Projeto Hitchcock | Um barco e nove destinos (1944)

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Um enredo promissor, impressionante até, porém desenvolvido de forma bastante equilibrada, graças à sutileza do “estilo Hitchcock” de filmar. Esta poderia ser uma análise sintética de Um barco e nove destinos, produção ambientada na Segunda Guerra Mundial e diretamente influenciada por questões políticas da época.

Enredo

Um submarino das forças nazistas alemãs afunda um navio inglês e deixa à deriva oito pessoas em um bote salva-vidas. Os perfis são os mais variados, entre os quais se destacam uma jornalista sarcástica (brilhantemente interpretada por Tallulah Bankhead, num misto de Bette Davis e Marlene Dietrich); uma mãe (Heather Angel) com seu bebê de colo; um homem que esconde sua origem judia e está com a perna gravemente ferida (William Bendix); e um negro movido por sua fé, cujo passado esconde experiências como ladrão (Canadá Lee). Para apimentar o grupo, o nono passageiro do barco é justamente o capitão alemão do também naufragado submarino nazista (uma interpretação notável de Walter Slezak).

Ética e humanidade

Os dilemas éticos decorrentes da inusitada situação são fortes o suficiente para permitir que mestre Hitch consiga conduzir toda a ação do filme preto e branco em apenas um cenário – no caso em questão, o barco (algo que pode ter funcionado como um “ensaio” para que ele dirigisse com maestria Festim Diabólico (1948), uma de suas mais badaladas produções), e permitem que o espectador conclua com facilidade que, privados de suas necessidades básicas, seres humanos nada mais são do que animais irracionais.

Se, a princípio, as tomadas furtivas em detalhes, como a da bota da perna amputada do personagem Gus – perdoem o spoiler -, aliás, um dos momentos angustiantes do filme, no qual nenhuma imagem da cirurgia improvisada é dividida com o público (porém as reações de alguns tripulantes do barco transmitem ao espectador o horror do momento), funcionam como um recurso a mais na sofisticada técnica do filme, é à medida que o tempo vai passando que a carga psicológica começa a cumprir a sua parte, carregando a trama de incertezas e medo.

Um barco e nove destinos entra, em minha opinião, na seleta lista dos melhores trabalhos de Hitchcock (apesar de não ser uma produção badalada), justamente por conseguir produzir efeitos muito reflexivos em seu público – sua trama é rica em questões fundamentais sobre os limites da humanidade, impulsionada pelos fatos ocasionados pela Segunda Guerra (a ascensão dos nazistas, a divisão entre Eixo e Aliados). Nesse contexto, a morte, ao contrário do que ocorre em vários outros filmes da produção de Hitchcock, adquire abrangência muito maior; a sobrevivência aparece, nesse filme, atrelada a posições políticas e sociais (há um assassinato no barco claramente executado com base nisso – mais um spoiler, desculpem). Isso pode até parecer panfletário e assustador, mas é profundamente interessante analisar como isso é retratado na visão do renomado diretor.

Sutileza

Esse filme teria tudo para ser muito mais pesado do que é de fato. Isso talvez se deva aos diálogos bastante espirituosos (alguns até engraçados) trocados entre os tripulantes do barco e também à técnica de Hitchcock, espetacular na arte de sugerir sensações e conclusões, ao invés de mostrar tudo diretamente. O poder que isso tem é inigualável, ainda mais nos dias de hoje, quando a arte adquiriu status de obviedade constante, e tudo precisa ser minuciosamente explicado para o entendimento do público.

Um barco e nove destinos
1944
Produção: Edward Black Roteiro: Jo Swerling, Ben Hecht, Alfred Hitchcock, baseados em história original de John Steinbeck
97 minutos
EUA

*Este post faz parte de uma série despretensiosa de publicações neste blog sobre a filmografia de Alfred Hitchcock.

 

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Leitura | A camareira

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Uma leitura rápida, com pegada psicológica bem forte e bastante intrigante. Achei que seria interessante ler algo contemporâneo e, como pouco conheço da literatura alemã, A camareira veio bem a calhar.

Mergulhei na leitura sem saber o que esperar. De repente, eu me dei conta de que, mais do que tentar adivinhar qual seria o destino da protagonista Lynn Zapatek em seu trabalho como camareira em um hotel de luxo, muito mais delicado era lidar com os conflitos mentais da personagem. Lynn é complexa, solitária, uma mulher que, depois de um mês em uma clínica para tratar um distúrbio que, pressupõe-se a partir de um comentário de sua mãe, tem a ver com uma mania patológica de roubar objetos, busca uma forma de se encaixar no mundo. Ou melhor, esta deveria ser a ideia: buscar uma forma de se encaixar no mundo. Entretanto, Lynn apenas começa a viver mecanicamente, entregando-se de corpo e alma às suas funções de limpeza e arrumação, sem, dessa forma, dedicar tempo nem energia a refletir sobre a nova fase de sua vida pós-clínica.

Sem simplismo

Há uma questão de comunicação – ou da falta dela – fundamental na narrativa de Markus Orths. E isso faz toda a diferença porque transforma A camareira em um livro nada óbvio, que consegue conjugar um fluxo de leitura muito fluido com um processo de reflexão pesado. Não há como ler a história de Lynn sem se sensibilizar ou se imaginar, em algum momento, tentando ajudá-la a falar de seus problemas com sua mãe, por exemplo. O livro passa uma sensação muito legítima de angústia e isso é definitivamente, um ponto positivo, fruto do talento do autor.

A curta narrativa de Orths mostra a trajetória de Lynn, que, ao tentar superar o vazio de sua existência, passa a viver as migalhas das vidas dos hóspedes os quais ela escolhe semanalmente para, escondida embaixo de suas camas nos quartos do hotel onde trabalha, observar atentamente, ouvir, deduzir o que se passa durante sua hospedagem. Assim ela se esquece de quem é, mesmo que temporariamente.

O autor não se preocupa em fechar a história em torno de uma solução para o drama de Lynn. E é até bom que não faça isso, porque, no decorrer das páginas, é fácil perceber que os problemas da protagonista não podem ser resolvidos de um momento para outro – ou ainda: será que podem ser resolvidos? Contudo, o fim é sugestivo, é, de certa forma, coerente com o percurso da protagonista, e, o mais importante em minha opinião: deixa bastante claro que somente um retorno às origens pode ser a porta que é necessário transpor para entender e administrar os conflitos da camareira.

A camareira
Markus Orths
Tradução de Mário Luiz Frungillo
L&PM Editores
2010
136 páginas

Leitura | Melodia mortal

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Uma nota rápida sobre esse livro leve e, ao mesmo tempo, muito instrutivo.

Há muito eu não lia nada escrito por Pedro Bandeira, um dos autores favoritos da minha adolescência, o qual tive a honra de conhecer em uma das edições da Bienal do Livro. Quando soube que, em parceria com Guido Carlos Levi, ele havia posto em prática um projeto envolvendo Sherlock Holmes, não hesitei em incluir esse título em minha lista de leitura.

Vários meses depois do lançamento do badalado Melodia mortal, pus as mãos em um exemplar e, muito curiosa, fiz a leitura rapidamente. Não apenas pelo fato de ser fã de literatura policial, como também de música clássica – o mote do livro composto por contos que abordam investigações de Holmes e Watson a respeito das mortes de gênios como Beethoven, Mozart, Chopin, Tchaikovsky, Schumann e Bellini.

Como o próprio Pedro Bandeira ressalta na orelha do livro, o ponto forte de Melodia mortal é o seu aspecto de almanaque, os fatos verídicos aproveitados para criar a ficção envolvendo Sherlock Holmes, e a questão da independência entre os contos – as aventuras têm fim em si mesmas, o que viabiliza tanto uma leitura “em doses homeopáticas” como a empreitada de um só fôlego.

Algo de que gostei muito foi a sensação que o livro deixou em mim de fazer pesquisas por conta própria a partir da leitura. Busquei na minha estante os CDs dos gênios para ouvir determinadas peças, fui atrás de revistas sobre o assunto que eu lembrava que tinha e, com isso, tive a oportunidade de complementar o conhecimento que Melodia mortal me trouxe. Eu nada sabia sobre Vincenzo Bellini, por exemplo, e valorizo muito quando um livro me instiga a buscar saber mais sobre determinado assunto.

Para finalizar, o uso que Bandeira e Levi fizeram de Sherlock Holmes e John Watson foi um grande incentivo não apenas para mim, mas, penso, para muitos outros leitores embarcarem nessa investigação a respeito de gênios de uma das formas artísticas mais eruditas que temos. Foi um plano feliz, bem amarrado, já que Holmes é um violinista e aproveita para tocar sempre que está pensando sobre suas investigações. Foi também uma chance muito bacana de matar a saudade do texto fluido de Pedro Bandeira.

Melodia Mortal – Sherlock Holmes investiga as mortes de gênios da música
Pedro Bandeira & Guido Carlos Levi
Fábrica 231
2017 – 1ª edição
240 páginas

 

Série | La Casa de Papel

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Acho que a fórmula de La Casa de Papel funcionou comigo porque não exigi demais da proposta. Pelo contrário, eu me propus a “entrar” na ideia do enredo e não fiquei tentando traçar paralelos com as séries blockbusters norte-americanas. Deu certo.

Início

O começo, o primeiro episódio, mais especificamente, não me empolgou. Entretanto, a partir do segundo, a dinâmica estratégica de criação de ganchos e o carisma de alguns personagens cativam o espectador, guiando-o ao longo de toda uma primeira parte cujo mote é o assalto à Casa da Moeda da Espanha por um grupo de ladrões que se identificam por nomes de cidades, é altamente armado e bastante organizado. Vestem macacões vermelhos e usam máscaras de Salvador Dalí. Tudo muito engenhoso. A questão é: uma vez dentro da Casa da Moeda, como eles farão para escapar?

Demora um pouco para entender a complexidade do plano do Professor (Álvaro Morte), o cérebro da equipe. Contudo, uma vez desvendado o mistério, o maior mérito da série é o bem-sucedido efeito da síndrome de Estocolmo, ou seja, o processo de identificação e afinidade que o espectador passa a desenvolver em relação aos sequestradores, torcendo para que a inspetora de polícia Raquel Murillo (interpretada por Itziar Ituño) não descubra as falhas, as pontas soltas do plano, e não cumpra com competência o seu papel de policial. O jogo de gato e rato que ela disputa com o Professor é bastante divertido não tanto pelo sangue frio dele, mas principalmente pela falta de percepção dela.

À primeira parte sucede-se uma segunda, cujo ritmo mantém a intensidade dos primeiros episódios e garante um turbilhão de emoções sustentado por uma frágil teia de acontecimentos. Se eu tivesse de definir a série em uma palavra, seria esta: absurdo. A título de entretenimento, volto a dizer, é um absurdo muito bem-vindo.

Barracos

Há vários problemas na série, principalmente na construção de diálogos fracos, fato que só é contornado por algumas belas interpretações – a escolha do elenco é o ponto forte da produção. Paco Tous (Moscou), Alba Flores (Nairóbi) e Pedro Alonso (Berlim) deixam isso bem claro. É uma pena que La Casa de Papel perca força por uma sucessão de situações absurdas – por exemplo, policiais que discutem detalhes de suas vidas particulares na presença da equipe e durante a negociação com os sequestradores. Contudo, se os barracos evidenciam falhas na costura do enredo, pelo menos eles garantem boas risadas ao espectador. Como eu disse no início deste pequeno comentário, La Casa de Papel tem os seus méritos, desde que não seja levada a sério.

La Casa de Papel
Criação: Álex Pina
Ano: 2017
País: Espanha
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração: 13 episódios na Parte 1 e 9 episódios na Parte 2 (cada um com 50 minutos em média)

 

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (III)

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Neste ponto dos registros, paro para comentar um pouco sobre a obra-prima de Emily Brontë e seu contexto.

Publicado em 1847, O Morro dos Ventos Uivantes (Wuthering Heights) talvez seja a maior das criações das irmãs Brontë: Charlotte, Emily e Anne, todas elas escritoras de talento. Emily, no entanto, viveu muito pouco (apenas 30 anos) e produziu apenas esse romance.

Várias vezes adaptado para a televisão e para o cinema, O Morro dos Ventos Uivantes é um livro de grandes proporções, uma história que se estende ao longo de gerações e que surpreende pela amplitude de seu enredo. Não se trata apenas de um amor que põe à prova condições sociais, mas que transcende, ao apresentar desdobramentos que, de forma sombria, envolvem questões familiares, questões humanas.

Na edição original que estou lendo, há um prefácio escrito por Charlotte, a mais velha das irmãs Brontë e também aquela que mais viveu, fato que lhe conferiu decisões não apenas sobre sua produção literária (permissão de edições e reedições, por exemplo), como também sobre as obras deixadas por suas irmãs.

Emily foi a primeira das três a falecer, e Charlotte registra, em sua nota biográfica, que sua irmã do meio era melancólica, introspectiva e tímida. Ela conta que, apesar de muito talentosa, Emily gostava da reclusão e era preciso muito esforço para que ela permitisse o acesso a algum texto seu – de acordo com a primogênita, a autora de O Morro dos Ventos Uivantes foi também uma habilidosa poetisa.

“My sister Emily was not a person of demonstrative character, nor one, on the recesses of whose mind and feelings, even those nearest and dearest to her could, with impunity, intrude unlicensed…”

Ainda assim, ela foi capaz de produzir um dos romances mais notáveis da história da literatura inglesa, com personagens fortes e um inesquecível casal protagonista: Catherine e Heathcliff. Se ambos são o núcleo de uma conturbada relação amorosa, até o momento, minha atenção de leitora não se voltou fundamentalmente para eles. É Nelly, a empregada da família Earnshaw e também a narradora da história, a personagem que vem se destacando em minha leitura.

Fio condutor

Nelly (na verdade, Ellen Dean) é o fio condutor que Emily Brontë construiu com maestria para guiar o leitor ao longo das páginas de O Morro dos Ventos Uivantes. Alguns textos de apoio, inclusive, afirmam ter sido a inspiração para Nelly a criada de Emily, uma fiel serviçal de nome Tabhyta.

O fato é que Nelly é a base para a narrativa bem-sucedida do romance. Ela é a memória das duas famílias (mais Earnshaw do que Linton), além de saber exatamente o lugar de Heathcliff na genealogia dessas duas casas. A empregada conta a história ao inquilino de Heathcliff, Mr. Lockwood, voltando décadas para remexer o passado cheio de amor e de ódio dessas duas famílias. É Nelly quem garante a coerência da história, que, à primeira vista, pode confundir o leitor, o qual se depara com “duas Catherines” e é obrigado a entender de que forma elas influenciam Heathcliff e os Linton – por isso é interessante ter à mão a árvore genealógica dos personagens para consulta.

A tradução de Rachel de Queiroz

Tenho encontrado farto material para complementar minha leitura do texto original e daquele traduzido de O Morro dos Ventos Uivantes. Vou reservar a próxima parte destes registros aqui no blog para começar a comentar essa bibliografia que estou usando como apoio para entender a obra original e também o trabalho desenvolvido por Rachel de Queiroz durante a década de 1940. São artigos científicos, teses e monografias os quais apresentam informações preciosas para minha compreensão desse processo.

Como “aperitivo”, deixo aqui o primeiro ponto que chamou minha atenção na tradução de Rachel: nossa grande autora optou por não manter a natureza do “dialeto” falado por Joseph, empregado de Heathcliff, cujas falas no texto original de Emily Brontë são um verdadeiro desafio ao entendimento do leitor. Cheguei a copiar várias delas em meu caderno de inglês e tentei transcrevê-las para melhor entender o sentido. Meu primeiro enigma, portanto, veio do fato de Rachel de Queiroz ter deixado de lado essa particularidade de Joseph e traduzido suas falas como as dos outros personagens. Por quê?

Muitas questões ainda alimentam esse percurso de leitura. Vou organizar minhas anotações para continuar a pontuá-las aqui no blog.

HQ | Homem-Formiga: Mundo Pequeno

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Foi por causa do filme do Homem-Formiga, estrelado por Paul Rudd, lançado pela Marvel em 2015, que eu resolvi ler algo desse personagem, o qual sempre tinha ouvido falar, mas quase nada conhecia.

No início de 2016, encontrei, no site da Livraria Cultura, esse volume intitulado Mundo Pequeno e resolvi arriscar. Como não tenho um método quanto às minhas leituras, somente no início deste ano fui tirá-lo da estante – e sem muitas expectativas, diga-se de passagem.

Introdução

Esse volume editado pela Panini é bastante esclarecedor para quem nada sabe sobre o personagem, então vi que fiz uma boa compra no fim das contas. Ele é composto por quatro histórias, sendo que uma delas mostra exatamente a origem do Homem-Formiga, escrita por Stan Lee & Larry Lieber e publicada em 1962, seguida por “O retorno do Homem-Formiga”, também de 1962.

Essas primeiras histórias são fundamentais para o leitor compreender não apenas a dinâmica das HQs da época (de ritmo e composição bastante diferenciadas em relação a hoje), como também para situar o papel do Homem-Formiga no Universo Marvel.

Contudo, as histórias que me agradaram bastante foram “A criatura de Kosmos!” e “Estreia conturbada!”, ambas magistralmente desenhadas pelo mestre John Byrne – isso me trouxe memórias afetivas muito boas de uma das melhores fases dos X-Men, justamente ilustrada por Byrne. Eu diria que o ponto alto dessas HQs é a transição do cientista Hank Pym para o Homem-Formiga.

É bem interessante observar como, nessas primeiras histórias, é bem explorado o dilema do herói x o homem comum (algo que perdeu bastante da magia nas HQs atualmente) e como há um “clima retrô” em relação à atmosfera das histórias, facilmente observado pelas roupas e pelos costumes dos personagens.

Mundo Pequeno

Já a história que dá título a essa coletânea, em minha opinião, é a mais fraca da compilação. O traço de Tim Seeley é bastante agradável, porém o enredo é afetado demais. Perde muito em relação às outras histórias, por tratar o Homem-Formiga (agora Scott Lang e tendo Hank Pym como Vespa, traje originalmente vestido por sua falecida esposa Janet) como um herói que, mesmo vivendo um conflito interno em relação às suas questões éticas, está totalmente perdido na vida. Vespa (Hank Pym, o Homem-Formiga original) está entregue à sua tecnologia e agora é um homem mais impessoal do que nunca em relação àquele herói das primeiras histórias. Notei certo esvaziamento do personagem em sua versão mais atual, esvaziamento este que não é compensado pela bela arte de Seeley.

Homem-Formiga: Mundo Pequeno
Tim Seeley, Stan Lee, Larry Lieber, David Michelinie (roteiros); Tim Seeley, Jack Kirby, H.E. Huntley, John Byrne & Bob Layton (arte)
Mario Luiz C. Barroso e Rodrigo Barros (tradução)
Marvel / Panini
146 páginas

Leitura | As memórias do livro

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Tirei esse livro da estante em um momento curioso. Primeiro, porque eu o encontrei enquanto procurava O estrangeiro, de Albert Camus – um livro que, diga-se de passagem, precisei revirar minha estante três vezes para encontrar semanas depois. Segundo, porque, no caso do título de Geraldine Brooks, o livro em questão é uma hagadá, tradicional obra judia cujos trechos são lidos no almoço de Páscoa – época em que fiz a leitura (outra coincidência?). A hagadá celebra o Pessach, ou seja, a saída dos judeus do Egito, evento descrito no livro bíblico do Êxodo.

Impressões

Que leitura surpreendente. E sofrida. Definitivamente. Eu sofri bastante enquanto o lia. Imaginava que seria apenas um thriller repleto de ação, protagonizado por uma restauradora de livros, mas nada exigente, apenas uma leitura para distrair as ideias. Nem preciso dizer que eu me enganei redondamente.

Estrutura

Geraldine Brooks construiu uma história interessante, cheia de saltos ao longo dos séculos. Cada capítulo se passa em um lugar e uma época diferentes. A autora entremeia a história de sua protagonista, a restauradora de livros Hanna Heath (uma mulher cheia de conflitos internos), com a história da hagadá – o livro cujas memórias o título faz referência.

Adicione-se a isso o fato de que cada capítulo que conta a história da hagadá é protagonizado por diferentes personagens e tem-se aí o ponto alto do livro – a complexidade de fios entrelaçados que fazem com que o leitor acabe de posse de todas as informações do que houve com a hagadá (as memórias do livro), enquanto Hanna conduz suas investigações sem a onisciência do narrador – isto é, ela não fica sabendo de tudo o que se passou com a hagadá ao longo dos séculos de sua trajetória. Confesso que senti certa angústia em relação a isso. Achei que Hanna merecia saber de tudo. Enfim, coisas dos livros.

Luta

Não posso deixar de mencionar o que me fez sofrer durante a leitura: em mais de uma ocasião, a hagadá quase foi destruída. Seu destino dependeu de pessoas frágeis, porém valentes. A maior parte delas mulheres que lutaram e arriscaram suas vidas para que o livro ficasse em segurança. E, como a vida das mulheres, ao longo da História, nunca foi fácil, é possível imaginar quão complicado foi proteger esse livro, o qual, por seu teor religioso, atraiu a ira da Inquisição e dos nazistas, por exemplo. E aí a autora parte em uma viagem no tempo que faz valer a leitura. Para quem gosta de História e ama os livros por tudo aquilo que eles representam, é um “prato cheio”.

As memórias do livro
Geraldine Brooks
Editora Agir
2012
343 páginas

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (II)

Continuo com os registros do projeto que estou desenvolvendo de uma leitura compartilhada de O Morro dos Ventos Uivantes, considerando o texto original e integral de Wuthering Heights e a versão traduzida por Rachel de Queiroz. Mais detalhes sobre a ideia geral estão no primeiro post que fiz sobre esse assunto, que pode ser acessado aqui.

Desafio

A primeira coisa que quero pontuar nesta segunda parte é que esse projeto tem aumentado de forma crescente o meu interesse pelo trabalho de tradução. É simplesmente fascinante trabalhar com o texto em si e sua forma em outra língua. Tenho procurado vários materiais de apoio, com o objetivo de entender melhor a linha de raciocínio de um tradutor, muito embora eu possa me aventurar a dizer que, até o momento, tenho conseguido entender as decisões de Rachel de Queiroz diante do gigante criado por Emile Brontë. Só por isso já tem valido esse percurso.

As colunas sobre o trabalho de tradução escritas pelo jornalista e tradutor Eduardo Ferreira para o Jornal Rascunho também têm me ajudado demais a compreender as nuances desse processo. Recomendo esses textos a todos aqueles que se interessam pelo assunto.

Um ótimo exemplo de uma das coisas que aprendi lendo os textos do Eduardo foi a substancial diferença entre “versão” e “tradução”. Seguem as claras definições retiradas de uma das colunas de Eduardo Ferreira:

“A tradução é um trabalho meticuloso, carregado de espírito. Transforma uma simples versão em texto verdadeiramente literário, conforme ao gênio da língua de chegada.

A versão seria espécie de estágio intermediário entre o original e a verdadeira tradução.”

Também encomendei alguns livros sobre o assunto e espero confrontar ideias e complementar meus estudos com eles. Estou ansiosa pela chegada de Sobre a tradução, de Paul Ricoeur (Editora UFMG), texto clássico sobre o assunto e do qual já ouvi falar bastante, e os volumes teórico e de exercícios de Vocabulando, da professora e tradutora de inglês Isa Mara Lando.

Sobre o enredo

Retomei a leitura da tradução de Rachel de Queiroz e fiquei muito contente ao perceber que estou captando bem a ideia geral do enredo em inglês. Aqui, acho que vale a inclusão de uma ótima árvore genealógica envolvendo as famílias que protagonizam a história. A fonte da imagem é o site http://www.wuthering-heights.co.uk.

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A árvore genealógica dos personagens é uma questão bem importante no enredo, além de já passar uma ideia de como a história tem o poder de atravessar gerações desses núcleos familiares.

No próximo post deste diário de leitura, contarei mais detalhes sobre o enredo e vou comentar as primeiras curiosidades a respeito do processo de tradução.

Série Vaga-lume | A grande fuga

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Esse título foi mais uma releitura da Série Vaga-Lume. É sempre interessante quando se trata de uma releitura, porque eu tento recordar o livro, pensar o que ficou na memória sobre ele depois de tanto tempo.

No caso de A grande fuga, eu lembro que peguei esse livro na biblioteca de classe (eu amava a biblioteca de classe!) e que, pelo fato de as ilustrações não me agradarem, esse foi um dos últimos títulos da coleção que eu tirei para a leitura. Aliás, é bem curioso pensar que eu, já com meus 10, 11 anos, tinha certa visão crítica em relação ao conjunto de uma publicação. Costumava analisar as ilustrações (sabia de cabeça, inclusive, os nomes de alguns artistas que trabalhavam para a coleção), as cores usadas para o padrão da capa, e ficava procurando qual ilustração do miolo havia sido escolhida para capa da edição. Lia também o expediente e ficava imaginando como seria legal trabalhar fazendo aquilo, manuseando aqueles textos tão bacanas. Por isso, para mim, hoje é uma satisfação trabalhar com texto e ser uma pesquisadora de língua e literatura.

Voltando ao livro…

Outra lembrança que eu tinha era de que o enredo desse livro era pura ação, como seu próprio título sugere. Além disso, não lembrava mais nada e foi assim que parti para a releitura.

Foi uma boa surpresa me deparar com o texto fluido de Silvio Pereira, marcado por gírias de uma época que só me trouxe lembranças boas, por meio de seu trio de protagonistas: os irmãos Cat e Júlio e o primo Paulino.

Imagino a dificuldade do autor em elaborar uma trama envolvendo traficantes, crimes e polícia em plenos anos 1980. O enredo em si é fraco (vale lembrar que a própria Série Vaga-Lume tem excelentes títulos nessa linha de ação, como Bem-vindos ao Rio, Quem manda já morreu e Corrida infernal, por exemplo, todos escritos pelo fantástico Marcos Rey), mas vale a leitura de A grande fuga, sobretudo para pensarmos a literatura infantojuvenil daquela época, em um cenário social brasileiro conturbado. Falar de temas pesados já naquele tempo era, sem dúvida, um grande desafio.

Em seu livro, Silvio Pereira claramente evita o confronto entre policiais e bandidos, colocando a responsabilidade da grande fuga mencionada pelo título nas mãos dos próprios jovens protagonistas, que têm poucas horas para arquitetar um plano a fim de escapar de um grupo de bandidos que cercam a mansão onde por acaso eles foram parar. Há o dilema ético entre ajudar um bandido e abandoná-lo à morte (esse possivelmente é o ponto alto da história) e a luta pela sobrevivência.

Se não se trata de um ótimo título da Vaga-Lume, A grande fuga ao menos proporciona algumas horas de entretenimento, com seu texto curtinho e engraçado em alguns momentos.

A grande fuga
Silvio Pereira
Editora Ática
1985 – 95 páginas

Diário de leitura| O Morro dos Ventos Uivantes (Parte I)

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Certo dia, eu estava pondo em ordem os volumes da minha pequena estante e, ao constatar que eu tenho um exemplar em inglês e também outro em português de O Morro dos Ventos Uivantes, uma ideia me ocorreu: fazer uma leitura simultânea. Seria uma maneira de estudar inglês e também de analisar o texto original em contraponto a uma versão traduzida por ninguém menos do que Rachel de Queiroz. Juntei minhas papeladas e comecei a empreitada. Agora, pretendo, aos poucos, publicar aqui as minhas impressões durante o processo. Sem pressa, com cuidado e atenção. Afinal, O Morro dos Ventos Uivantes é um colosso que merece toda a dedicação, mesmo em um estudo informal como este que estou fazendo.

Ponto de partida

Disponho de um exemplar importado (Collector’s Library – CRW Publishing Limited) dessa obra máxima escrita pela inglesa Emile Brontë (1818-1848). O texto é original e integral, portanto, o mais indicado para o meu objetivo. Da coleção Clássicos da Editora Abril, tenho o volume traduzido para o português, cujo texto foi preparado por uma de nossas maiores escritoras: a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003). Ou seja, uma versão pra lá de confiável.

Diante disso, resolvi fazer a leitura capítulo a capítulo do livro, sempre lendo primeiro em inglês e, na sequência, em português. Isso me permitiria observar as nuances do texto e compará-lo com o trabalho de Rachel, analisando suas decisões como tradutora. Sem dúvida, um aprendizado e tanto.

Até aí, tudo às mil maravilhas. O caso foi que sabotei o meu próprio plano. Escrevo essa primeira parte do meu diário de leitura após lidas pouco mais de 100 páginas do livro, porém, algo inesperado aconteceu: disparei na leitura em inglês e acabei deixando a tradução em segundo plano. Resolvi interromper o processo para pôr as ideias em ordem (o que estou fazendo agora), uma vez que notei o disparate de estar lendo o capítulo 9 do livro original e o 3 da versão traduzida.

Entendendo a mudança de planos

De início, segui rigorosamente minhas próprias instruções. Fiz anotações e tudo. Entretanto, um grande volume de leituras que costumo fazer se dá no meu trajeto para o trabalho. Então, esse esquema de ler um capítulo de cada idioma implicaria levar os dois livros comigo, o que se tornou inviável, por causa do peso.

Dessa forma, durante vários dias, levei apenas o livro em inglês. Isso fez com que a leitura do texto original decolasse em relação à sua tradução. Com isso, resolvi ler as primeiras cem páginas do texto original e, depois, alcançar o mesmo ponto da versão traduzida antes de seguir adiante. Esse é o novo plano.