Leitura | A vida imortal de Henrietta Lacks

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Foi por causa de uma dica do precioso e, infelizmente extinto, Manual Prático de Bons Modos em Livrarias que eu incluí A vida imortal de Henrietta Lacks na minha lista de leituras. Fazia tempo que eu não me dedicava a um livro-reportagem, daqueles com bastante informação, muita checagem de dados, realmente muitas horas de entrevistas, e pensei que esse livro seria uma ótima oportunidade para começar a “pagar a minha dívida” com esse estilo literário. E não me enganei.

Sem sombra de dúvida, esse trabalho da jornalista especializada em ciência Rebecca Skloot foi uma das melhores leituras que já fiz. E não estou exagerando. É nítido o esforço empreendido pela autora para refazer os passos e reconstruir a história extraordinária de Henrietta Lacks, uma mulher pobre, negra, lavradora dos campos de tabaco dos Estados Unidos da década de 1950, cujas células revolucionaram o mundo científico de maneira avassaladora.

Estrutura

É prazeroso verificar o cuidado com o qual Rebecca organiza as informações em capítulos que não seguem ordem cronológica, mas que cumprem perfeitamente a sua função: indo e voltando no tempo, os escritos vão compondo as peças de um quebra-cabeça elaborado, sofisticado, com o qual o leitor vai compreendendo quão cruel e delicado é o assunto em torno do qual orbita a morte de Henrietta: o debate ético sobre a propriedade de tecidos e outras partes do corpo humano utilizadas em pesquisas.

Em 1951, Henrietta Lacks morreu vítima de um tumor cervical fulminante. Apenas alguns meses foram o suficiente para minar a saúde da jovem mulher, na época, com apenas 31 anos. Mãe de cinco filhos, Henrietta entrou para história de maneira involuntária, após ter suas células cancerosas retiradas de seu corpo para a realização de pesquisas no tradicional hospital norte-americano Johns Hopkins. Ao constatar que as células continuavam se reproduzindo em cultura, após a retirada do corpo de Henrietta, os cientistas perceberam que estavam diante de algo revolucionário: supercélulas cancerosas que não apenas continuam se reproduzindo até hoje, como também são capazes de dominar outras culturas celulares com as quais têm contato.

Pesquisa

Rebecca Skloot precisou de cerca de dez anos de pesquisas ininterruptas para reunir material e chegar ao texto final de seu livro. Uma equipe considerável de profissionais e de respeitadas instituições colaborou com o trabalho da jornalista, fornecendo informações, documentos e bolsas de incentivo para que Rebecca pudesse realizar o seu trabalho.

O processo de pesquisa não teria sido tão bem-sucedido, se não tivesse contado com a colaboração de Deborah, a quarta filha de Henrietta e a única das mulheres a sobreviver até a idade adulta. Deborah desempenhou o papel de representante dos irmãos Lacks na busca pela verdade sobre a morte de sua mãe. Os dilemas da mulher emocionalmente frágil e pouco instruída são contados de forma contundente pelo texto de Rebecca, e é inegável que a herdeira de Henrietta estabelece um contraponto direto à personalidade equilibrada da jornalista branca, filha de pais de classe média-alta.

A vida imortal de Henrietta Lacks é, mais do que um livro-reportagem, uma obra para consulta, repleta de informações para todo leitor interessado nos bastidores do universo da pesquisa médica. Rebecca Skloot contextualiza a história da mulher responsável pela linhagem celular conhecida como HeLa no tempo e no espaço, citando não apenas outros casos de apropriação de material humano para pesquisas médicas, como também enriquecendo o leitor com dados sobre biologia, estudos genéticos e o debate jurídico em torno do assunto.

No início de 2017, a história de Henrietta chegou às telas da HBO, em versão protagonizada por Oprah Winfrey no papel de Deborah Lacks e Rose Byrne interpretando Rebecca Skloot.

A vida imortal de Henrietta Lacks
Rebecca Skloot
Tradução de Ivo Korytowski
Companhia das Letras
454 páginas

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Série | The Good Place

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Preciso fazer um rápido comentário sobre a primeira temporada dessa série produzida originalmente pela Netflix e exibida pela emissora norte-americana NBC.

Trama surpreendente, episódios breves, pitadas de humor inteligente e situações criativas, protagonizadas por personagens bem construídos. Essa é a fórmula bem-sucedida de The Good Place, cujo enredo gira em torno de Eleanor Shellstrop (Kristen Bell, de Veronica Mars), uma “fraude”, um “erro de cálculo” na classificação das almas boas que, após a morte, são levadas a habitar o lugar bom, uma versão do paraíso montada pelo “arquiteto” Michael (o ótimo Ted Danson, da franquia Três Solteirões e um Bebê).

Personagens 

As aventuras de Eleanor são compartilhadas por sua “alma gêmea”, Chidi Anagonye (William Jackson Harper), o que torna tudo muito interessante, porque, se Eleanor foi, em vida, a espertinha sem muitas noções de honestidade, seu contraponto é uma alma gêmea que, em vida, era um professor de filosofia moral. O contraste entre ambos é um dos maiores acertos da série, com Chidi e sua importante missão de tentar “recuperar moralmente” a alma de Eleanor.

O núcleo de protagonistas é ainda integrado pela ex-filantropa Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil) e o monge Jianyiu (Manny Jacinto), outro inusitado casal de almas gêmeas. Ou seja, Eleanor é a estranha no ninho. O ápice dessa diferença se dá com a descoberta de uma outra Eleanor, exemplo de boa conduta em vida, mas que, depois de morta, foi levada por engano ao “lugar ruim”. Uma troca infeliz, que, aparentemente, custaria um alto preço para os dois lados.

O roteiro muito bem elaborado e cheio de referências (sem dúvida, Chidi bancando o Cyrano de Bergerac com Tahani é um dos momentos mais bacanas da série) consegue estabelecer uma trama mais promissora a cada episódio, culminando com um final de temporada digno de uma série já consolidada por público e crítica. Fiquei com uma ótima impressão de The Good Place e bastante curiosa para ver como a equipe da série pretende manter o ótimo nível desta primeira temporada.

The Good Place – Primeira temporada
Criação: Michael Schur
Ano: 2016
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração: 13 episódios (cada um com média de 22 minutos de duração)

Maigret | A noite na encruzilhada

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O fim da leitura de mais essa história protagonizada pelo comissário da polícia judiciária francesa Jules Maigret me trouxe a inevitável lembrança de Assassinato no Expresso do Oriente, uma das aventuras mais famosas de Hercule Poirot, detetive criado por Agatha Christie na década de 1920. Isso porque há um traço em comum muito forte entre as estruturas dos dois enredos. Não quero dar spoilers aqui, mas a dinâmica e o ritmo intenso também são pontos de semelhança entre os livros.

Novidade

Em A noite na encruzilhada, notei algumas passagens mais poéticas na linguagem empregada pelo belga George Simenon para contar a morte de um vendedor de diamantes de conduta duvidosa. Talvez isso tenha me chamado mais a atenção nessa leitura pelo fato de, nessa ocasião, Maigret defrontar-se com uma sensual e enigmática figura feminina: Else, irmã de Carl Andersen, o principal suspeito do crime. É muito curioso observar de que maneira Maigret, um sujeito introspectivo e grosseiro, comporta-se em relação a essa forte figura feminina.

A leitura reserva ao leitor uma porção de surpresas e reviravoltas na história, algo perfeitamente esperado de um livro policial, entretanto, é interessante como, a partir de determinado ponto da leitura, começa a ser mais importante entender a “mecânica” do crime em si, e não apenas desvendar a identidade do assassino. Simenon consegue, com essa história, causar no leitor uma impressão semelhante à que Agatha Christie conseguiu com Assassinato no Expresso do Oriente, por isso a minha observação no começo desse texto. Ambos os autores conseguem mudar os holofotes para o percurso do crime, tornando-o mais importante do que o seu fim.

Na TV

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Novamente, tive a oportunidade de ver a adaptação dessa história em um episódio da série produzida pela ITV, tendo como protagonista Rowan Atkinson no papel de Maigret.

Deixando de lado o choque que sempre me acomete, ao me deparar com a gentileza de Atkinson em contraponto à rudeza do Maigret das páginas de Simenon, é facilmente perceptível que, contrariamente ao que ocorreu com a adaptação de Maigret e seu Morto (comentada aqui), desta vez os roteiristas mudaram completamente a história original, criando uma nova versão da trama.

Apesar de valorizar o interesse que uma adaptação para a TV pode gerar em relação ao livro, creio que o fato de Atkinson dar vida a um Maigret em muitos aspectos diferentes do original e também de os roteiristas não serem nada fiéis ao enredo elaborado por Simenon, cria-se um distanciamento que compromete a identidade do Maigret dos livros, talvez diminuindo o desafio de retratá-lo em tela.

A noite na encruzilhada
Georges Simenon
Tradução de Eduardo Brandão
Companhia das Letras
2014 – 136 páginas

A noite na encruzilhada (Segundo episódio da série ITV)
Rowan Atkinson como Maigret
Uma produção ITV (Inglaterra)
2017 – 1h28min

Discworld | Pirâmides (1989)

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Algo diferente aconteceu no processo de leitura desse volume de Discworld: interrompi o livro duas vezes. Isso foi inédito, porque, até então, Terry Pratchett vinha emplacando uma boa continuação atrás da outra, mas preciso dizer que “Pirâmides”, o sexto volume da sequência direta da série, não conseguiu o mesmo efeito. Pelo menos não a princípio.

Desenvolvimento

Neste livro, o autor começa uma nova trama do zero, com personagens totalmente novos para o leitor, o que é sempre um risco em time que está ganhando. Sem personagens-chave, como Rincewind, Duas-Flor, Morte, ou Vovó Cera do Tempo (grandes acertos de Pratchett até aqui), ficou nas costas do jovem Teppic, herdeiro de um pequeno e inexpressivo reino notado apenas por suas pirâmides, sustentar uma trama que poderia ser mais curta (o ritmo da história foi um problema).

Pirâmides, como o título já indica, trata da mitologia no Disco fazendo, é claro, uma referência direta ao nosso Egito. A ideia é interessante, mas demora para engrenar – tudo começa a ficar mais interessante depois da página 100, quando a proposta do autor passa a se mostrar brilhante, estabelecendo um elaborado jogo espaço-temporal.

Pratchett usa esse volume da série para fazer “um ponto fora da curva”, digamos assim. Se a trama apresenta problemas de ritmo, eles são compensados com uma boa construção literária (algumas piadas não funcionam, e há momentos em que os trocadilhos caem na artificialidade, mas ainda assim o saldo é positivo.

Crítica

A constituição do enredo diverge dos volumes precedentes da série, mas é por isso mesmo que arrisco dizer: em termos de estrutura, este livro supera os anteriores. Quando o leitor se dá conta do sentido maior, obtido quando cada detalhe se junta, formando a trama completa, Pirâmides revela-se uma grande crítica e, ao mesmo tempo, uma grande brincadeira envolvendo o ato da criação, a disputa pelo poder e a religião como grande instrumento manipulador. Ou seja, são muitos os acertos que tornam a leitura compensadora.

Não sei se Teppic voltará a aparecer em outros volumes da saga, mas, se o fizer, será bem-vindo.

Pirâmides
Terry Pratchett
Tradução de Ludimila Hashimoto
Conrad Editora
298 páginas

Personalidades | Marie Curie

 

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Fiquei simplesmente fascinada com a história de vida de Maria Sklodowska, polonesa de nascimento, que se tornou mundialmente conhecida como Marie Curie (1867-1934).

Trajetória 

Eu me emocionei com a tenacidade dessa mulher, que não apenas teve de superar as limitações técnicas do mundo científico de seu tempo, como também precisou enfrentar a resistência de uma sociedade patriarcal que se opôs ferozmente ao seu trabalho. Mesmo assim, Marie conseguiu se formar com méritos em Física e em Matemática pela Sorbonne e deu início às pesquisas sobre radioatividade.

Conquistas

Ao lado de seu marido, o também cientista Pierre Curie (1859-1906), Marie desenvolveu importantes estudos que culminaram com o Prêmio Nobel de Física, em 1903, a partir de uma descoberta feita por acaso por Antoine Becquerel que conduziu Marie à descoberta de dois novos elementos da tabela periódica: o polônio (batizado em homenagem à sua terra natal) e o rádio.

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Entretanto, foi depois da morte prematura de seu marido que Marie precisou de toda a perseverança para seguir com seu trabalho. Se antes a cientista já havia passado por situações nas quais teve de deixar que Pierre se apresentasse sozinho, pois mulheres não eram aceitas em eventos acadêmicos, agora Marie precisava de muita coragem e disciplina para continuar suas pesquisas. E foi nessa fase que ela conquistou o segundo Nobel, agora em Química.

 

Marie Curie foi não apenas a primeira mulher a ser premiada com o Nobel, como também é a única pessoa do mundo a ter dois prêmios em áreas afins. Como se não bastasse tudo isso, ela também é a única pessoa a ter um parente também laureado com o Nobel: sua filha mais velha, Irène Joliot-Curie (1897-1956), ganhou o Nobel de Química em 1935, ao lado de seu marido, Frédéric Joliot-Curie (1900-1958).

Curiosidade

Em 1944, uma equipe de pesquisadores norte-americanos descobriu o cúrio, outro elemento da tabela periódica, e o batizou dessa forma em homenagem ao casal Curie.

Série Vaga-lume | O segredo dos sinais mágicos

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Achei bastante significativo me deparar com uma releitura com temas tão atuais. Sérsi Bardari não teve medo de usar a trama de O segredo dos sinais mágicos para tratar de assuntos como o preconceito racial, o preconceito contra as liberdades da mulher e o culto religioso.

– … Você está por fora, cara! Tua cabeça é pré-histórica. Imagine, pensar que uma garota é fáci só porque ela se veste à vontade!? Onde já se viu? Eu sei, foi o seu pai quem lhe ensinou isso, não foi? Que mentalidade atrasada, meu Deus!… E tem mais, violência não está com nada. Grosseria não conquista ninguém.” (pág. 54)

Mais uma vez, a Série Vaga-Lume mostra seu valor, ao tratar, por meio de um enredo muito bem elaborado, de temas que precisam ser discutidos com os jovens leitores.

Contexto e trama

Um dos pontos fortes do livro é a interdisciplinaridade. O segredo dos sinais mágicos é uma história que pode ser explorada de forma conjunta por professores de Língua Portuguesa, História e Educação Artística, o que, aliás, poderia render trabalhos bem interessantes.

O autor utiliza os cenários da Bahia e de Lisboa para desenvolver o enredo protagonizado pela jovem negra Janaína e por Jorge, o sobrinho branco de Fátima, a madrasta portuguesa garota. O sincretismo religioso dos orixás africanos com os santos portugueses é o grande toque do mistério que envolve a investigação pela busca de um tesouro que pode salvar o futuro financeiro da família portuguesa de Fátima e Jorge. Para isso, contudo, as pistas estão nas mãos de Janaína.

Essa leitura é uma ótima oportunidade para retomar pontos da história de Portugal e compreender melhor um pouco da história dos negros, por meio de sua religião e seus significados. A cada ponto da investigação de Janaína e Jorge em busca do tesouro, o autor amarra pontos que relacionam, de alguma maneira, Brasil e Portugal.

Desdobramentos 

Considero muito válida a leitura desse livro de Sérsi Bardari, autor que publicou, pela própria Série Vaga-Lume, outros títulos que mesclam questões históricas com religião, mitologia e esoterismo.

Em tempos tão intolerantes, levar aos jovens assuntos tão delicados é, sem dúvida, uma maneira inteligente de abordar questões sócio-históricas importantes.

O segredo dos sinais mágicos
Sérsi Bardari
Editora Ática
1993 – 111 páginas

Série | Os Defensores

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Terminei de assistir ao último capítulo da primeira temporada de Os Defensores com certo alívio. A meu ver, a proposta inicial da série (um tanto ousada, inclusive) foi cumprida: juntar quatro heróis que já haviam aparecido em séries individuais em uma mesma trama com coerência. Sim, houve alguns problemas no processo, mas creio que todo o público que, anteriormente, já havia acompanhado as duas primeiras temporadas de Demolidor (Charlie Cox), e as primeiras temporadas de Jessica Jones (Krysten Ritter), Luke Cage (Mike Colter) e Punho de Ferro (Finn Jones) já esperavam por isso.

Enredo

Uma das coisas que fizeram com que a série de fato conseguisse entregar o que seus produtores haviam prometido foi um enredo coerente, nem que para isso fosse necessário criar “subnúcleos” entre os protagonistas. Aproveitando o gancho dos Heróis de Aluguel dos quadrinhos, Luke e Punho de Ferro rapidamente se ajustaram, mas foi a interação totalmente apoiada no contraponto entre Demolidor e Jessica Jones o elemento que garantiu a dinâmica de alguns episódios.

Há vários pontos interessantes a serem pensados em relação ao enredo. A ideia básica é muito boa, é coerente a forma como os quatro protagonistas se veem em “uma mesma encrenca”, mas é inevitável não pensar que o pequeno número de episódios (apenas oito) é insuficiente para estruturar satisfatoriamente uma trama com vários heróis que vinham de atuações protagonistas. Alguma coisa seria sacrificada. Ou algumas.

Infelizmente, houve o subaproveitamento de personagens coadjuvantes muito bons, como Karen Page (Deborah Ann Woll), do “núcleo Demolidor”. Ficou uma coisa bastante artificial ela protagonizar diálogos um tanto óbvios (o que não é aceitável, dado que se trata de uma mulher bastante astuta e inteligente), chegando até a bancar a inconveniente em várias situações.

Outro ponto bastante estranho foi a trajetória do Tentáculo, grande vilão da trama. Composto por quatro “pilares” (isso não é mera coincidência – quatro vilões, quatro heróis), eu comecei a desenvolver o raciocínio um tanto óbvio (estou usando muito essa palavra neste texto, eu sei) de que cada herói seria confrontado por um dos vilões do Tentáculo, então ver Colleen Wing (Jessica Henwick) fazer o que fez (estou tentando não dar spoilers) no último episódio me deixou, de certa forma, chocada, porque Bakuto (Ramón Rodríguez) tinha sido superior ao Punho de Ferro (Finn Jones) em vários combates anteriores – ou seja, onde está a lógica? Colleen conseguiu fazer o que o Punho não conseguiu?

Ponta de luxo

Sigourney Weaver como Alexandra, coração do Tentáculo, também teve uma participação competente, porém encerrada prematuramente, a meu ver. Os roteiristas poderiam ter se valido mais da boa interpretação da atriz para conferir mais força à trama, mas, em vez disso, preferiram destacar a presença de Elektra (Élodie Yung) – que já está merecendo sua própria série, diga-se de passagem. Afinal, são muitas contradições dentro de uma mesma personagem, então, penso que seria o caso de desenvolver uma série individual para o “amor assassino” do Demolidor.

Enfim, nada é perfeito. A iniciativa é válida, e eu gostaria que Os Defensores continuasse em outras temporadas, mas com maior número de episódios – a despeito das agendas individuais das outras séries (talvez isso possa ser administrado de forma competente pela Netflix, não sei).

Os Defensores
Criação: Douglas Petrie
Ano: 2017
País: EUA
Gênero: Ação/Crime/Drama
Duração – Temporada 1: 8 episódios (cada um com 1 hora em média)

 

Estante | Títulos

Resolvi criar essa categoria aqui no blog para encaixar determinadas curiosidades sobre os livros que tenho. Assuntos que, apesar de guardarem sua carga de interesse, não se encaixam em outras “seções” que já consolidei aqui.

Começo, então, por uma parte muito importante de cada obra literária: o título. Confesso que já me interessei profundamente por determinados livros a partir de seus títulos. Não é algo que acontece sempre, mas sempre considero um episódio curioso quando isso acontece.

Assim, selecionei alguns títulos que valem a menção ou por sua beleza, ou pela curiosidade que provocam, ou ainda por seu teor inusitado. Vamos lá!

cronica_da_estacao_das_chuvas_1242073909bCrônica da estação das chuvas (Nagai Kafu) – Este é um dos títulos mais bonitos que já vi. Este livro de Nagai Kafu também conta uma história interessante sobre a vida noturna japonesa do início do século XX, ambientada nas ruas de Tóquio e nas casas de chá. Uma leitura que fiz há muitos anos, mas que vale uma releitura a qualquer hora.

Digam a Satã que o recado foi entendido (Daniel Pelizzari) – Sem dúvida, este é o título mais inusitado da minha estante. Esta trama contemporânea conduzida por Pelizzari se passa em Dublin, na Irlanda, e mistura assuntos completamente diferentes entre si, com um efeito pós-moderno e uma sensação de algo sempre está escapando pelas páginas…

Antes do baile verde (Lygia Fagundes Telles) – O que dizer de um dos maiores nomes de nossa literatura? O título deste livro de contos é poético e mexe com a ideia de figuras de linguagem e, ao mesmo tempo, instiga a leitura.

O livro do cemitério (Neil Gaiman) – Esse título é mórbido e curioso. Gosto dele. Aliás, Gaiman é um dos meus escritores favoritos e este é um de seus melhores livros em minha opinião. Já escrevi sobre ele aqui no blog.

12165_ggCinzas do Norte (Milton Hatoum) – Não é o meu livro favorito do mestre Hatoum (já falei sobre ele aqui), mas, sem dúvida, é o título que mais mexe comigo entre suas obras. O interessante é que esse título, em si, não diz muita coisa, mas é extremamente bonito a meu ver. Está à altura de uma bela história, sem dúvida alguma.

As filhas sem nome (Xinran) – Também já falei sobre este livro aqui no blog, mas não podia deixar de incluir esse título tão forte neste pequeno levantamento. Pensar em uma pessoa sem nome, para mim, é pensar em alguém sem identidade. Alguém que, necessariamente, não existe para efeitos legais e que não é sujeito de suas ações. Neste livro, a autora chinesa conta a saga de várias mulheres de uma mesma família no contexto da sociedade chinesa rural e urbana também, acompanhando-as em seus caminhos.

A melhor democracia que o dinheiro pode comprar (Greg Palast) – Um livro-reportagem que já vale a leitura por esse título tão contundente. O autor é um repórter investigativo norte-americano que vive e trabalha na Inglaterra como freelance. Neste livro, Palast dedica-se a mostrar o que há por trás das grandes organizações petrolíferas, privatizações e fraudes não apenas nos Estados Unidos, mas chegando ao Brasil também.

Não há dúvidas de que esta lista pode ser ricamente encorpada, e é possível que eu continue a fazer isso em posts futuros. Por ora, e para não cansar a leitura, fico nestas primeiras observações.

Neil Gaiman | A bela e a adormecida

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Uma nota rápida sobre essa releitura belamente ilustrada, que mescla dois dos contos de fadas mais famosos: A bela adormecida e Branca de Neve e os sete anões.

Essa breve leitura me lembrou uma atividade que fiz durante a minha pós, quando tivemos de reinterpretar algum conto de fada e escolhi justamente A bela adormecida. É sempre bastante interessante trabalhar com esse tipo de exercício de escrita e tive justamente a impressão de que Neil Gaiman estava jogando consigo mesmo enquanto punha em um mesmo contexto Branca e Bela, deixando que elas conduzissem a história e posicionando-se também como um espectador que aguarda para ver onde tudo vai acabar.

A subversão dos papéis de Bela e de sua bruxa (desculpem o spoiler) foi o grande toque dessa releitura, e centrar toda a solução do problema no embate entre as próprias mulheres conferiu à versão de Gaiman um toque bastante pós-moderno (que, aliás, caracteriza a sua produção literária). Trata-se de uma ideia muito bem articulada, com o uso cuidadoso de cada elemento, como o sono, o despertar, a presença dos anões e por aí vai. As peças vão se encaixando em um ritmo muito leve e com bastante coerência.

Ver Bela e Branca juntas também me lembrou a ótima série de quadrinhos da Vertigo chamada As mais belas fábulas, criação da ótima equipe de Bill Willingham, que não apenas revitaliza todo o universo dos contos de fada por meio da linguagem e da estética das HQs, como também contribui para preservar e estimular o interesse permanente pelas origens dessas personagens tão tradicionais.

A bela e a adormecida
Neil Gaiman
Ilustrações de Chris Riddell
Tradução de Renata Pettengill
Editora Rocco
2015
72 páginas

HQ | Corpos

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O grande desafio de uma obra cuja estrutura é grandiosa é justamente manter o seu argumento monumental no decorrer de seu desenvolvimento, culminando com um clímax igualmente impressionante. Corpos, HQ seriada em 8 partes no mercado internacional lançada em 2014 e publicada em volume único no Brasil no mês de junho deste ano, propõe a si mesma essa provocação.

A ideia elaborada por Si Spencer (o mesmo de Hellblazer, A cidade dos demônios) e desenvolvida por seu time de artistas gráficos é instigante e proporciona uma leitura ao mesmo tempo reflexiva e insólita. Li várias resenhas de teor negativo a respeito de Corpos, mas devo dizer que discordo. Trata-se de um bom trabalho, que vale a leitura.

Enredo

Um corpo masculino, nu, com sinais de tortura, mutilação e tudo o mais, é sumariamente encontrado em uma calçada em Londres. Um assassinato bárbaro, sem dúvida. Esse é o ponto de partida para o desenrolar da HQ. Até aí, nada de tão novo, se o mencionado assassinato, com as mesmas características, não se repetisse de tempos em tempos e no mesmo lugar (Inglaterra). Ao leitor, isso é apresentado em quatro momentos: 1890, 1940, 2014 e 2050. Em cada uma dessas épocas, a investigação do crime fica a cargo de uma figura peculiar: o inspetor Edmond Hilinghead, em 1940; o corrupto Charles Whiteman (na verdade, o polonês Karl Weissman), em 1940; a sargento-detetive Shahara Hasan, em 2014; e a jovem Mapplewood em 2050.

A princípio, o argumento é rebuscado. Durante a leitura, eu me peguei pensando se realmente era necessário estabelecer quatro linhas de desenvolvimento simultâneas. No último terço da leitura, entendi o motivo.

Chaves de significação

Corpos mexe com assuntos delicados. Homossexualismo, xenofobia, sexismo e a falta de ética, são os principais temas representados pelas quatro linhas de desenvolvimento da história, por meio de cada um de seus protagonistas. O ponto interessante é que a explicação para os corpos (não vou dar spoliers aqui) é tão grandiosa quanto propõe a ideia inicial do enredo da HQ. Corpos entrega o que promete em relação a isso.

A distribuição de ícones da história e da cultura inglesa no decorrer dos quadrinhos é intencional e contribui de forma positiva para o plano da história. Jack, o estripador, Sherlock Holmes e Winston Churchill são algumas das referências que povoam as páginas de Corpos. Spencer parece querer compor uma homenagem à Inglaterra, seu país, ao levantar uma reflexão sobre os destinos de seu povo ao longo dos séculos por meio de uma HQ com alto grau de elaboração. Não deixa de ser bastante envolvente a ideia de considerar esse tipo de argumento na forma de um produto extremamente pop.

Visual

O trabalho gráfico de Corpos é muito bom em sua concepção. Como leitora, porém, demorei um pouco para me adaptar à mudança estética geral de padrões (cores, traços, fontes e até a distribuição de quadrinhos) de cada era em uma leitura simultânea. Considerei a possibilidade de ler cada etapa separadamente (primeiro toda a parte de 1890; depois, toda a parte de 1940, e assim por diante), mas pensei que o desafio proposto pela equipe criadora fosse exatamente a leitura simultânea das quatro eras, com suas diferenças gritantes e também suas surpreendentes semelhanças.

É notável o cuidado que a Vertigo teve para executar a ideia de Spencer, mas não se pode perder de vista que a complexidade do roteiro certamente contribuiu para muitas incompreensões. É preciso um exame minucioso da história e uma boa reflexão para entender como a união de tantos elementos delicados conduzem à ideia proposta pelo roteirista. Quando finalizei minha leitura (entremeada com pausas), fiquei bem satisfeita.

Corpos
Si Spencer (roteiro) & Dean Ormston (arte da fase 1890); Phil Winslade (arte da fase 1940); Meghan Hetrick (arte da fase 2014); Tula Lotay (arte da fase 2050)
Guilherme da Silva Braga/FD (tradução)
Vertigo / Panini Books
210 páginas