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Esse post tá bem atrasado, mas o que vale é o registro. A leitura que o Ágora escolheu para o mês de abril foi Dois Irmãos, do talentoso Milton Hatoum, um dos nomes mais importantes da nova geração da literatura brasileira.
Bem, essa leitura foi mais do que proveitosa para mim. Trata-se de uma narrativa bem estruturada, bem-cuidada, que dá até gosto de ler. Eu fui levada por essa prosa de personagens tão bem constituídos, em que o peso psicológico tem um valor inestimável. Dois Irmãos é uma história sobre as diversas faces que o amor e o ódio são capazes de assumir na trajetória de uma família.
Omar e Yaqub são gêmeos tão próximos pela questão do nascimento quanto distantes como o dia é da noite. Essas personalidades tão distintas são intermediadas pela forte influência da mãe, Zana, que manipula tudo e todos, inclusive o marido, Halim, e a outra filha, Rânia. Está o tempo todo nas mãos da matriarca - forte traço literário do pós-moderno, essa centralização na figura feminina - o destino dessa família, tão marcada pelo bem e pelo mal.
Eu fiquei angustiada lendo esse segundo livro do Milton Hatoum (a obra ganhou o Prêmio Jabuti como melhor romance do ano de 2001). Essa angústia foi parecida com a que me acometeu quando li Dom Casmurro, de Machado de Assis. Isso porque a mesma sombra da dúvida que paira o tempo todo sobre Bentinho e Capitu também se projeta sobre a paternidade do narrador de Dois Irmãos, Nael, filho de Domingas, a empregada que é o porto seguro da família de Zana. Imperdível.
Eu sou ingênua mesmo. Como o nome da expressão já pressupõe, pensei que o famoso “jeitinho brasileiro” fosse, é claro, uma invenção verde-amarela. Entretanto, eu me enganei. Hoje, li uma coisa muito interessante em um texto do sociólogo português Boaventura Sousa Santos a esse respeito e reproduzo, abaixo, um trecho que fala sobre a ineficiência do Estado português:
Não será ousado pensar que reside aqui a faceta do “caráter nacional” para “sobrepor a simpatia humana às prescrições gerais da lei”, a qual “fez com que durante muito tempo a vida social e pública girasse à volta do empenho ou do pedido de qualquer amigo. Pedia-se para passar nos exames, para ficar livre do serviço militar, para conseguir um emprego, para ganhar uma questão, enfim, para todas as dificuldades da vida”. (Pela Mão de Alice, p. 68)
Assim, não existe apenas o “jeitinho brasileiro”, mas também o “jeitinho português” de ser. Na verdade, podem existir vários outros “jeitinhos” que pregam o mesmo clientelismo, o mesmo favorecimento e a mesma corrupção em outros países, ou seja, a coisa é globalizada, não está presa à questão das fronteiras. Aiai…
Não se assuste com o título deste post. E também não pense que sou preconceituosa – como diz uma amiga minha, “cada qual com o seu cada seu”.
Entretanto, tenho me sentido muito cansada. Cansada demais para aparecer por aqui mais vezes, inclusive. Mesmo tendo tanta coisa para contar. Talvez trabalhar e não receber seja um dos principais motivos disso, afinal, ainda não aprendi a viver de luz – luz natural, é claro, de outra forma, tem a Eletropaulo para pagar.
No entanto, minha ideia não é ler Zíbia Gasparetto ou Augusto Cury para encontrar a saída para os meus problemas. Tô pensando em tentar me autoajudar de fato, ou seja, puxar a mim mesma para frente. Pretendo preciso fazer isso, senão a coisa vai ficar ainda mais feia.
Eu não sou de aplicar a lei da atração, nem de comprar os últimos lançamentos do Roberto Shinyashiki – cujo único livro que li é Heróis de Verdade e não achei ruim –, mas penso que o momento em questão é mesmo o de buscar dentro de mim as respostas que não estou encontrando lá fora. Isso me dará forças para prosseguir com os meus objetivos e voltar a postar aqui em breve.
PS: Agradeço muito todas as novas visitas que venho recebendo desde a publicação da minha resenha no O que elas estão lendo!?. Tentei retribuí-las, mas alguns blogs do blogspot não aceitam comentários de blogueiros de outras praias (entenda-se wordpress).
Um feriado, graças a Deus!
Em meio a tantas coisas para fazer e para pensar, duas lembranças me vêm à cabeça no dia de hoje:
- o conto Primeiro de Maio, de Mário de Andrade;
- 15 anos da morte de Ayrton Senna.
