador Dalí. Tudo muito engenhoso. A questão é: uma vez dentro da Casa da Moeda, como eles farão para escapar?

Demora um pouco para entender a complexidade do plano do Professor (Álvaro Morte), o cérebro da equipe. Contudo, uma vez desvendado o mistério, o maior mérito da série é o bem-sucedido efeito da síndrome de Estocolmo, ou seja, o processo de identificação e afinidade que o espectador passa a desenvolver em relação aos sequestradores, torcendo para que a inspetora de polícia Raquel Murillo (interpretada por Itziar Ituño) não descubra as falhas, as pontas soltas do plano, e não cumpra com competência o seu papel de policial. O jogo de gato e rato que ela disputa com o Professor é bastante divertido não tanto pelo sangue frio dele, mas principalmente pela falta de percepção dela.

À primeira parte sucede-se uma segunda, cujo ritmo mantém a intensidade dos primeiros episódios e garante um turbilhão de emoções sustentado por uma frágil teia de acontecimentos. Se eu tivesse de definir a série em uma palavra, seria esta: absurdo. A título de entretenimento, volto a dizer, é um absurdo muito bem-vindo.

Barracos

Há vários problemas na série, principalmente na construção de diálogos fracos, fato que só é contornado por algumas belas interpretações – a escolha do elenco é o ponto forte da produção. Paco Tous (Moscou), Alba Flores (Nairóbi) e Pedro Alonso (Berlim) deixam isso bem claro. É uma pena que La Casa de Papel perca força por uma sucessão de situações absurdas – por exemplo, policiais que discutem detalhes de suas vidas particulares na presença da equipe e durante a negociação com os sequestradores. Contudo, se os barracos evidenciam falhas na costura do enredo, pelo menos eles garantem boas risadas ao espectador. Como eu disse no início deste pequeno comentário, La Casa de Papel tem os seus méritos, desde que não seja levada a sério.

La Casa de Papel
Criação: Álex Pina
Ano: 2017
País: Espanha
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração: 13 episódios na Parte 1 e 9 episódios na Parte 2 (cada um com 50 minutos em média)

 

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (III)

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Neste ponto dos registros, paro para comentar um pouco sobre a obra-prima de Emily Brontë e seu contexto.

Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) talvez seja a maior das criações das irmãs Brontë: Charlotte, Emily e Anne, todas elas escritoras de talento. Emily, no entanto, viveu muito pouco (apenas 30 anos) e produziu apenas esse romance.

Várias vezes adaptado para a televisão e para o cinema, O Morro dos Ventos Uivantes é um livro de grandes proporções, uma história que se estende ao longo de gerações e que surpreende pela amplitude de seu enredo. Não se trata apenas de um amor que põe à prova condições sociais, mas que transcende, ao apresentar desdobramentos que, de forma sombria, envolvem questões familiares, questões humanas.

Na edição original que estou lendo, há um prefácio escrito por Charlotte, a mais velha das irmãs Brontë e também aquela que mais viveu, fato que lhe conferiu decisões não apenas sobre sua produção literária (permissão de edições e reedições, por exemplo), como também sobre as obras deixadas por suas irmãs.

Emily foi a primeira das três a falecer, e Charlotte registra, em sua nota biográfica, que sua irmã do meio era melancólica, introspectiva e tímida. Ela conta que, apesar de muito talentosa, Emily gostava da reclusão e era preciso muito esforço para que ela permitisse o acesso a algum texto seu – de acordo com a primogênita, a autora de O Morro dos Ventos Uivantes foi também uma habilidosa poetisa.

“My sister Emily was not a person of demonstrative character, nor one, on the recesses of whose mind and feelings, even those nearest and dearest to her could, with impunity, intrude unlicensed…”

Ainda assim, ela foi capaz de produzir um dos romances mais notáveis da história da literatura inglesa, com personagens fortes e um inesquecível casal protagonista: Catherine e Heathcliff. Se ambos são o núcleo de uma conturbada relação amorosa, até o momento, minha atenção de leitora não se voltou fundamentalmente para eles. É Nelly, a empregada da família Earnshaw e também a narradora da história, a personagem que vem se destacando em minha leitura.

Fio condutor

Nelly (na verdade, Ellen Dean) é o fio condutor que Emily Brontë construiu com maestria para guiar o leitor ao longo das páginas de O Morro dos Ventos Uivantes. Alguns textos de apoio, inclusive, afirmam ter sido a inspiração para Nelly a criada de Emily, uma fiel serviçal de nome Tabhyta.

O fato é que Nelly é a base para a narrativa bem-sucedida do romance. Ela é a memória das duas famílias (mais Earnshaw do que Linton), além de saber exatamente o lugar de Heathcliff na genealogia dessas duas casas. A empregada conta a história ao inquilino de Heathcliff, Mr. Lockwood, voltando décadas para remexer o passado cheio de amor e de ódio dessas duas famílias. É Nelly quem garante a coerência da história, que, à primeira vista, pode confundir o leitor, o qual se depara com “duas Catherines” e é obrigado a entender de que forma elas influenciam Heathcliff e os Linton – por isso é interessante ter à mão a árvore genealógica dos personagens para consulta.

A tradução de Rachel de Queiroz

Tenho encontrado farto material para complementar minha leitura do texto original e daquele traduzido de O Morro dos Ventos Uivantes. Vou reservar a próxima parte destes registros aqui no blog para começar a comentar essa bibliografia que estou usando como apoio para entender a obra original e também o trabalho desenvolvido por Rachel de Queiroz durante a década de 1940. São artigos científicos, teses e monografias os quais apresentam informações preciosas para minha compreensão desse processo.

Como “aperitivo”, deixo aqui o primeiro ponto que chamou minha atenção na tradução de Rachel: nossa grande autora optou por não manter a natureza do “dialeto” falado por Joseph, empregado de Heathcliff, cujas falas no texto original de Emily Brontë são um verdadeiro desafio ao entendimento do leitor. Cheguei a copiar várias delas em meu caderno de inglês e tentei transcrevê-las para melhor entender o sentido. Meu primeiro enigma, portanto, veio do fato de Rachel de Queiroz ter deixado de lado essa particularidade de Joseph e traduzido suas falas como as dos outros personagens. Por quê?

Muitas questões ainda alimentam esse percurso de leitura. Vou organizar minhas anotações para continuar a pontuá-las aqui no blog.

HQ | Homem-Formiga: Mundo Pequeno

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Foi por causa do filme do Homem-Formiga, estrelado por Paul Rudd, lançado pela Marvel em 2015, que eu resolvi ler algo desse personagem, o qual sempre tinha ouvido falar, mas quase nada conhecia.

No início de 2016, encontrei, no site da Livraria Cultura, esse volume intitulado Mundo Pequeno e resolvi arriscar. Como não tenho um método quanto às minhas leituras, somente no início deste ano fui tirá-lo da estante – e sem muitas expectativas, diga-se de passagem.

Introdução

Esse volume editado pela Panini é bastante esclarecedor para quem nada sabe sobre o personagem, então vi que fiz uma boa compra no fim das contas. Ele é composto por quatro histórias, sendo que uma delas mostra exatamente a origem do Homem-Formiga, escrita por Stan Lee & Larry Lieber e publicada em 1962, seguida por “O retorno do Homem-Formiga”, também de 1962.

Essas primeiras histórias são fundamentais para o leitor compreender não apenas a dinâmica das HQs da época (de ritmo e composição bastante diferenciadas em relação a hoje), como também para situar o papel do Homem-Formiga no Universo Marvel.

Contudo, as histórias que me agradaram bastante foram “A criatura de Kosmos!” e “Estreia conturbada!”, ambas magistralmente desenhadas pelo mestre John Byrne – isso me trouxe memórias afetivas muito boas de uma das melhores fases dos X-Men, justamente ilustrada por Byrne. Eu diria que o ponto alto dessas HQs é a transição do cientista Hank Pym para o Homem-Formiga.

É bem interessante observar como, nessas primeiras histórias, é bem explorado o dilema do herói x o homem comum (algo que perdeu bastante da magia nas HQs atualmente) e como há um “clima retrô” em relação à atmosfera das histórias, facilmente observado pelas roupas e pelos costumes dos personagens.

Mundo Pequeno

Já a história que dá título a essa coletânea, em minha opinião, é a mais fraca da compilação. O traço de Tim Seeley é bastante agradável, porém o enredo é afetado demais. Perde muito em relação às outras histórias, por tratar o Homem-Formiga (agora Scott Lang e tendo Hank Pym como Vespa, traje originalmente vestido por sua falecida esposa Janet) como um herói que, mesmo vivendo um conflito interno em relação às suas questões éticas, está totalmente perdido na vida. Vespa (Hank Pym, o Homem-Formiga original) está entregue à sua tecnologia e agora é um homem mais impessoal do que nunca em relação àquele herói das primeiras histórias. Notei certo esvaziamento do personagem em sua versão mais atual, esvaziamento este que não é compensado pela bela arte de Seeley.

Homem-Formiga: Mundo Pequeno
Tim Seeley, Stan Lee, Larry Lieber, David Michelinie (roteiros); Tim Seeley, Jack Kirby, H.E. Huntley, John Byrne & Bob Layton (arte)
Mario Luiz C. Barroso e Rodrigo Barros (tradução)
Marvel / Panini
146 páginas

Leitura | As memórias do livro

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Tirei esse livro da estante em um momento curioso. Primeiro, porque eu o encontrei enquanto procurava O estrangeiro, de Albert Camus – um livro que, diga-se de passagem, precisei revirar minha estante três vezes para encontrar semanas depois. Segundo, porque, no caso do título de Geraldine Brooks, o livro em questão é uma hagadá, tradicional obra judia cujos trechos são lidos no almoço de Páscoa – época em que fiz a leitura (outra coincidência?). A hagadá celebra o Pessach, ou seja, a saída dos judeus do Egito, evento descrito no livro bíblico do Êxodo.

Impressões

Que leitura surpreendente. E sofrida. Definitivamente. Eu sofri bastante enquanto o lia. Imaginava que seria apenas um thriller repleto de ação, protagonizado por uma restauradora de livros, mas nada exigente, apenas uma leitura para distrair as ideias. Nem preciso dizer que eu me enganei redondamente.

Estrutura

Geraldine Brooks construiu uma história interessante, cheia de saltos ao longo dos séculos. Cada capítulo se passa em um lugar e uma época diferentes. A autora entremeia a história de sua protagonista, a restauradora de livros Hanna Heath (uma mulher cheia de conflitos internos), com a história da hagadá – o livro cujas memórias o título faz referência.

Adicione-se a isso o fato de que cada capítulo que conta a história da hagadá é protagonizado por diferentes personagens e tem-se aí o ponto alto do livro – a complexidade de fios entrelaçados que fazem com que o leitor acabe de posse de todas as informações do que houve com a hagadá (as memórias do livro), enquanto Hanna conduz suas investigações sem a onisciência do narrador – isto é, ela não fica sabendo de tudo o que se passou com a hagadá ao longo dos séculos de sua trajetória. Confesso que senti certa angústia em relação a isso. Achei que Hanna merecia saber de tudo. Enfim, coisas dos livros.

Luta

Não posso deixar de mencionar o que me fez sofrer durante a leitura: em mais de uma ocasião, a hagadá quase foi destruída. Seu destino dependeu de pessoas frágeis, porém valentes. A maior parte delas mulheres que lutaram e arriscaram suas vidas para que o livro ficasse em segurança. E, como a vida das mulheres, ao longo da História, nunca foi fácil, é possível imaginar quão complicado foi proteger esse livro, o qual, por seu teor religioso, atraiu a ira da Inquisição e dos nazistas, por exemplo. E aí a autora parte em uma viagem no tempo que faz valer a leitura. Para quem gosta de História e ama os livros por tudo aquilo que eles representam, é um “prato cheio”.

As memórias do livro
Geraldine Brooks
Editora Agir
2012
343 páginas