Eis aí uma história muito simples, cujo todo diferencial reside basicamente em um fator: o narrador. A meu ver, esse é o elemento que faz com que essa breve novela de Tolstói seja vista como uma obra especial.
Como o título já sugere, a missão desse narrador consiste em contar a fatal trajetória do protagonista, o juiz Ivan Ilitch. Para tanto, faz-se necessário recorrer a flash-backs que visam mostrar o início do percurso de Ilitch em sua consolidação profissional, seu casamento por conveniência, o nascimento dos filhos e a gradual indiferença que foi tomando conta de suas relações familiares.
Passado este primeiro momento, o de contextualização da vida de Ivan Ilitch, seu narrador começa a mostrar suas especiais qualidades para contar ao leitor o processo de morte do protagonista. E aí é que começam a fazer sentido as características do narrador de observação e onisciência. Sim, porque elas são fundamentais para dar a dimensão exata da carga psicológica que Tolstói quis imprimir ao duelo de Ivan Ilitch contra sua doença, principalmente a partir do momento em que ela se “materializa” perante o protagonista:
“Mas eis que a sua mulher disse, quando ele estava transferindo sozinho os objetos: ‘Deixe disso, por favor, os criados vão fazer isso, senão você mais uma vez vai se prejudicar’, e de repente ela apareceu atrás dos biombos, ele viu-a. Ela apareceu, Ivan Ilitch tinha ainda esperança de que ela ia ocultar-se, mas involuntariamente prestou atenção ao lado doente: a mesma coisa permanecia ali, doía como sempre, ele já não podia esquecer, e ela evidentemente espiava-o de trás das flores. Para quê tudo aquilo?” (p. 52, grifos do autor)
À medida que a doença ganha força e Ivan Ilitch se dá conta do vazio de sua vida, a genialidade do narrador explicita-se na profundidade com a qual enfatiza a descoberta, por parte do protagonista, de sua própria degradação:
“Esperou apenas que Guerássim saísse para o quarto vizinho, deixou então de se conter e chorou como uma criança. Chorava a sua impotência, a sua terrível solidão, a crueldade dos homens, a crueldade de Deus, a ausência de Deus.” (p. 66)
A quarta capa da edição que eu li diz que Tolstói passou um tempo afastado da atividade da escrita, com o objetivo para se dedicar à vida espiritual. A Morte de Ivan Ilitch marca o seu retorno como escritor e isso faz todo o sentido, porque a importância do teor abstrato do drama do protagonista de fato denota uma preocupação do autor com essa dimensão imaterial da transição da vida para a morte.
Publicada em 1886, essa narrativa curta é impressionante por tratar de forma tão contundente da hipocrisia do ser humano e do fim inevitável a todos.
A Morte de Ivan Ilitch
Lev Tolstoi
Tradução de Boris Schnaiderman (diretamente do russo)
Editora 34

